A RVORE DAS PALAVRAS


TEOLINDA GERSO


VISO


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para ser lido
por Deficientes Visuais


Ela estava na margem, olhando. Enquanto a vida, como os barcos  
vela, passava ao largo. Era tudo to visvel e concreto que tinha 
vontade de chorar. Mas se chorasse era pior, sentiu tirando da 
mala um leno de papel, era como se o mundo risse dela, os 
guarda-sis, as casas, os barcos, as rvores, as pessoas, 
sobretudo as pessoas rissem dela.

Teolinda Gerso


BIOGRAFIA

Teolinda Gerso nasceu em Coimbra, em 1940.
Foi distinguida com o Grande Prmio de Romance e Novela da 
Associao Portuguesa de Escritores e com os prmios de Fico do 
PEN Clube (duas vezes), da Crtica (Associao Internacional dos 
Crticos Literrios) e Fernando Namora (Casino do Estoril).


DeTeolinda Gerso,a Dom Quixote publicou:

O Silncio
Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo
Os Guarda-Chuvas Cintilantes
O Cavalo de Sol
A Casa da Cabea de Cavalo
A rvore das Palavras
Os Teclados
Os Anjos
Histrias de Ver e Andar


GRANDES AUTORES DE LNGUA PORTUGUESA


Edio Viso / Dom Quixote
Seleco JL

N 13 A rvore das Palavras

de Teolinda Gerso


1996, Teolinda Gerso
e Publicaes Dom Quixote - 2003,
Viso e Publicaes Dom Quixote


Fotografia do Autor: Joo Ribeiro


Impresso: Printer, Barcelona
Agosto de 2003


Viso

Edifcio So Francisco de Sales

Rua Calvet de Magalhes, 242, Laveiras

2770-022 Pao de Arcos


Publicaes Dom Quixote

Rua Cintura do Porto

Urbanizao da Matinha, Lote A - 2 C

1900-649 Lisboa


Este livro  vendido exclusivamente com publicaes do 
	Grupo Edimpresa


TEOLINDA GERSO


A RVORE DAS PALAVRAS


Viso / Publicaes Dom Quixote



1.


Ao quintal chegava-se atravs da porta estreita da cozinha. 
E se  verdade que a cozinha era escura, nem por isso se deixavam 
de ver os objectos, as panelas de alumnio e as gordas caarolas, 
os pcaros e as tijelas de esmalte, o fogo esbranquiado, de 
bocas de lato, a grande mesa com tampo de pedra onde havia 
sempre alguma loua esquecida. Mas sobre isso passava-se de 
largo, sem realmente olhar, corria-se em direco ao quintal, 
como se se fosse sugado pela luz, cambaleava-se, transpondo a 
porta, porque se ficava cego por instantes, apenas o cheiro e o 
calor nos guiavam, nos primeiros passos - o cheiro a terra, a 
erva, a fruta demasiado madura - chegando at ns no vento morno, 
como um bafo de animal vivo.
As coisas, no quintal, danavam: as folhas largas de um p de 
bananeira, as folhas e as flores do hibisco, os ramos ainda 
tenros do jacarand, as folhas de erva nascedia, que crescia 
como capim e contra a qual, em dada altura, se desistia sempre de 
lutar.
Era quando algum se deitava sobre a erva que via como eram finas 
as folhas do jacarand varrendo o cu e como o sol era um olho 
azul e doirado espreitando, cegando todos os outros, para que s 
ele pudesse olhar. O sol, sobre o quintal e a casa, era o nico 
olhar no cego.
Mas, como eu disse, no se precisava de olhos para ver, porque 
mesmo de olhos fechados se via, atravs das plpebras inundadas 
de luz - a rede de arame do galinheiro ao fundo,

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o muro, o telhado da casa, as janelas, a porta escura, sempre 
aberta, a varanda, em cima, onde ao cair da tarde Laureano se 
iria sentar bebendo cerveja. No se precisava de olhos para ver, 
a tal ponto se conhecia e possua tudo, e tambm quase no era 
necessrio esperar nem desejar, as coisas aconteciam por si 
mesmas, vinham ao encontro das pessoas - assim por exemplo 
bastava levantar a cabea ao fim da tarde para ver Laureano 
sentado na varanda.
Ento a noite descia, como cerveja preta entornada pelo cu. Ou 
como uma plpebra caindo. Porque era rpido o crepsculo, a bem 
dizer no havia crepsculo, como no havia transio entre as 
coisas: era a treva, ou a luz.
Em baixo - enquanto ele se sentava na varanda - o quintal crescia 
como uma coisa selvagem. Brotava um gro de mapira atirado ao 
acaso ou deitado aos pssaros, brotava um p clandestino de 
feijo-manteiga ao lado dos malmequeres, brotavam silvas e 
urtigas e ervas sem nome no meio da chuva-de-ouro e da baunea - 
qualquer semente levada pelo vento se multiplicava em folhas 
verdes, lambidas pelas chuvas do Vero. E Amlia diria, franzindo 
a testa: O jardim tornou-se um matagal. E fecharia com fora a 
janela.
Mas no era um jardim, era um quintal selvagem, que assim se 
amava ou odiava, sem meio termo, porque no se podia competir com 
ele. Estava l e cercava-nos, e ou se era parte dele, ou no se 
era. Amlia no era. Ou no queria ser. Por isso no desistia de 
o domesticar. Quero isto varrido, dizia ela  Lia. Nenhuma casca 
de fruta podia ser abandonada, nenhum caroo deitado ao cho. 
Isso  l no Canio, insistia, sempre que queria repudiar 
qualquer coisa. Aqui no.
E logo ali a casa se dividia em duas, a Casa Branca e a Casa 
Preta. A Casa Branca era a de Amlia, a Casa Preta a de Lia. O 
quintal era em redor da Casa Preta. Eu pertencia  Casa Preta e 
ao quintal.
 preciso cuidado, dizia Amlia. Estar atento. Tudo parece bem  
superfcie, mas a cidade est podre e cheia de contgios. Ela foi 
construda sobre pntanos.
Quando algum adoecia ela pensava sempre em febres antigas, que 
periodicamente voltavam e deixavam as pessoas olheirentas e 
dbeis, como sugadas por espritos malignos. O pntano, ou a 
memria do pntano, que nunca conhecera porque tinha sido extinto 
h quase um sculo, parecia assedi-la ainda, em vises de 
pesadelo. Como se estivesse ali muito perto a gua apodrecida das 
lnguas. E acompanhava ela mesma o guarda sanitrio e o sipaio, 
que vinham de longe em longe, de braadeira amarela, vasculhar o 
quintal, pulverizando os cantos e os muros com um produto 
malcheiroso que devia exterminar ou afugentar os mosquitos.
Na Casa Preta no havia medo dos mosquitos, nem se receava, a bem 
dizer, coisa nenhuma. Na Casa Preta as coisas cantavam e 
danavam. As galinhas saam do galinheiro e pisavam a roupa cada 
do estendal, cagando alegremente sobre ela, Lia gritava 
enxotando-as mas desatava

a rir ajoelhada na terra, esfregava outra vez a roupa com um 
quadrado de sabo e regava-a com o regador cheio de gua. Parecia 
divertir-se a fazer as coisas, porque ria sempre e nunca prendia 
realmente as galinhas, que tornavam a cagar na roupa, que ela 
regava outra vez - a gua saa em chuva pela mo do regador que 
balanava na mo dela. E pelo caminho entre a torneira e a roupa, 
ela ia ressuscitando as flores.
Assim, as flores nunca morriam muito tempo, voltavam outra vez a 
abrir, bastava ela passar algumas vezes para c e para l, 
balanando sobre elas a mo do regador e a gua transformada em 
chuva. E houve um dia em que ela ressuscitou mesmo um cocorico, 
depois de primeiro o ter matado na mesa de pedra da cozinha, 
mergulhado em gua a ferver depenado, sentada num banco,  
entrada do quintal.
Em cima do avental manchado de sangue, com o bico aberto e as 
asas alargadas, ele parecia esparramado como um saco de 
feijo-jugo. Se lhe escapasse da mo, faria de certeza muito 
barulho a cair. Mas a mo dela era certeira, arrancava as penas e 
atirava-as por cima da cabea - depois o vento levantava-as e ela 
ficava no meio de uma nuvem esbranquiada de penugem leve, que 
pairava em volta e demorava tempo a descer outra vez at ao cho, 
enquanto o frango se tornava uma coisa amarela e gordurosa, quase 
redonda e sem asas, que nessa noite apareceu triunfalmente  
mesa, depois de primeiro desaparecer pela porta escancarada do 
fogo.
Mas na manh seguinte ela tirou-o do avental e deitou-o outra vez 
na capoeira. E ento se percebeu como ela juntara os ossos e os 
cobrira com aquela pele grossa, amarela de gordura, pontilhada no 
lugar das penas, e como tinha sido fcil espetar de novo uma pena 
em cada lugar j marcado, ajeitar o galispo com mos hbeis, como 
se ele fosse de barro, colocar as patas, as unhas, o bico, os 
olhos, um de cada lado, e por fim a crista, no alto da cabea.
Lia abre-lhe os olhos levantando as plpebras cadas, alisa-lhe 
as penas, sopra-lhe para dentro do bico. O galo levanta o 
pescoo, sacode as asas, abre finalmente os olhos. Agora est de 
p, em cima da mesa, e comea a cantar.
Laureano tambm pertence  Casa Preta. No tem medo dos mosquitos 
e plantou ele mesmo um rcino, ao fundo do quintal. O gato Simba, 
que trouxe um dia no bolso do casaco, dorme a seu lado no tapete, 
 hora da sesta, nos dias em que ele vem almoar a casa, e que 
so alis quase todos.

6 - 7


Laureano em geral no dorme a sesta, apenas dormita, sentado na 
cadeira inclinada, de braos muito largos, a que chamamos 
cadeira--aviador.
Mas o melhor momento   noite, antes de eu adormecer, quando ele 
pega numa caixa de msica que tem em cima um gato que dana.  um 
animal surpreendente, que veste um gibo de cetim e uma camisa de 
folhos com jabot de renda e segura acima da cabea um arco de 
flores que se mantm no ar enquanto ele dana, com sapatos azuis 
de salto alto. Tudo nele me intriga e me fascina, porque  um 
gato invulgar, de quem nunca se pode pensar, como de Simba, que  
cunhado do gato bravo e sabe ainda muitas coisas da floresta.
Laureano d a volta  manivela e ele gira sobre si prprio ao som 
da msica - notas leves, metlicas, que lembram vagamente um som 
de timbila. Ocorrem-me perguntas - por que razo se veste assim e 
usa aqueles sapatos? - mas no quero falar para no deixar de 
ouvir, e terei adormecido antes de ele ter acabado de danar.
Em troca deste gato e da sua msica jogarei um jogo contigo. 
Assim, quando chegas  tarde, e chamas, entrando a porta: 
Giiii-iitaaaa... - s o silncio responde, a casa parece vazia e 
sonolenta. Porque eu no estou, como  hora do almoo,  tua 
espera  janela, transformei-me num animal pequeno, escondido em 
passos furtivos atrs do guarda-loua. E tu deixaste de ser tu, 
s agora um animal grande chegando, fatalmente chegando, cada vez 
mais perto.
Sinto-te caminhar, invisvel, por entre os mveis da entrada, 
empurrando a porta da sala, farejando o ar,  procura, por 
debaixo das mesas e por detrs das cortinas, enquanto eu quase 
desapareo na sombra, com o corao a bater cada vez mais. 
Sabendo que nada me dar tanto prazer como esse instante de quase 
terror em que me encontras, quando ainda no s tu, nem s sequer 
um homem, mas o desconhecido, o animal, o monstro, entrando de 
repente em casa e violando a sua ordem antiga.
Ser encontrada  uma morte, um jbilo, o passar de um limite. Por 
isso eu grito, de terror, de gozo e de espanto. E ento tu pegas 
em mim e eu sei que estou  tua merc e que, como um animal 
vencedor, me poders levar contigo, para o outro lado da 
floresta. Sim, esse instante  uma pequena morte jubilosa. 
Triunfas sobre mim e, como se me devorasses, eu desapareo nos 
teus braos. Mas de repente continuo viva, como se voltasse  
tona de gua, do outro lado de uma onda gigantesca.
E agora s de novo tu, de novo um homem, o homem amado desta 
casa. Vejo o teu rosto, o teu corpo, os teus olhos sobretudo, e 
no sei como foi possvel ter estado alguma vez no teu lugar o 
animal. Ou o mal. Porque agora me s familiar como o vento ou a 
chuva.
Ento sobrevm um grande riso e uma grande paz, nesse instante 
vertiginoso em que o informe aterrador se estilhaa e transforma 
de novo em ti. E eu rio de prazer porque todo esse jogo  obra 
minha. Sou eu, quieta, enrodilhada atrs da porta, que te 
converto em animal, quando o sangue me bate com tanta fora no 
peito que o corao quase me salta  boca. Sou eu que me deixo 
descobrir e de novo te transformo em homem.
Nessa altura sinto por ti uma grande ternura e uma grande piedade 
pela tua falta de perspiccia, porque  apenas um jogo mas tu no 
vais nunca aprender isso, e sempre de novo vais cair dentro dele 
como dentro de um poo, e eu ficarei em cima, rindo - e o riso 
ser como uma pedra atirada, agitando a gua, muito tempo, em 
crculos.
E depois fecho os olhos e sei que tambm eu vou cair dentro, 
tambm a mim esse jogo arrasta, como gua, para dentro de um 
poo. Luminoso no fundo. Embora eu saiba que  um jogo - que 
todos os dias invento, reinvento, quando chegas. Um jogo 
repetido, como o sol, ou a lua, na janela.
Todas as coisas, no quintal, danavam, as folhas, a terra, as 
manchas de sol, os ramos, as rvores, as sombras. Danavam e no 
tinham limite, nada tinha limite, nem mesmo o corpo, que crescia 
em todas as direces e era grande como o mundo. O corpo era a 
rvore e o corpo era o vento. Tocava-se no cu levantando apenas 
um pouco a cabea, balanava-se no vento danando, nessa altura a 
vida era danada, s de pr um p adiante do outro o corpo se 
acendia em festa: tudo estava nele e era ele, os gritos altos dos 
pssaros, o bafo quente do Vero africano, a grande noite povoada 
de estrelas. Mas o infinito no tinha sobressalto, nem sequer 
surpresa, era uma ideia simples, apenas a certeza de que se podia 
crescer at ao cu.
Talvez porque se era to grande se sabiam todos os segredos, o 
mundo era familiar, nos mais nfimos detalhes conhecido: sabia-se 
a casca sinuosa do caracol e o rudo da chuva sobre as folhas. As 
manchas do sol no muro e a cantilena alta das cigarras. O sabor 
da terra sobre a lngua e o gosto adocicado das formigas.

8 - 9


O quintal e a casa tambm no tinham limite e tudo cabia dentro 
deles: ouviam-se, quando a gente se distraa e pensava, os passos 
furtivos dos animais selvagens, e dormindo sentia-se na cara o 
seu bafo. E quando se dormia assim fundo, os ps e os braos 
misturavam-se com o seu corpo bravo e sabiam de repente o salto, 
de um ramo para outro, mesmo quando era preciso saltar sobre as 
torrentes e as quedas de gua dos sonhos.
Ento suspirava-se, respirando com a boca entreaberta nos 
lenis, voltava-se a cabea na almofada, mas continuava-se a 
correr na selva, poisando sem rudo as patas grossas, farejando o 
ar tpido da noite. Atento ao menor rumor, por entre as folhas. 
Percorriam-se longos caminhos, na floresta e na noite. Bebia-se, 
enfim, a gua procurada h muito. Baixava-se a cabea at tocar 
na superfcie e partia-se de novo, no p ligeiro do antlope.
Ou mergulhava-se todo o corpo na gua, para matar a sede mais 
depressa, e era-se ento um corpo lodoso e satisfeito de 
paquiderme afundado.
Toda a noite se andava livre, e podia-se trocar de pele a cada 
instante. Ser o corpo veloz da doninha e com a sua boca comer 
frutos sumarentos de mampsincha. Farejar o vento com o focinho 
irado da quizumba.
Podia-se ser tudo, e de manh voltava-se. Abriam-se os olhos, 
mas, mesmo de olhos abertos, nada era diferente. Saltava-se da 
cama com o p fendido da zebra e escovavam-se ao espelho os 
dentes aguados do coelho ou da lebre. Lia punha na mesa o leite 
e a fruta e devorava-se tudo com boca de animal esfaimado. 
Saa-se a porta abanando a cauda.
O dia no quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e 
a vida era gozosa e fcil como o jogo e o sonho. Podiam-se abrir 
os braos e gritar: Eu vivo - mas no era necessrio esse gesto 
exultante e excessivo, as coisas eram to prximas e simples que 
quase no se reparava nelas. Saa-se por exemplo a porta da 
cozinha sem se dar conta de transpor um limiar. No havia 
separao entre os espaos, nem intervalos a separar os dias. 
Porque o corpo ligava a terra ao cu.
Lia estava no quintal e as coisas andavam em volta.  assim que 
a vejo: ela imvel, fixa num ponto, e as coisas girando em volta.

10


A gua sai com fora da torneira, no tanque para onde ela atira 
toalhas e lenis, cai a espaos quando tira a vlvula, leitosa 
de sabo. Ela torce a roupa, molhando os ps que parecem cobertos 
de leite at aos tornozelos, segura com um dos braos a L, 
ajeita melhor a capulana com que a prende sobre o peito. Lia 
traz sempre uma criana pendurada, no peito ou nas costas.
Sei que foi assim que um dia ela apareceu, segurando Orqudea. 
Desconfiada, parando  porta. Aqui precisa ama? Sem largar 
Orqudea.
Entra, entra, diz Amlia impaciente, to impaciente que por 
completo o leite lhe seca, e a lngua lhe seca, e toda ela se 
afia de magreza e pressa, fechando logo a porta. Entra j, que 
essa a no pra de gritar e desde ontem que estou  tua espera. 
No te mandei recado pela Fana?
Mas Lia no tem pressa, porque Orqudea tambm no tem pressa, 
vai sugando e suspirando muito, com rudos de pequeno animal 
saciado. Amlia estremece de nojo na cozinha.  preciso 
desinfectar-lhe o peito com lcool, ou Gita vai sofrer todos os 
contgios. Mas ela recusa-se a deitar qualquer desinfectante nos 
mamilos, e Gita sofre o pior dos contgios: torna-se negra como 
Lia e Orqudea.
Lia d um peito a uma e outro peito a outra, sentada na cozinha 
e no quintal. E assim eu ganho o mesmo cheiro de Orqudea e uma 
carne densa e flexvel, ao mesmo tempo cheia e sem gordura, 
coberta por uma pele macia como a seda. Lia no se separa de 
ns, s vezes nem sequer quando dormimos. A uma e a outra (as 
mais das vezes, quela que no dorme), tr-la junto ao corpo, 
segura na capulana, e assim cozinha, esfrega o cho, varre a 
casa, lava a roupa, acende o lume, escama o peixe, corre a ferro 
os vestidos, sacode o p dos bibelots com o espanador de penas 
azuis e amarelas.
Laureano sorri, sentado na varanda. Sabe que no vou morrer, eu 
que at a era plida de cera e tinha os braos finos como as 
linhas de coser de Amlia.
Lia tambm sorri. Um sorriso lento, que paira nos lbios 
grossos, os dentes espreitando, brancos, separados, no meio das 
gengivas.
A cortina corrida, a penumbra quente do quarto, a roupa atirada 
na cadeira, a voz ciciada de Lia  hora da sesta: Chut, chut. A 
porta fechada devagar, a cauda de Simba no ar, entre os batentes, 
retirada sem pressa, no ltimo instante.

11


Eu olhava Orqudea, na claridade frouxa, como se olhasse um 
espelho. Do meu tamanho, em tudo igual a mim. E sobre ns duas 
Lia dizia: chut, chut, entalando o lenol e fechando a porta.
O dia inteiro eu era sua irm. Orquiiiiideaaaa, grito 
abraando-a, debaixo do jacarand. Ela deixa-se abraar at ficar 
sem flego, agarra punhados de terra com as mos, atira-os ao ar 
com fora. Lutamos, tapando os olhos, sacudimos a terra da 
cabea.
At que vou ter com Lia: Quero o cabelo como Orqudea. Penteado 
em trancinhas em volta da cabea.
Lia tira as mos da bacia da roupa e desata a rir. Espera, 
espera.
Divide-me o cabelo em pequenas mechas, da grossura de fios de l, 
prende nas pontas uma semente furada ou uma conta de vidro, e 
entrana-os com os dedos, como se fizesse um bordado. Espera, 
espera, vai repetindo, enquanto eu me toro de impacincia, com a 
cabea deitada no avental.
Mas o resultado  deslumbrante: fico exactamente igual a 
Orqudea. Sacudo a cabea, trmula de riso: as trancinhas abanam, 
mas continuam no ar, balanam como antenas de insectos, no duas 
mas dez, espalhadas em volta. Abrao a minha imagem, que por toda 
a parte me segue, e que  Orqudea.
Mas Amlia no gosta de me ver. Tira isso depressa da cabea, diz 
abrindo a porta do quarto da costura.
A alegria, cada manh, como um pssaro batendo na janela. E o sol 
era uma cabea de girassol gigante.
Percorre-me, disse a casca do caracol, e eu segui com a ponta do 
dedo a linha escura que partia de um ponto e se alargava numa 
roda e quando ia acabar se transformava noutra e noutra, e 
nenhuma delas tinha fim nem se fechava.
Vem comigo, disse a formiga desaparecendo na terra.
Canta mais alto, disse a cigarra.
Entra dentro de mim, disse a rvore.
Eu te levo, disse o vento.
A gua pingava da torneira e formava um pequeno charco no 
canteiro, a gua que caa de cima acordava a gua que se 
acumulava em baixo e as gotas danavam como bailarinas.
Sol-sol-sol-sol, dizia a gua caindo.

E a poa de gua repetia cantando:
Sol-sol-sol-sol - - quatro notas diferentes, duas mais agudas, 
quase seguidas, rpidas, entre duas outras mais lentas, 
hesitantes.
Ficava-se muito tempo debaixo da rvore, encostado ao tronco, e, 
como eu disse, a gente transformava-se em rvore. Ou tambm em 
pssaro, embora voar fosse mais difcil. Mas ser as coisas era 
fcil. Porque de repente se tinha na mo a raiz de tudo o que era 
vivo. Ento o primeiro ouvido abria-se e comeava a ouvir o 
vento. E depois de muito tempo o segundo ouvido abria-se e 
comeava a ouvir a chuva. E havia ainda muitos outros ouvidos, 
que escutavam o sangue e a voz das coisas.
Nessa altura sabia-se tudo e podia-se ordenar sobre o mundo:
Acorda, fermento, levanta-te e acorda.
Pra, vento, dobra as tuas pernas e senta-te no telhado, ou cruza 
os teus ps e descansa debaixo do alpendre esta noite.
Senta-te, morte, na beira da cama e no leves logo no teu saco 
aquele que vai morrer, d-lhe ainda um pedao de tempo, um pedao 
mesmo s do tamanho de uma folha de palmeira.
E to depressa como abrir e fechar os olhos a noite vinha, e a 
manh voltava.
Nos negros no se pode confiar, diz Amlia. Porque nos desejam o 
mal e nos odeiam. Armam feitios contra ns e podem trazer-nos a 
doena ou a morte. Sim, o teu amigo, o teu amigo  o que te d a 
morte.
Ela no me gosta, diz Lia falando de Amlia. O corao dela  
duro. Mas de Laureano ela diz: Corao grande. E sorri, com todos 
os dentes brilhantes, voltando para ele a cabea.
Amlia vive no quarto da costura, curvada sobre a mquina que tem 
escrito no dorso: P f a f f, em grandes letras separadas. Ouve-se 
no corredor o seu zumbido enervante e montono, interrompido de 
onde em onde pelo estalar das linhas, e uma vez por outra pelo 
som agudo, metlico, da tesoura caindo.
Em geral Amlia corta a linha com os dedos, ou mete-a entre dois 
dentes e puxa-a com um golpe seco, antes de a meter de novo na 
boca para enfiar a agulha.

12 - 13



No usa a tesoura para cortar o fio, o que no deixa de fazer 
sentido, dada a finura deste e o tamanho, que sempre achei 
excessivo, da tesoura. Nunca olho sem espanto a destreza das suas 
mos pequenas, nervosas, manejando aquele instrumento, que me 
parece do tamanho da tesoura de poda do quintal.
Mas Amlia no se deixa intimidar quando precisa de cortar o 
pano: marca um risco com a rgua, um trao a giz a todo o 
comprimento e a tesoura corre sobre o trao, menos cortando do 
que rasgando o tecido, que de repente atravessou de um lado a 
outro.
Por cima da mesa de talhar, tambm ela enorme, h uma lmpada com 
um abat-jour de esmalte branco suspensa do tecto, equilibrada por 
um peso em forma de granada. Quando a luz do dia esmorece, Amlia 
acende a lmpada dando a volta a um interruptor de loua que fica 
junto do casquilho e, com um movimento rpido, f-la subir ou 
descer at  altura desejada, levantando o brao acima da cabea. 
Tudo isso sem desviar os olhos do trabalho, concentrada, os 
lbios juntos, uma ruga no meio da testa que acaba entre as 
sobrancelhas, vertical.
Suspira, finalmente, inclinada sobre a mesa, aqui e ali espeta 
alfinetes que retira de uma almofadinha redonda, presa ao ombro. 
Por vezes segura a cabea dos alfinetes na boca, as pontas 
aguadas aparecem entre os dentes, como se os prolongassem.
No fizesse isso nunca, pedia Laureano. Era morte certa, se 
engolisse algum. J tinha pensado, se tossisse ou espirrasse, de 
repente?
Mas ela no fazia caso e continuava a meter os alfinetes na boca, 
falava por entre dentes com quem vinha provar.
Sim, sim, dizia a freguesa, que era muitas vezes Elejana Miranda. 
Aperte um pouco mais ali. E ali. E ali. E ali.
Voltava-se, entre receosa e satisfeita, diante do espelho, dava 
um passo e outro, para que a roda do vestido balanasse.
Amlia media a parte da frente e a de trs, ajoelhada no tapete.
Um pouco mais subido na bainha?
Elejana hesitava. No, achou por fim. Mas parecia-lhe mais curto 
 frente do que atrs.
Amlia negava, ajoelhada no tapete. Medira tudo e estava igual. 
Mostrou-lhe a fita mtrica, foi buscar uma mquina que cuspia p 
em toda a volta, no lugar exacto, e desse modo acertava a altura 
entre o cho e a bainha.

14


A freguesa suspirou outra vez, no convencida. De qualquer modo, 
descesse-o mais  frente, acabou por decidir, peremptria.
Est certo, disse Amlia rebentando de uma s vez os alinhavos.
Mas depois de Elejana se ir embora, foi a raiva dela prpria que 
estalou:
Devia cortar-te era a barriga, velha gorda, disse por entre 
dentes, agarrando bruscamente a tesoura. Gordura a mais  que te 
empina a saia.
Laureano assobia na casa de banho, cantarolando:  Laurindinha, 
vem  janela - que eu mudo para Laurentina:
 Laurentina, vem  janela, cantamos ambos e ele passa a lmina 
afiada da navalha na cara coberta de espuma.
Ao domingo ele deixa-me desfazer o sabo numa taa de metal, 
espalhar-lho na cara com um pincel de cabo muito curto, que no 
consigo mergulhar na taa sem molhar as mos. Mas agora ele tem 
de ir trabalhar e barbeia-se  pressa, os dedos seguram com 
destreza a navalha aberta em duas partes, a lmina desce em 
movimentos regulares e a pele vai ficando limpa, passa-a por fim 
com gua e enxuga-a na toalha, to rapidamente que suspeito que 
ficaram ainda na pele restos de espuma.
Mas no h tempo de remediar esse facto, tudo o que posso fazer  
deitar na mo e espalhar-te na face o lquido de um frasco verde, 
que tem um perfume muito forte, e me deixa nas mos, e no leno 
onde as esfrego, o mesmo cheiro intenso que se vai manter pelo 
dia fora. E ento tu dizes: At logo, e sais, quase a correr, 
enfiando o casaco j na escada.
Acordo com sede, a meio da sesta. Buscar gua, na geleira, penso. 
Levanto-me sem barulho, passando por cima de Orqudea.
Ouo Amlia sair da cozinha, entrar outra vez no quarto da 
costura. L est, l est de novo o zumbido da mquina. Amlia 
nunca dorme a sesta e ralha com Lia quando a apanha a dormitar, 
sentada no quintal.
No quero que Amlia me escute e passo em bicos de ps diante da 
porta, avano no corredor at  cozinha de onde ela saiu h 
pouco, deixando a torneira mal fechada. Gotas de gua caem no 
lava-loua, umas atrs das outras, sem parar. Nervosas, cheias de 
dio.

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No quero ouvi-las e corro a fechar a torneira. Mas o lava-loua 
 alto, tenho de arrastar o banco e subir, l em cima  tudo 
inseguro e trmulo, no alcano a torneira, e, quando me inclino 
mais, caio no cho desamparada.
Amlia empurra a porta, tropea no banco, levanta-me, aos gritos:
Estpida garota, estpida garota -
a sua mo desce sobre mim e levanta-se, desce e levanta-se, como 
se nunca fosse parar, por um momento no sinto nada a no ser o 
vazio e eu caindo num poo, as paredes rodam, o banco tomba outra 
vez com estrpito,
Estpida garota que no pra quieta -
S mais tarde sentirei a dor e o medo, mas durante um longo 
momento no h mais nada a no ser o vazio e os gritos de Amlia 
que no cessam.
E depois ela senta-se no cho e comea a chorar.
Era isso, de resto, o que acontecia sempre no fim. Amlia 
sentava-se no cho e comeava a chorar.
Ela no gosta de mim, repetia sufocada. A minha filha, a minha 
prpria filha.
As grandes mos de Lia, geis como duas mos direitas. Nunca 
tinha pressa e dir-se-ia, ao v-la arrastar-se, que jamais 
poderia ser eficiente. Mas ela regia-se por uma lgica prpria, 
que desarmava, ou exclua, qualquer outra: Recusou sempre por 
exemplo aprender a ver as horas, media o tempo pelo lugar das 
sombras no quintal. Se lhe explicvamos, apontando o mostrador, 
olhava para ns e sorria com indulgncia, como se tivssemos 
enlouquecido. E se lhe perguntvamos, fazendo girar os ponteiros, 
depois de outra explicao paciente: Ento e agora, que horas 
so? ela dizia ao acaso qualquer hora e escapulia-se, sem mais, 
para a cozinha.
Ela mesma era um desafio  lgica comum porque o seu vulto 
corpulento, agigantado, no se coadunava com a leveza dos 
movimentos nem com a suavidade dos seus gestos. A espantosa 
rapidez com que arrumava a casa tambm nada tinha a ver com a 
tolerncia infinita que demonstrava em relao s coisas, como se 
no quisesse ofend-las nem for-las, antes parecendo dar-lhes 
tempo para se ajeitarem sozinhas,

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sem lhes impor ordem nenhuma, e apenas de repente, por encanto, 
todas as tarefas aparecessem feitas.
E por cima de tudo ela cantava, por entre dentes, como se a vida 
fosse uma cantiga.
Embora tambm suspirasse: Yotatan!, e se queixasse das linhas 
no tapete, das agulhas espalhadas, dos sapatos atirados, da roupa 
deixada de roldo nas gavetas. Porque Amlia, para l da costura, 
que  remunerada, no faz nenhum trabalho em nossa casa, nem 
sequer pendura a sua prpria roupa no armrio.
Ela tem o corao pesado, diz Lia. S para bater ela tem o 
corao leve. No mais  pesado. E frio como a pedra. Porqu, 
pergunto, em sobressalto. Porqu? Porque ela est morta. Est 
viva, mas est morta, diz Lia. Sem Lia no temos comida, nem 
loua lavada, nem roupa passada a ferro, nem limpeza. E a casa 
rapidamente enlouquece.
Isso acontece s vezes, quando Lia desaparece, sem avisar, por 
alguns dias. Amlia enfurece-se, atira o pano da loua contra a 
parede, grita que vai arranjar um cozinheiro e um mainato.
Com gente desta no temos segurana, repete, em desespero, o dia 
inteiro. Vm se querem, se no querem somem. Se fizer isto outra 
vez, no torna a passar daquela porta.
Mas Laureano no deixa despedir Lia. Porque eu no posso 
perd-la, nem a Orqudea.
Se Deus no quiser pra eu morrer, eu volta, diz-me ela 
regressando. Tem medo no.
No fundo Amlia tambm no quer perder Lia e por isso a suporta, 
e a Orqudea, e  minha proximidade com ambas. Mas assim que 
voltam costas, queixa-se de que no lhes suporta nem o cheiro, e 
abre com fria todas as janelas.
Em volta da rvore cantavam e danavam, diz Lia. Da rvore dos 
antepassados. Junto dela ofereciam sacrifcios de farinha em sua 
honra, porque era deles que vinha o esprito que se dava aos 
filhos.
Em volta da rvore cantavam e danavam.
Os antepassados eram espritos e deuses. A eles se pediam boas 
colheitas, sade para o gado, vida tranquila. As pessoas,

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muitas pessoas, aproximavam-se cantando, isso passava-se mais 
longe, ao longo do rio Incomati, dizia Lia.
Cantavam e os espritos ouviam.
Agora ests em casa. As portas fecham-se sem rudo, a noite 
hesita ainda um instante na janela, sobre a qual deixamos cair a 
cortina. Tudo se volta para dentro, fica ntimo e denso, como 
quando a gente se interrompe a meio de um gesto e fica de repente 
a ouvir a chuva.
O resto do mundo esbate-se, a cidade  um rumor muito distante, 
uma sombra difusa. Ouo os rudos que te cercam, o arrastar 
distrado da cadeira--aviador, at junto da luz. Vejo-te da 
porta, sentado atrs do jornal. Vejo: os ps, as meias, a cala 
de algodo, a camisa clara, de manga curta. O relgio no pulso 
esquerdo, o cotovelo dobrado, segurando o jornal. Mas j desde o 
primeiro momento em que chegaste e j antes, sempre, eras uma 
presena inteira. Mesmo sem eu te olhar.
E agora que dei a volta ao espaldar da cadeira--aviador vejo o 
teu cabelo escuro, a cabea um pouco inclinada, a nuca, a parte 
de trs das orelhas, que a extremidade da haste dos culos 
contorna.
Caminho sobre um s p na tua direco. A sola bate com fora no 
soalho, tu continuas a ler, como se no ouvisses. Fingindo, 
fingindo. Mas  apenas um prazo, um curto prazo que te dou, antes 
de teres de escolher entre o jornal e eu. E, porque sei que  
sempre a mim que escolhes, rio baixo, saltando sobre um s p,  
tua volta.
Porque tenho a certeza de que tu s bom. E uma certeza grande, 
como saber que a terra gira, o sol nasce, ou as estaes do ano 
se sucedem. Tu s bom como as rvores so rvores e a chuva  
chuva. No  preciso reflectir sobre isso, porque ningum 
discorre sobre as evidncias.
Viver  muito fcil, porque meo a partir de ti o norte e o sul. 
Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos 
no transbordem. Ests sentado na cadeira--aviador e eu ando em 
volta, parto para mais perto ou mais longe, posso mesmo voltar-te 
as costas e partir noutra direco, sei que no vou perder-me, 
porque tu estars sempre sentado, a ler o jornal, ao fim da 
tarde. Todas as vezes que eu voltar a cabea, ver-te-ei.
Um homem bom  uma luz na janela. As coisas ganham limite e 
solidez, brilho e cor, e eu caminho danando por entre elas. E 
porque estou segura que ganho a liberdade de danar,

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 porque no tenho medo que improviso,  porque ignoro a rotina 
que me entrego ao fulgor. A dana  isso, um modo mais intenso de 
existir. As rvores danam, as folhas danam, a chuva dana, os 
animais danam, o sol e a lua danam. Tudo o que h a fazer  
deixar-se puxar para dentro do seu crculo, deixar-se sugar sem 
medo para dentro da rbita desmesurada das coisas. Ento a vida 
comea a passar por ns e inclui-nos e ns baixamos a cabea e 
dizemos sim e danamos.
E agora que dei a volta ao mundo, num s p, em torno da cadeira, 
no te concederei mais nenhum tempo e saltarei sobre os teus 
joelhos, derrubando o jornal. Como o gato Simba.
 ento, enquanto sorris e deixas cair as folhas abertas, que 
verdadeiramente te olho: a cara mida, o bigode curto, aparado, 
os culos finos, de aros de metal. Olho-te assim aos poucos, como 
se te recordasse, quando ests na minha frente e no preciso de 
recordar-te - olho-te apenas pelo gosto de olhar-te - os culos 
redondos, de aros de metal, a camisa transpirada, em cujo bolso 
descubro um pente pequeno, que tem um dente partido, os olhos, 
onde aparecem rugas franzidas aos cantos, os dentes brancos, 
quase tanto como os de Lia, brilhando debaixo do bigode, cujas 
pontas se levantam para cima.
Algo na tua cara me recorda um coelho, penso enquanto falas - 
talvez um certo ar tmido, que poderia parecer esquivo se eu no 
te conhecesse tanto, a tua forma lpida, quase furtiva, de andar 
pela casa, o modo como algumas vezes no acabas as frases - 
porque os coelhos, dizem, tambm no acabam as frases, deixam-nas 
como tu assim em suspenso, no ar. Por esperteza, dizem ainda, 
porque tira melhor partido do mundo quem no explica muito e 
apenas deixa adivinhar o que pensa, para depois mudar de opinio 
conforme as circunstncias. Mas tu no fazes isso por clculo, e 
portanto no  por a que te aproximas dos coelhos - se bem que 
as tuas orelhas sejam finas, e o teu nariz estremea tambm  
frente na ponta, fazendo balanar os culos. Se bem que os 
coelhos no usem culos, e nesse pormenor s outra vez diferente. 
Embora a tua pele seja macia e peluda - mas o teu plo  mais 
ralo e menos longo. Excepto no bigode e no cabelo.
Mas o que te aproxima mesmo,  que os coelhos so sempre os mais 
espertos, nas histrias. O coelho leva sempre a melhor ao leo, 
ao javali, ao elefante, ao leopardo e a todos os animais da 
selva. E porque  o mais forte,  ele o rei.

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Lia veio de Marracuene e o seu homem, Zedequias, j andou nas 
minas do Jone, mas agora voltou para c e anda na estiva. Desse 
tempo do Jone sobrou um rdio de pilhas que s toca quando se 
sacode com fora, ou pelo menos quando a gente o bate, em 
desespero, contra o cho.
As crianas que nascem so mostradas  lua, para que ela no lhes 
faa mal. L na aldeia de Marracuene morreu-lhe um filho muito 
pequeno e outro que j sabia andar.
As crianas mortas perdem-se na floresta e no mato, procuram o 
caminho de casa mas no o encontram, porque os mortos perderam o 
faro, como os sardes, e por isso no acham o caminho de volta.
Essas coisas e outras ela conta ajoelhada no cho, espalhando 
cera Cobra no soalho.
Nesta altura Lia j no dorme em nossa casa, vai-se embora ao 
fim da tarde e volta de manh. Trazendo s vezes a L e Orqudea.
No tem tempo de dormir, penso, em sobressalto. Vai passar a 
noite a chegar a casa, e quando chegar so horas de voltar de 
novo. Porque de manh estar de novo aqui, abre a porta do meu 
quarto, cedo, tropea em Simba, que sai a correr pela escada, 
corre a cortina da janela. Acorda, minina, acorda.
Onde moras? pergunto.
Ela diz: Longe. E suspira.
Mas longe onde , quero saber - mais longe que o Chamanculo, a 
Avenida de Angola, Munhuana, Xipamanine, Mafalala? Mais longe que 
a Estrada das Lagoas?
Ela repete: Sim. Longe. E suspira.
Dos negros no sabemos nada, diz Amlia. Nem podemos procur-los 
porque no sabemos onde moram, no tm endereo, vivem em stios 
vagos, palhotas iguais umas s outras, no meio de corredores de 
canio.  agulha em palheiro, se se quiser achar algum.
Ento chegou um dia que talvez fosse uma vspera de Natal muito 
quente, Laureano procura na despensa, enche um cesto com aquilo 
que encontra, bolachas, chocolate, po doce e uma garrafa de 
vinho e faz questo de lho levar ao machimbombo, porque ela j 
tem de levar a L amarrada ao peito. Lia no quer, ralha ao de 
leve, num grande riso - patro - porque no acha certo ele 
carregar o peso, tenta alcanar a asa de sizal

20


com a mo que no d a Orqudea, mas ele insiste e samos a 
porta, Laureano eu Lia L e Orqudea, uma pequena famlia 
caminhando, as rvores balanam, acima da cabea, o ar est mais 
fresco, agora, e reencontra-se a alegria de andar.
Por vezes, sem prevenir, suspendo-me no brao de ambos e volto 
rapidamente os ps por cima da cabea, para logo de um salto os 
pousar no cho, eles assustam-se por um instante e riem, Orqudea 
imita-me e Lia diz: Mininas macaca. Ento corremos  frente, eu 
e Orqudea, e quando voltamos trocamos de lugar e seguimos noutra 
ordem, de mo dada, Laureano eu Orqudea L e Lia, Laureano 
Orqudea eu L e Lia, Laureano Orqudea L Lia e eu.
At que chegamos  paragem do machimbombo, no Largo Joo 
Albasini, e nos juntamos  longa bicha de quem espera, embora eu 
e Laureano tivssemos podido ir embora, porque aparentemente 
terminou o nosso papel, ou o dele, de carregar o cesto. Mas 
nenhum de ns tem essa ideia, ficamos tambm  espera, embora 
seja difcil estar parado tanto tempo no mesmo lugar e o corpo 
modo procure alvio apoiando-se ora num p ora noutro. Como se 
pensssemos, absurdamente, que o facto de ali estarmos tornaria 
mais fcil o resto do percurso dela, entre a ltima paragem e o 
lugar onde mora, quando ningum mais l estivesse para ajud-la - 
ou no pensamos nada, ficar ali  uma evidncia e nenhuma outra 
coisa nos ocorre.
At que chega, finalmente, o machimbombo 13, numa nuvem de p, e 
pra  nossa frente, com um grande barulho de mquina roncando. 
L dentro todas as janelas esto cheias, todos os espaos 
ocupados entre o cho e o tecto, figuras que parecem pequenas 
oscilam nos corredores, agarradas aos bancos, homens, velhos, 
mulheres, crianas, rapazes de camisa desbotada.
No largo h um borborinho, um rumor de inquietao da gente que 
empurra e se aflige se vai ou no caber, avanamos quase levados 
por uma onda humana, e ento Lia larga a minha mo e entra com a 
L e Orqudea, vejo-a segurar o varo da porta e acenar depois, 
por entre um mar de cabeas que espreitam. Logo a seguir o 
machimbombo arranca, levantando mais poeira e parecendo 
desconjuntar-se, afasta-se cada vez mais at o perdermos de 
vista. Por um longo momento tudo parece estar ainda a acontecer, 
a mo de Lia largando a minha para agarrar o varo da porta, a 
partida do machimbombo, o aceno, l dentro, no meio das cabeas 
que oscilam, a figura dela,


21


agora tambm quase pequena, as caras diminutas da L e de 
Orqudea, a vidraa da janela, que parece cort-las pelo meio.
Ento tudo desaparece, como por encanto, e eu fico para trs, 
numa nuvem de p. A noite caiu subitamente, mal se distingue 
contra o cu a silhueta esgalgada das rvores, a Terra  um 
planeta desolado e morto, boiando.
Foi talvez a que comearam os sonhos - eu ia pelo mato com Lia 
e de repente ela desaparecia por um carreiro, perdia-se no meio 
do capim. Liiiaaa, chamei, correndo atrs, mas sem poder andar 
porque sentia uma dor aguda a cada passo e o p de repente 
inchado deixara de me caber no sapato. Liiiaaa, chamei de 
novo, arrastando-me com dificuldade mas gritando de alegria 
porque detrs de um arbusto assomava um leno azul e encarnado. 
Mas quando me aproximei deixei de o ver. Sentei-me no cho, 
descala, e vi que no podia andar porque tinha espetado no p um 
espinho de micaia.
No te vs embora, digo-lhe de manh abraando-a. Nunca, nunca.
No chora, diz ela. No chora, no.
Senta-se no cho ao meu lado, e faz-me uma boneca de trapo, com 
dois gestos rpidos das mos - farrapos soltos, sobras desconexas 
da costura de Amlia, botes e argolas, colchetes e missangas 
apanhados do soalho, de repente juntos, numa figura inteira. Sigo 
fascinada os seus dedos, como num passe de mgica, e olho a 
boneca com assombro, porque ela me parece misteriosa. Um fio une 
os pedaos, invisvel mas to forte que a transforma numa coisa 
quase viva. E isso aconteceu diante dos meus olhos, ela surgiu, 
quase do nada. Eu vi.
Vai chamar-se L, digo pegando-lhe com as duas mos, porque a 
acho muito parecida com a L.
Avano no quintal atrs de Lia, pousando os ps nas suas 
pegadas. Onde tu fores irei tambm, o que tu fazes, quero fazer 
tambm.
Mesmo algo assim espantoso eu farei. Juro, juro. Uma boneca viva, 
eu farei. E se algum a cortar em pedaos eu coso-a com agulha e 
linha e ela fica outra vez inteira.
E de sbito sou to feliz e to forte que ouso inventar a 
histria de uma criana morta: Algum, no animal, no um 
esprito, algum que no  ningum porque  apenas uma boca, 
devora uma criana e corta-a em pedaos. Lia pega nos pedaos

22


e a criana cortada fica outra vez inteira, como a lua cortada 
ressuscita, como o galo morto cantou outra vez no quintal.
Vejo-a nitidamente  minha frente,  criana cortada - as mos, 
os ps, a cabea, o corpo em pedaos, o sangue como um rio. Quem 
chegasse perto ficaria coberto de sangue at aos tornozelos.
No meio de tudo isso anda uma faca. Soltou-se da mo de algum e 
nunca mais se recolher na mesma mo. E de repente h um rio que 
a leva.
Tens lugar para mim, l onde moras? pergunto, sentando a L de 
pano ao lado da verdadeira.
Ela abre um sorriso largo, amarra o leno, com um n, em volta da 
cabea:
Eu tem.
Sim, talvez fosse a que comeavam os sonhos e as imagens que me 
assaltavam e pareciam tambm sonhos, embora eu no fechasse os 
olhos nem dormisse, talvez datasse tambm da o medo de 
adormecer, as sadas da cama  hora da sesta, as descidas das 
escadas, em bicos de ps, para vir escutar  porta da cozinha o 
rudo familiar das caarolas e no meio do corredor o zumbidouro 
da mquina - - pfaff, pfaff, pfaff - como um arfar de locomotiva.
 hora da sesta Orqudea dorme logo e no tem medo. Tem a cabea 
deitada a meu lado, na almofada de pano onde, mesmo na penumbra, 
se distinguem flores, e respira devagar, com a boca entreaberta e 
o nariz voltado para o tecto. Mas eu no consigo adormecer. Uma 
ameaa anda pela casa, prxima, quase palpvel. Quase com nome e 
rosto. Mas no consigo nome-la, e talvez seja isso o mais 
assustador.
Mantenho-me vigilante,  espera de qualquer indcio. Alguma coisa 
pode acontecer, vinda de algum lado, o menos previsvel. Espio, 
com os olhos em fresta, imitando Simba. Olho em redor sem voltar 
a cabea, farejo, tacteio - todas as minhas antenas no ar, em 
estado de alerta. Mesmo no escuro de olhos abertos, espreitando. 
Terei de estar atenta, sinto, para no deixar que algo acontea, 
algo que no vejo claro, mas ir partir o mundo.
At que a inquietao  demasiado forte e me levanto, empurrando 
Orqudea que no acorda, mesmo quando a fao rodar para o lugar 
junto  parede e salto, sobre o seu corpo, para o cho.

23


Deso as escadas com ps de veludo. Como Simba. Nada ir trair a 
minha presena, prometo a mim mesma - som de passos, sombra, 
respirao - nada, nada.
Mas tudo parece em paz na casa sonolenta, Laureano no veio 
almoar, Simba dorme enrodilhado no tapete, Lia est sentada na 
esteira da cozinha e dormita, com a cabea cada sobre o peito, 
atravs da outra porta ouve-se o rudo da mquina de Amlia.
Respiro fundo, encostada  parede, com o corao descompassado. 
Volto a subir a escada, devagar.
 noite acordo por vezes e ouo as vozes: Laureano e Amlia 
discutem no quarto da costura. Mas nessa altura o corpo pesa-me 
como chumbo, as pernas tremem e no tenho coragem de descer a 
escada e ir escutar  porta, fico enrodilhada na roupa, sem 
distinguir as palavras mas percebendo o som das vozes e o seu 
timbre - a de Laureano lenta, sempre igual, como se repetisse 
incansavelmente a mesma frase, a de Amlia estridente, mais 
forte, interrompendo-se a espaos, recrudescendo de onde em onde.
O rudo alto da tesoura caindo.
Lia murmura uma frase em voz baixa, por entre dentes, enquanto 
limpa o soalho de ladrilhos.
Ests a falar com quem? pergunto.
Com as formigas, diz ela, sem parar de esfregar e sem tirar os 
olhos do cho.
Por vezes, como eu disse, ela adormecia por instantes, sentada na 
cozinha ou no quintal, a cabea caa-lhe para a frente, num 
movimento brusco - sem acordar ela tornava a levant-la, 
encostava-a outra vez  rvore ou  parede, para de novo a deixar 
cair. Era sobretudo  tarde que isso acontecia, mesmo depois de 
ela tomar caf pelo pcaro de esmalte. Dir-se-ia at que o caf a 
fazia dormir. Mas logo a seguir se levantava e recomeava a 
lidar, mais ligeira e leve, como se tivesse dormido uma noite 
inteira.
Eu imitava Lia, embora no conseguisse adormecer assim 
subitamente, a cabea pendurada sobre o peito, como se uma pedra 
lhe acertasse. Mas tinha tambm ausncias, aprendia a 
provoc-las. Sentava-me por exemplo no quintal e fechava os 
olhos, balanando o corpo. Ou, de olhos abertos,

24


olhava fixamente a luz. Ento o mundo em redor desaparecia, ou 
ficava pelo menos muito longe.
Ou falava, como ela, s formigas: Ouvi, formigas, o que tenho pra 
contar.
As formigas, vendo bem, era com quem melhor se falava. Se se 
contasse algum segredo aos pssaros eles podiam grit-lo sobre os 
telhados e espalh-lo pelo mundo. Mas com as formigas estava-se 
seguro. E depois havia tantas, nem era necessrio procurar, 
estava sempre uma por perto. Ouvi, formigas, o que vou dizer 
agora.
Ou sentava-me debaixo da rvore do quintal e falava com o vento e 
as folhas. A rvore abanava os ramos e eu pensava: a rvore das 
palavras.
s vezes essa rvore reaparecia nos sonhos: Crescia  beira de um 
rio e tinha ramos que chegavam ao cu.
A gua do Umbelzi tem feitio, disse Elejana sentada na beira do 
sof e contando pela milsima vez a histria do seu casamento. Um 
salto do sapato enrodilhara-se no meio das linhas e fazia rodar 
um novelo, quando ela balanava o p. Mas Elejana no dava conta, 
sorria corada e abanava-se com um leque, por causa do calor: 
Dizem que quem a prova volta sempre, disse ela.
Amlia dobrava o vestido, metia entre o corpo e a saia um papel 
de seda.
Pelo menos com ela fora assim, assegurou Elejana rindo muito.
Amlia suspirou com enfado: Nesta terra, s se for um mau 
feitio.
Amlia nunca deixava tesouras cruzadas ou abertas: podiam 
desmanchar a vida, cortando o fio, dizia. E tinha medo de 
feitios, de ossos cosidos na bainha dos vestidos, sementes de 
cajueiro escondidas no seio, montinhos de carvo diante das 
portas, cabeas de galinha enterradas, facas espetadas no cho.
Para j no falar dos xipocus, que mandavam a doena e a morte e 
as tempestades, disse Dona Ismlia despindo um vestido com 
cuidado, para no se picar nos alfinetes. Pois essas coisas 
aconteciam, sim. O cozinheiro dela, ao sair de casa, tinha achado 
um montinho de sal e, enterrada mais adiante, uma pata de 
gala-gala.

25


Desde a nunca mais lhe passara aquela dor nos ossos, e estava 
cada vez pior dos ataques de asma. No anda c muito tempo, 
suspeitava.
E tinha suspirado com Amlia: O Xipamanine est cheio de 
feitios.
Uma vez por ms vamos  barbearia. Ou antes, s tu que vais, e eu 
que vou contigo.  sempre o mesmo barbeiro, na Travessa da 
Catembe, a receber-nos efusivamente, como se nos esperasse, ou 
fssemos visitas. E ainda antes de estares sentado na cadeira, 
com um pano branco em volta do pescoo, j ele comenta as ltimas 
- - a luta livre e o pugilismo da vspera, ou da semana anterior, 
no estdio do Malhangalene, a trovoada que houve nos Libombos, 
quem vai  frente na Volta ao Sul do Save em bicicileta. Ou o 
tubaro que pescaram uma vez perto do Clube Naval, e que foi uma 
coisa por assim dizer nunca vista.
Enquanto fala, vai cortando com uma tesoura os cabelos que 
aparecem do outro lado de um pente preto - gestos midos, 
repetidos, sempre iguais. Tu ouves, com os olhos fechados, vais 
dizendo hum, hum, por delicadeza. Pareces mais feliz quando te 
sentes dispensado de lhe responder, porque tens a cara cheia de 
sabo.
Afia a navalha numa tira de calf grenat escuro e conta que duas 
pessoas fizeram o caminho a p, de Durban at aqui. Um pai e um 
filho. Demoraram quinze dias.
Olho-o, com espanto, do fundo do banquinho onde estou sentada. E 
vieram como?
Ele passa a navalha com cuidado na pele, poupando sempre o 
bigode, que aparou tambm com a tesoura e o pente, recita 
devagar, com prazer, como se contasse j uma outra histria: Ora, 
vieram por Mtuba-tuba, Gobel, Gaba, Impamputo. E depois Boane e 
Matola. E antes atravessaram o Natal e a Suazilndia, claro.
Dou conta de que est calor e vou at  porta, ver quem passa. Os 
negros cortam sempre o cabelo ao ar livre, penso, e isso 
parece-me decididamente uma vantagem.
Volto para dentro a tempo de te ver levantar da cadeira, rir de 
algo que ele est a dizer agora, apertar-lhe a mo alegremente: 
At  prxima.

26


Samos, ufanos, para a rua. s vezes voltamos atrs porque l 
esquecemos um pacotinho de frutas secas da Prodag que tnhamos 
acabado de comprar para Amlia.
Demoraram quinze dias a p, um pai e um filho.  uma notcia que 
me alegra, porque quinze dias no  nada, e com um pouco de boa 
vontade podemos tambm ir ns dois em sentido inverso, de 
Loureno Marques at Durban. Ou a outro lugar qualquer. Afinal 
tudo  fcil, nem precisamos de gastar dinheiro no comboio. 
Suspiro de felicidade, pisando os desenhos calcetados do passeio 
da Sete de Maro, onde entretanto entrmos. Tudo fica to perto, 
to dentro do nosso alcance. Sentamo-nos num banco,  sombra, 
voltados para o prdio Fonte Azul.
Sbado vamos ao mercado, anuncias. E num domingo desses, vamos  
Catembe.
 Catembe amos fazer piqueniques com o Z Mrio e a Toninha, a 
Elejane e a Margarida Miranda, a Gelita, a Xana, o Agripino, o 
Andr, o Ninito, o Jamal, o Relito e a Bibila. Uma vez, na 
confuso de entrar no barco, um dos cestos ficou esquecido na 
Doca da Capitania.
Isso antes de o Z Mrio comprar a vanete em segunda mo na Rua 
do Trabalho e passarmos a ir mais vezes  Namaacha, a Vila Lusa, 
ao Bilene,  Ponta Mahone. Ou ao Umbelzi, s perdizes, mas a o 
grupo era mais pequeno, alm de ti ia o Z Mrio, o Ninito, o 
Jamal e o Andr. E eu, que s fui uma vez, e tive de ficar por 
perto da vanete. Sem contar com os ces. E depois a Bibila e a 
Xana cozinhavam as perdizes, que comamos todos, em ar de festa, 
ao almoo de domingo.
A menos que o Licnio tivesse um ataque de filoxera. Era uma 
coisa que lhe dava assim de repente e o fazia meter-se no carro e 
andar, andar sem destino, correndo pelas estradas de p, onde se 
ficava sem ver nada quando um carro vinha em sentido contrrio - 
fechavam-se depressa as janelas e tapava-se a boca com as mos, 
mas mesmo assim sufocava-se, no meio de uma nuvem de poeira ocre 
ou vermelha que demorava a desvanecer-se e a deixar ver outra vez 
o caminho.
Quando ele tinha aqueles ataques e se passava palavra entre os 
vizinhos: O Licnio est com a filoxera, vnhamos todos a 
correr e saltvamos para dentro do carro, perguntando uns aos 
outros se tinham avisado o Ninito, porque queramos que ele 
trouxesse o co. E logo que entravam o Ninito e o co partamos, 
aos trambolhes, pela estrada, o Licnio ao volante, de cara 
fechada, sem dizer palavra, rodando cada vez mais depressa, 
enquanto o crepsculo descia. Porque aquilo lhe dava em geral 
quela hora -e depois passava.

27


A certa altura ele parava de repente na berma, dava um murro no 
volante e bradava: Porra!
Ento era sinal de que se voltava para trs.
s vezes tambm fazamos piqueniques ali mesmo, na praia da 
Polana, amos primeiro de machimbombo, mas depois passmos a ir 
todos na vanete, o Z Mrio ao volante, a Bibila entre a Joana e 
o co do Ninho, que ladrava todo o caminho, a Xana com o Zz ao 
colo, a Gelita a desaparecer debaixo de toalhas de banho, caixas 
de plstico e garrafas de Vimto que j no cabiam no 
porta-bagagens.
A vida era assim, e quase no se alterava com as estaes do ano 
- havia o Vero e o Inverno, mas no a Primavera e o Outono. 
Embora dissssemos que tnhamos as quatro estaes no mesmo dia: 
fazia um tempo quente mas de repente caa um aguaceiro to forte 
que o trnsito parava; dez minutos depois o ar era fresco e o cu 
estava limpo.
Em Julho era Inverno e s cinco horas desaparecia o sol, punha-se 
cobertor na cama, podia-se usar sapato de camura e s os 
turistas iam  praia. Em Janeiro havia frias, por causa do 
calor. As aulas comeavam em Setembro.
A vida era assim, no se usava o telefone para conversar, 
aparecia-se sem prevenir em casa uns dos outros para jogar 
cartas, gozar o fresco depois do jantar, que era s sete.
Amlia no ia, porque no gostava de se dar com os vizinhos e por 
isso tambm raras vezes algum vinha a nossa casa. Com o tempo 
isso ficou tacitamente assente. Convidavam-na sempre, por 
delicadeza, para piqueniques e passeios, mas ningum mais contava 
realmente com ela; por delicadeza ainda, fingiam acreditar nas 
desculpas j sabidas - - o trabalho da costura, a indisposio, a 
moinha ou o mau jeito nas costas, a dor de cabea.
De tempos a tempos, ela dizia-me, em relao a outros vizinhos: 
No andes com o To, a Mariquita, o Alcino. Porque deixara de se 
dar com a me deles. Eu afligia-me, sem saber o que fazer, nos 
dias seguintes passava de largo diante da porta onde moravam, com 
medo de os encontrar ou s mes. Sabia que as vizinhas falavam: 
Presumida, trinca-espinhas, toleirona. Ai, se fosse comigo eu lhe 
cantava, dizia-lhe das poucas e das boas. Porque c pra mim... - 
- baixavam a voz quando eu chegava perto.

28


Em alguns domingos Laureano no quer deix-la sozinha, e ento 
ficamos em casa, mas no encontramos o que dizer-lhe nem sabemos 
o que fazer, porque em todo o lado se ouve o zumbido da mquina, 
e o dia nunca mais tem fim.
Os melhores domingos eram em casa do Jamal e da Bibila. Quando 
vocs tinham ido s perdizes e a Bibila ia para a cozinha com a 
Xana e entretanto chegvamos todos e ajudvamos a aprontar o 
almoo. O que durava, a bem dizer, o dia inteiro, porque entre o 
cozinhar, o pr a mesa, o mexer a panela ao lume, e depois o 
almoo propriamente dito, passava o domingo, tanto era o riso e 
as brincadeiras que entremeavam tudo.
Ningum estava inquieto, preocupado ou distrado a pensar em 
amanh, cada um se entregava sem reservas ao gozo do momento que 
passava. A Bibila tirava pedaos com uma colher grande e 
anunciava: Ai, meus filhos, isto ainda  s o princpio, h outro 
tacho ao lume. E o Relho dizia:  pra que saibam. Perdiz connosco 
 assim, sempre a aviar. E o Jamal perguntava : Sempre a aviar a 
caar ou a comer? E o Relito e o Andr contavam das scuas e dos 
pombos verdes que apanhavam em armadilhas, quando eram garotos. 
Tu rias e abrias outra garrafa de vinho. E ningum se ralava se 
se partia um copo ou se caa uma ndoa na toalha.
Lia tambm era alegre - - ria muito e os seus olhos brilhavam. A 
sua alegria era contagiosa, junto dela eu ficava diferente.
Embora tristeza tambm fosse uma palavra que ouvi da sua boca. 
Podia dizer por exemplo de um negro que morria: Deu-lhe uma 
tristeza.
s vezes ela ficava imvel, pensando. E ento tambm ela parecia 
mergulhada em tristeza.
Os negros e as suas mentiras, diz Amlia. Dizem que se chamam 
Jos, Joo ou Joaquim da Silva, mas um dia, por qualquer razo, 
sabe-se que se chamam Bulande, Panquene, Maimige, Comenhane ou 
Chinguizo. No sabemos nada deles. Nada, nada.
E essa a, vai-se a ver e nem sequer se chama Lia, possivelmente 
chamavam-lhe saloia e ela apanhou o fim da palavra e atira-nos 
com ela mentindo.
Ela chama-se Lourdes, diz-me Laureano. Mas Lia tem mais a ver - 
lembra ku lia, no ? Inventmos  toa,  um nome de carinho. 
Ela tambm acha bonito.

29


Quando Lia no vinha eu ia em pensamento at ao lugar onde ela 
morava, que no sabia exactamente onde era, seguia at ao fim da 
cidade de cimento e entrava no Canio, andava pelos caminhos de 
areia, nas sombras ralas de rvores dispersas, atravessava o 
emaranhado das construes muito pequenas, barracas, casas 
cobertas de zinco, palhotas maticadas.
Liiaaa - chamava em voz baixa. Ela respondia e pelo som eu 
encontrava a porta, entrava p ante p e deslizava para o meio 
das crianas que dormiam, procurava o meu lugar e deitava-me, 
empurrando um pouco para o lado Orqudea.
A esteira era fresca e eu ouvia l fora o barulho dos grilos. O 
escuro, em redor, no me assustava. Eu estava em casa. Lia 
pegava no medo e mandava-o para longe, para a floresta e o mato. 
E l, o medo perdia-se.
A noite era suave como um leno velho, muito pudo, gasto de 
tanto uso. O sono quando chegasse repousaria o corpo, como leo 
massajado sobre a pele. Amanh comeramos amendoim e matapa. E eu 
estava alegre em paz e adormecia.
E amanh Lia ia voltar, e eu no precisava de ter medo nem de 
lhe esconder o porta-moedas, para a impedir de se ir embora. Se 
ela no viesse de manh eu iria  noite cham-la - - encontraria 
o lugar onde morava, acharia sempre o caminho - seguiria at ao 
fim da cidade de cimento e continuaria a andar, no meio da sombra 
rala, das rvores dispersas -
De noite, pensava ainda outras vezes, de noite no havia 
diferenas. Eu reencontrava a minha cara escura, e vivia com 
Laureano e Lia na Casa Preta.
 por culpa de Lia que ela no gosta de mim, diz Amlia. A minha 
filha, a minha prpria filha.
Porque tudo isto so histrias de Lia, mentiras de Lia. Coisas 
que Lia lhe mete na cabea.
Foi quando o Jamal Uamusse e a Bibila fizeram anos de casados e 
foram passar uns dias a Joanesburgo.

30


L estvamos todos, no dia marcado, na estao da Praa 
Mac-Ma-hon, s duas e vinte da tarde, excitados, barulhentos e 
quase to felizes como eles, prontos para dizer adeus no meio do 
calor, dos sacos e das malas, dos votos de boa viagem, do cuidado 
de olhar em volta, a ver se no ficava nada esquecido.
Sobretudo no deixem o saco do farnel, lembra algum, porque s 
iam chegar no dia seguinte, s nove e dez da manh.
Vai ser uma longa noite para os noivos, diz o Relito e todos 
desatam a rir.
s nove e dez da manh, se no houver atraso, diz a Bibila que 
tem um vestido cor de laranja e sapatos novos com um enfeite em 
forma de borboleta. Mas para descansar os ps no comboio leva 
outros mais usados e sem salto, que acaba de meter num saco de 
pano para irem mais a jeito.
O Jamal pe-lhe o brao em volta do ombro e tem o ar ufano de um 
noivo acabado de casar.
Depois a gente quer ver retratos, diz a Xana.
Retrato, sim, tira a j, minina, diz o Jamal em pose. Xithombe.
Vai demorar porque pra muito, esse comboio, diz o Tito Umbina. 
Pretria, Belfast, Boven, e outros lugares. Mata-bicho amanh, 
por volta de Komatipoort.
De carro seriam s nove ou dez horas. So uns setecentos 
quilmetros e a estrada  boa, diz o Andr.
Carregadores passam, levando malas, alguns passageiros comeam a 
entrar nas carruagens estofadas de veludo azul escuro, com 
desenhos mais claros, so duas e meia e o comboio parte s duas e 
quarenta e cinco mas h quem tenha pressa de se instalar, outros 
debruam-se nas portas e janelas, dizendo algo a quem fica.
Um comboio chega noutra linha atirando fuligem, h um silvo 
ensurdecedor e o rugido impaciente da locomotiva que agora 
afrouxa, as rodas demoram muito at ficarem quietas, do sempre 
uma volta e ainda outra, s depois as portas pequenas se abrem e 
as pessoas se precipitam a sair, ruidosas, ao encontro de quem 
espera.
Gente apressada passa diante de ns, despede-se de algum, sobe 
para o comboio, nesta linha. So duas e trinta e cinco,  a 
altura dos ltimos abraos, das ltimas recomendaes 
(divirtam-se o mais que puderem, meninos, gozem tambm por ns, 
pensem em ns quando estiverem l),

31


e j eles entraram, com malas e sacos que estorvam na subida, 
quase cobrindo os degraus da porta.
E agora que esto  janela ouve-se, por duas vezes, o toque de um 
sino - ao fundo da gare um homem segura na mo um fio que agita 
desesperadamente, o badalo bate nos bordos com estrondo.
Faltam cinco minutos,  o que querem dizer os dois toques, 
anuncias. Dentro de cinco minutos o sino torna a tocar, s uma 
vez, e o comboio parte, quem no estiver dentro fica em terra - 
mas todos pensamos com alvio que agora no  possvel eles 
perderem o comboio, onde j esto.
Talvez porque vou ter saudades do Jamal e da Bibila, sinto o 
corao bater com muita fora no meio daquela plataforma de 
colunas altas, que vo diminuindo de tamanho, e parecem 
arrastar-nos para o lugar aonde convergem, l no fundo. Como 
coqueiros de ferro, penso desviando os olhos. Sala de Espera, 
Chefe da Estao, est escrito em grossos letreiros 
emoldurados, nas paredes. Ao longo da gare abrem -se portas 
enormes de madeira almofadada, com puxadores brilhantes de lato 
e painis de vidro com um monograma a meio, um C, um F, um L e um 
M entrelaados. Dos corredores laterais, de azulejo verde e 
branco, chegam correndo ainda dois vultos. Retardatrios, diz 
algum.
E ento o sino toca de novo, uma s vez, e o comboio parte: o ar 
cheira a carvo e a fumo e todos os braos nos dizem adeus, 
debruados nas janelas.
Gritamos que se divirtam e acenamos ao Jamal e  Bibila, 
levantando no ar ambas as mos. At  volta, at  volta, 
repetimos emocionados, como se os vssemos afastar-se para 
sempre.
C fora est sol, na Praa de onde partem os machimbombos.
L est o 4, arrancando devagar. Vai, como o 3 e o 5, para os 
lados do Polana. E h tambm o 1, que vai para a Praia, ou o 
Osis. E em certos dias h um outro que nos leva do Osis at  
Ponta do Mar e  Costa do Sol. Quando no apanhamos o 12, para o 
Jardim Zoolgico. E o 13  o do bairro indgena. Mas Lia diz que 
ele passa longe do lugar onde ela mora.
E ela gostou de Joanesburgo? pergunto, referindo-me a Amlia. 
Porque sei que quando casaste com ela a levaste l, neste mesmo 
comboio.
Muito, dizes.  daqui que ela no gosta.
Eu sei que  daqui que ela no gosta.

32


Asseguram-nos que no  verdade, diz Amlia, mas as febres 
antigas ainda a esto, ters e quartas. E epidemias, dizem que 
hepatite e difteria andam na Manhia e febre aftosa em Moamba. No 
gado e na gente. Dizem, dizem. Mas s quando o vizinho morre  
que acreditam que anda a tambm, na nossa rua.
Prevenir todos os contgios era um dos seus cuidados. Para evitar 
o p de atleta esfregava os ps com Nixoderm e nunca pisava o 
cho descala, nem mesmo ao sair do banho. Como se a cidade 
pudesse armar-lhe uma cilada e mord-la num p - uma mordedura 
animal, infecta e malcheirosa. (A cidade arreganhando os dentes 
aos seus pequenos ps brancos, desprevenidos, calados em sapatos 
finos. Pisar a cidade com ps leves, escapulir-se dali, fugir 
rente s paredes pelas ruas mais estreitas, como um rato apanhado 
que poderia ainda safar-se, com esperteza.)
Para prevenir o paludismo tomava de vez em quando Paludrim, 
embora lhe dissessem que tomado assim era contraproducente. E 
pulverizava os armrios com Cafum, porque tinha pavor de baratas, 
parecia-lhe sempre sentir o seu zumbido em volta da cabea.
De noite ouvia-se o coaxar das rs, vindo de terrenos vagos, 
alagadios, de pedaos ralos de capim - - era um barulho 
montono, familiar, que se fundia com o silncio e de certo modo 
fazia parte dele. Mas Amlia queixava-se de que lhe tirava o 
sono. Tinha medo de rs e sapos, para j no falar em cobras - 
era certamente pelo medo das cobras que tolerava Simba, porque 
acreditava que onde h gato no h cobra.
Mas no gostava de Simba, e por isso lhe deitava baldes de gua 
fria, quando o apanhava a dormir no quintal. Sobretudo quando ele 
saltava para uma mesa de pedra, que ficava debaixo da janela do 
quarto da costura, e se enroscava a dormir no tampo quente, com a 
barriga voltada para o sol e o focinho apoiado sobre as patas.
De dentro de casa Amlia espreita, mas finge no o ver at ele se 
abandonar ao calor do sol e cair num sono fundo - vai deitando os 
olhos, aparentemente distrada, atravs do vidro, prega alfinetes 
no pano, dobrada sobre a mesa de talhar. Como se o tivesse 
esquecido. At que abre a janela de mansinho e lhe deita em cima 
um jarro de gua fria, de repente.
Simba d um salto, no mesmo instante em que acorda, sacode-se 
correndo para longe - o miar aflito, irritado e surpreso, e o 
riso dela, logo abafado, sustendo-se de sbito, quando me olha, 
como se tivesse sido apanhada em falso.

33


Porque sabe que de futuro a espreito e enxoto Simba da mesa do 
quintal.
Compramos o Notcias e com ele dobrado debaixo do brao entramos 
numa loja para levantar fotografias. (L estava, l estavam o 
Agripino e o Relito levando os garrafes, a Bibila em fato de 
banho, empunhando uma perna de galinha, o Ninito de toalha ao 
ombro e uma caneca de cerveja em cada mo, o Zz sentado adiante 
do grupo, a Gelita ps-lhe na cabea um chapu feito de folha de 
jornal.)
Mas este rolo ficou mal colocado e estragou-se, diz o empregado, 
que j conhecemos de outras ocasies e se chama Evaristo Leo. 
Desatamos a rir porque esse desastre nos parece irrelevante, 
apesar do preo, para ns quase proibitivo, das fotografias.
Ento dois maos, pedes. Ele sabe o que queres e pe dois maos 
de Atletas em cima do balco.
Em volta h mquinas, caixinhas de rolos empilhadas, 
passepartouts com estrela de cinema, letreiros: Fotografe com 
Ilford, retratos emoldurados nas vitrines - meninas sorridentes, 
noivas, crianas. Um co entra pela porta, o Evaristo enxota-o 
sem parar de fazer o troco. At  prxima, dizemos.
Samos, levando as fotografias, e logo adiante entramos num caf, 
fatigados de andar. Est calor,  o meio da manh de sbado, 
quase o fim da manh. Duas moscas volteiam em torno do gelado, 
que treme sobre a mesinha redonda, de tampo de vidro, onde tenho 
dificuldade em apoiar os cotovelos.
Tambm para ti  um problema arrumar as pernas debaixo da mesa 
sem dar com os joelhos no seu nico p. Mas nada pode levantar-se 
contra ns, nem o rolo de fotografias em branco, nem o p de galo 
da mesa, nem o seu tampo demasiado alto para mim. Estamos vivos, 
diante da mesa exgua, suspirando fundo de alegria e cansao. No 
tecto giram as ps de duas ventoinhas, fazem um zumbido manso que 
se casa bem com a penumbra da sala.
O Trocado Cauteleiro, que no dei conta de entrar, pra pelas 
mesas, conversa um pouco, vende um vigsimo - no, hoje ningum 
quer mais. Ou j compraram jogo. Talvez no Campio, ou no Trevo 
da Sorte. Ele sai, repetindo que h horas felizes. Ouve-se l 
fora ainda algum tempo o prego, misturado ao barulho da rua.

34


Estendes as folhas do jornal em cima da mesa e acendes devagar um 
cigarro abrindo o mao sem olhar, s pelo tacto, como se fosses 
cego. No direi nada, no quero interromper-te agora. Respiro 
devagar, estou unida ao mundo pela boca. O hlito  um sopro, o 
sopro do vento. Partilho-o com o vasto horizonte em volta, fao 
parte dele como ele de mim.
A cidade cerca-nos, com os seus muitos braos, os seus muitos 
crculos, nenhum dos quais nos exclui. Ningum nos pode tirar 
essa sensao de pertencer, de estar contido. Somos parte de um 
todo, uma cidade viva. Algures os barcos passam, entram no porto 
ou partem. Na praia as crianas brincam, os fatos de banho sero 
manchas claras ao sol. Haver barcos de recreio mais ao longe e 
saindo a barra paquetes, vapores, transatlnticos. Abarcar-se- 
tudo isso de um ponto alto, de um mirante, ou mesmo a partir de 
uma prgola florida.
Nada vejo, aqui sentada diante da mesa redonda do caf, e no 
entanto essas coisas longnquas, como os barcos passando, o 
movimento dos barcos, fazem parte deste minuto, em que tudo est 
contido. Rodo a colher no gelado, levo-a devagar  boca. Creme 
vermelho, de groselha, derretendo. Sabor do Vero. Mais alto, 
contra o cu, balanaro as accias. O que penso no tem nitidez, 
 talvez s uma aproximao inexacta. A vida cabe numa colher de 
gelado, respira-se, devora-se com a boca.
Tudo acontece agora muito devagar, os barcos tm todo o tempo 
para partir ou para entrar no porto, as crianas riem, de puro 
gozo de brincar nas ondas. Devagar, devagar. O tempo  um hlito, 
um sopro. No tem nenhuma pressa, demora-se, por momentos parece 
ficar parado para sempre.
Mas j de novo em volta a cidade se agita - - cresce, 
multiplica-se como um caleidoscpio. Andaremos pelas ruas, 
sabemo-las de cor. De algum modo elas esto em ns, como linhas 
gravadas na palma da mo. Paralelas, perpendiculares - 
geomtricas - outras que seguem apenas os seus cursos prprios, 
como os da gua ou do vento. A cidade  um corpo vivo respirando, 
o meu, o teu, o dos outros, o do mundo,  uma infinita 
interseco de corpos, nos momentos incontveis do tempo, 
repetida como as ondas do mar. E  intil tentar olh-la, como  
intil olhar as ondas - ainda mal se levantaram e j se desfazem 
na areia, e tambm o nosso olhar se desfaz com elas.

35


Dizem que este Vero vai ser mais quente que no ano passado, 
anuncias sem levantar os olhos. E para a semana comeam saldos 
sensacionais no Fabio.
Sim,  uma cidade ordenada, de linhas regulares. E no entanto no 
domstica, nem domesticvel - - no se podem domesticar as 
casuarinas, nem os coqueiros, nem os jacarands. Nem o capim, nem 
o mato.  verdade que o mato foi recuando - quando o Ascendino 
aqui chegou, nos anos 30, o Hotel Polana estava a ser construdo 
em pleno mato. (O Ascendino, que um dia te mandou a carta que 
mudou a tua vida. Contaste-me essa histria: foi assim de 
repente, num impulso, no dia em que a recebeste. Deixaste meio 
trabalhado um campo de semeadura, puseste de lado a enxada e 
atiraste para o lado o saco. Chega. Agora vou. Sem dizer adeus. E 
depois demoraste dois anos at restituir o dinheiro da passagem 
em terceira classe.)
Estava a ser construdo em pleno mato. E ningum sabia ainda que 
ele viria a ser, para alguns, uma espcie de resumo da cidade, ou 
de parte dela, quase uma palavra mgica, evocando um mundo: 
Polana. Porque a cidade era ento paralela ao esturio, era a 
Cidade Velha, a Baixa, e pouco mais. Timidamente construa-se no 
Alto Mae e na Ponta Vermelha, mas tudo isso ficava longe.
A cidade das recordaes de Ascendino (porque esta  uma cidade 
com passado, que foi mudando de rosto com o tempo): Havia 
elctricos, escorregando pelos carris, ronceiros como 
paquidermes, e riquexs, de rodas muito altas, na Avenida da 
Repblica. Para se ir  praia apanhava-se o comboio e demorava-se 
muito tempo a chegar l.
Tudo isso me parece to remoto como o prprio Ascendino, de quem 
s vi uma fotografia - gordo, vestido de camisa, fato e gravata, 
com um chapu branco de palhinha posto sem jeito na cabea, um 
pouco  banda, como se o usasse pela primeira vez para tirar o 
retrato.
Pertenciam  coleco dele os postais que conservamos da cidade 
antiga - que me parece tambm irreal, um cenrio de papel como as 
cidades do cinema.
S depois vieram os primeiros machimbombos, verde-azeitona, 
saudados como uma lufada de progresso, dizes. Mas por falar em 
comboios, havia ainda o de Marracuene: parecia de brinquedo, 
segundo ele, o Ascendino, contava, velhas gaiolas que se 
desconjuntavam, arrastando-se devagar, atrs do cemitrio,

36


os rapazes do liceu corriam ao lado, ao desafio, saltavam para 
dentro dos wagons e atiravam-se de bruos para a berma, fingindo 
de cowboys no far-west - e em volta do liceu, era mato.
A carta que mudou a tua vida: Pois into se tu fores atilado, c 
te espero, mas se no, fica-te a amadraar por a, que dores de 
cabea j tenho que me achegue.
O tempo, tambm para mim irreal, em que tinhas dezanove anos e 
chegaste aqui. Vinhas de uma terra de cujo nome nunca me lembro 
ao certo, chamava-se Cho de qualquer coisa - em Portugal havia 
muitas terras com nomes curiosos, um lugar podia chamar-se por 
exemplo Bom Velho de Baixo, P de Co ou Oliveira Santssima, 
dizes, assim como Cho do Vento, Cho de Meninos, Cho das Donas.
Rio-me dos primeiros, e tambm de Cho de Meninos que, no sei 
porqu, me parece absurdo, mas gosto de Cho das Donas - as Donas 
so mulheres sentadas em cadeirinhas baixas, fazendo pacincias 
numa grande sala que aos poucos, sem elas darem conta, vai 
ficando vazia. Cho do Vento  um belo nome, quando se diz em voz 
alta as palavras ecoam e quase se ouve o vento que depois, quem 
sabe, leva as cadeiras das Donas, que perdem o cho e ficam 
sentadas no ar - pode-se pensar tudo isto, e muitas outras 
coisas, de Portugal no tenho imagens nem nenhuma certeza, a no 
ser que  um rectngulo muito pequeno no mapa, do outro lado do 
mundo.
Nas paredes do Caf Scala h quadros a cores, com imagens de 
Sintra, do Algarve, de Lisboa e de outros lugares. Sabe-se que  
o Algarve porque se vem amendoeiras em flor. E sabe-se que  
Lisboa porque se vem os barcos, e o rio.
A cidade, a partir da Catembe ou do cais da Matola,  muito 
parecida com Lisboa, dizes. Vista da margem sul, que l se chama 
a Outra Banda. Uma cidade branca,  beira da gua. Mas no gostas 
de falar de l. H um travo amargo nas frases que te ouo s 
vezes (pas mal governado. Mal pensado. Lisboa no dialoga com 
os africanos).
De Lisboa chegaram retratos do tio Narciso e das primas Marivone 
e Delmira. Foram postos em cima da estante, onde tambm acabou 
por ficar o retrato da av, que tinha estado muito tempo na 
mesinha de chanfuta. Mas quando os retratos aumentaram e deixaram 
de caber na mesa, tambm a av foi deslocada para a estante. 
Achmos melhor mud-la,

37


para ficar em famlia. Embora a mesinha fosse mais honrosa, de 
uma madeira to fina. Mas sempre era melhor no estar sozinha.
A mesa de chanfuta acabou depois por ficar na entrada ao lado do 
bengaleiro, e ter em cima uma quinda com maalas secas. O 
conjunto era muito decorativo, achmos, abanando a cabea de 
satisfao. Comprmos a quinda no Xipamanine, como  evidente, e 
as maalas apanhmo-las, aos braados, num passeio qualquer - 
redondas e pesadas, brilhantes, como laranjas verdes. Com o tempo 
foram-se enchendo de manchas castanhas, que alastraram e acabaram 
por cobrir toda a superfcie,  medida que as maalas iam ficando 
cada vez mais leves, mas sem nunca apodrecerem. At que l dentro 
as sementes chocalhavam, quando as abanvamos ao ouvido - mas 
isso s mais tarde, talvez um ano e meio passado, ou quase dois.
A av, que nunca vi e s conheo do retrato,  com frequncia 
causa de irritao entre ti e Amlia, porque lhe mandas dinheiro 
de vez em quando e ela sabe e no gosta.
No era o seu filho querido, o teu irmo Narciso? Mas agora pouco 
se importa com a velha, podia cair morta e apodrecer num canto 
que pra ele era igual. Pois mandasse-lhe dinheiro o Narciso, j 
que sempre foi o seu menino bonito.
(A me. s cinco horas abanava-o para lhe sacudir o sono, 
arrancava-o da cama e ajudava-o a vestir-se, s vezes calava-lhe 
ela mesma os sapatos, porque ele adormecera outra vez, j 
vestido, sentado na beira da cama.
Anda rapaz, que assim no ganhas a vida, ralhava ela, deitando 
sopa quente na malga e enchendo uma caneca de vinho, anda homem 
que se faz tarde.
Engolia o vinho e a sopa, enterrava o bon na cabea, enfiava a 
samarra e l ia, com uma das mos no bolso e segurando com a 
outra a marmita do almoo e o saco com o trabalho trazido para 
casa, as solas que a me tinha cosido  noite, tambm ela 
cabeceando diante do lume, enquanto ele j dormia na cama com o 
irmo.
L ia a caminho da fbrica de calado, que ficava num barraco a 
quatro quilmetros dali. Aos dez anos era chefe de famlia e 
partia de manh para o trabalho - quando havia trabalho, porque 
de vez em quando o patro mandava dizer que agora por uns tempos 
no era preciso. E s ficavam as cabras a guardar.)
Era uma casa pequena, dizes, e havia muito frio de Inverno. s 
vezes, para lavar a cara de manh, era preciso partir a gua do 
jarro, transformada em gelo. E em alguns dias entrava granizo 
pela chamin, caa sobre o lume, batia no testo da panela de 
esmalte e sibilava, rapidamente liquefeito, batia na janela, 
muito mais espesso que gros de arroz, do tamanho de amndoas 
descascadas, quase como pedras pequenas - - pedrao, 
chamavam-lhe, por isso mesmo, e tinha-se medo de que partisse os 
vidros, quando batia com mais fora, atirado pelo vento.
Do postigo onde se assomava via-se o caminho ficar salpicado de 
branco. No caminho da escola os rapazes apanhavam granizo s mos 
cheias - - que logo desaparecia entre os dedos molhados, 
inteiriados de frio. Mas o gelo do tanque partia-se com um 
tijolo ou uma pedra em grandes lascas brilhantes atravs das 
quais se olhava, porque eram transparentes como vidro.
No sou capaz de imaginar o teu pai, de que no ficou nenhum 
retrato. Era um pai muito remoto, emigrado para o Brasil quando 
eras pequeno, e que uma vez viste chegar, como uma assombrao. 
Terias uns sete anos e guardavas as cabras.
Sou teu pai, disse o homem, indo ao campo de baixo ter contigo. 
Mas era um estranho, de que nem sequer te lembravas.
Onde est a tua me? perguntou.
Em casa, disseste, e tiveste medo do homem, medo da tua me, medo 
do que a tua me diria ao homem, e desejaste que ele nunca 
tivesse vindo, ou se fosse embora. Mas no foi. Ficou dez meses 
de inferno, em que nunca deixou de ser um estranho.
Certa vez perguntou-te: Contaste as cabras?
No, ias dizer, contou-as o Baslio. Mas s tiveste tempo de 
dizer No, e j ele te saltava com um marmeleiro em cima. E 
quando percebeu, depois, o seu erro, no disse nada, nem sequer 
se mostrou arrependido.
Mas j muito antes de ele vir tu sabias guardar cabras, 
gritaste-lhe de cima do telhado, e nunca precisaste dele para no 
perder nenhuma.
 essa parte da histria que no me canso de te ouvir contar: 
Quando comeas a arrancar as telhas e a atir-las, umas atrs das 
outras, e te recusas a descer do telhado, e ficas l em cima um 
dia inteiro  chuva. At que ele vai buscar uma escada e sobe 
atrs de ti, munido do cinto e do pau de marmeleiro.

38 - 39


No para te livrar da chuva, mas porque a tua ousadia o 
desespera. Mas o telhado est hmido, escorregadio, e ele caminha 
devagar, com cuidado, porque tem medo de cair e de partir as 
telhas. Enquanto tu saltas pelo outro lado, ligeiro como um gato, 
e desces antes dele pela escada. Durante trs dias ningum mais 
te v.
Claro que acabaste por voltar, quando j no aguentavas mais a 
fome. E claro que a tareia desta vez foi ainda maior do que a 
primeira. Mas nada pde anular o momento em que o desfiaste, l 
de cima, e lhe gritaste que no precisavas dele para te ensinar 
coisa nenhuma - essa parte da histria podes contar-me sempre.
Narciso nasceu nove meses depois de ele se ir embora (mas ao 
contrrio de ti nunca se pareceu com a cara dele. Na aldeia 
diriam  boca pequena - mas esta parte da histria eu s ouvirei 
e entenderei muito mais tarde, e talvez tu prprio tenhas levado 
muito tempo a aceit-la, se  que alguma vez a aceitaste 
realmente - que ele se parecia com o Ramiro da Feitosa, e que 
desse modo a tua me se vingara das tareias que tambm ela levara 
nesses dez meses de inferno. E porventura das tareias que levara 
nesse tempo de que nada recordas, antes de ele partir para o 
Brasil).
Muitos anos depois, ele voltou de novo, nessa altura j tu 
estavas aqui. Mas dessa vez era um velho humilhado e vencido. 
Trabalhara trinta anos no Rio de Janeiro, como condutor de 
elctricos, e voltara como fora, com uma mo atrs e outra  
frente. Tlim, tlim, uma pr Light e duas pra mim, diziam por l 
- mas no era verdade, pelo menos para ele nunca fora.
Voltou, e depois de alguma luta a tua me e o Narciso 
aceitaram-no em casa, porque ele no tinha meio de sobreviver de 
outro modo. Mas era-lhes pesado, no perdera o mau gnio e o que 
se seguiu foi outra vez um tempo de misria e de inferno. At que 
um dia subiu ao telhado mudar uma telha partida, mas caiu do 
beiral e morreu.
Essa histria , a meu ver, contgua  outra, e consequncia 
dela: h o momento em que tens sete anos e o desafias, em cima do 
telhado, e ele te bate com o marmeleiro e o cinto - mas logo a 
seguir foi mudar a telha, caiu do beiral e morreu.
Tiras outro cigarro do mao e acende-lo sem olhar, fazendo girar, 
com um s impulso, a roda muito pequena do isqueiro.

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Pas mal governado, repetes. Mal pensado. O Velho apodrece no 
poleiro, cercado pelos galinceos como ele, e no ouve ningum. 
Nem os africanos nem os de l - l o povo passa fome e cala.
Sei que o Velho de que falas  outro, mas associo-o sempre ao teu 
pai, que para mim no tem rosto. Quando o imagino a saltar-te ao 
caminho, no meio do campo, a nica coisa que consigo ver com 
nitidez  o focinho espantado das cabras.
Estamos agora na varanda, sentados nas cadeiras, como se 
dormssemos de olhos abertos. Est calor ainda, a casa dorme, o 
telhado dorme, o quintal dorme. E o tempo hmido de Vero, h um 
cheiro diferente na terra e no vento, asas de insectos batem, 
algures, h um zumbido de vespas, ou de abelhas, nos ouvidos. O 
corpo amolece de cansao, por momentos reage, sacode o torpor e 
por um instante fica alerta, suspenso de expectativa - mas j de 
novo desliza para o cansao e o sono.
 verdade que uma certa embriaguez nos assaltava, tomava conta de 
ns, frica entorpecia-nos, sim, entrava dentro de ns como um 
bruxedo. Ficava-se sentado na varanda a beber cerveja preta 
(deixavas-me sempre beber um gole do teu copo) como se o mundo 
tivesse acabado e se fosse ficar sentado para sempre. Mas era 
talvez isso o que procurvamos - beber cerveja preta, na varanda, 
como se fssemos ficar sentados para sempre. Ouvindo as coisas. 
Porque ento havia, se escutssemos, um equilbrio no mundo. Cada 
coisa brilhava com a sua luz e nada invejava s outras.
Eu sou, dizia a rvore agitando os ramos, a semente abrindo no 
escuro, a gua apodrecendo nas lnguas, a floresta dormindo. Eu 
sou.
E quando a gente respirava fundo havia o cheiro do mato no 
quintal, como se estivesse ali muito perto, como se todas as 
coisas fossem contguas, de repente a cidade acabava e era o 
Canio e o mato -
O mato. Mergulhava-se nele como no mar. E ele envolvia-nos com a 
sua presena obsessiva - - havia de tudo no mato, rpteis, 
pssaros, antlopes, insectos, manchas de vegetao e longos 
troos desolados. Mas mesmo esses espaos aparentemente vazios 
eram densos, a vida cercava-nos, no arrulhar da rola, no grito 
rouco do sapo-boi, no canto enlouquecido da cigarra. Estava l, 
na polpa cida dos frutos, no corao azedo da maala,

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no recorte silencioso de bocas, patas, garras invisveis, estava 
l e tocava-nos, doendo, com os dedos aguados da micaia.
Fechvamos os olhos, sabendo que ramos ns a presa, e que uma 
fora pesava sobre ns, como um encanto. O vento varria o 
pensamento, ficava apenas um instante nico, parado, sob o ardor 
do sol. No existia passado nem futuro, nem mesmo presente, o 
tempo saa do seu trilho e media-se por medidas loucas, tinha a 
dimenso gigantesca do canhoeiro ou da mangueira e o nfimo 
tamanho das abelhas. O tempo no existia, nem ns. S havia aqui 
e ali manchas de flores, no meio do vazio, e o perfume do 
cajueiro no vento.
Havia pessoas a quem aquela terra amolecia e fazia perder o 
norte, dizia Amlia. Como se lhes lanasse um feitio. Podia-se 
cair em frica como num poo. frica sugava as foras, sugava a 
gente, como areia movedia. Nunca mais se voltava, nunca mais se 
era igual ao que se fora antes. Uma fora nos levava para o 
fundo, como uma doena. Mortal. Se no se lutasse o suficiente. 
Se no se teimasse o suficiente. Dizia Amlia, enervada, 
olhando-nos de soslaio, lutando com a luz que desaparecia na 
janela, cosendo ainda mais um boto, uma mola, um colchete, antes 
de acender a lmpada elctrica. Amlia, a econmica, a enrgica, 
a que poupava lutando at contra o sol, e com esperteza dava 
pontos muito pequenos no pano, sem puxar a linha mais do que o 
tamanho da agulha, e s depois de alguns desses movimentos que 
pareciam apenas esboados, estendia o brao e puxava a linha de 
uma vez, porque desse modo avanava mais depressa, poupando a 
repetio do mesmo gesto.
Amlia que nos repetia a todas as horas que o importante era 
ganhar dinheiro, entrar na sociedade, subir na vida. Mas havia 
pessoas, dizia ela olhando-nos com raiva, que se tornavam iguais 
aos negros, como se fossem tambm daqui. Filhos do mato como 
eles. S lhes faltava estenderem a esteira e dormirem na palhota.
Na vida era assim: Havia os que subiam e se refinavam, e os que 
andavam sempre para trs. Ns ramos destes ltimos, Laureano e 
eu. Segundo Amlia.
Ambio grande no  bom, diz Lia dobrando lenis, sentada 
sobre os calcanhares. O corao fica pesado. Como quizumba.

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Quizumba vai, quizumba vai. Quer carne, quer peixe. Vai por esse 
caminho, e por esse caminho. E ento?
(Um caminho leva  carne e outro leva ao peixe, mas ela quer 
carne e quer peixe e assim vai, duas patas por um caminho e duas 
patas pelo outro. E os caminhos cada vez mais se afastam, e 
dizem-lhe, quizumba, no v, quizumba no faa isso, mas ela no 
quer ouvir ningum e assim vai, duas patas por um caminho e duas 
patas pelo outro, e os caminhos cada vez mais se afastam, e 
dizem-lhe, quizumba no v assim, junte todos os ps ao corpo e 
v por um caminho s, mas ela no ouve e os caminhos cada vez 
mais se afastam e ela puxa e puxa com tanta fora que o corpo lhe 
rebenta pelo meio -)
Laureano no tinha ambio, grita Amlia chorando de raiva, 
sufocada. Mas ela sim, oh, ela sim. Porque a vida no era s isso 
- fazer amor e ficar depois de mos dadas no cinema.
Ambio grande no  bom, diz Lia. Ambio grande  como 
quizumba. Quizumba vai, quizumba vai. Por esse caminho, e por 
esse caminho.
Ela  formiga a morder e feijo-macaco. Ela  piri-piri e micaia, 
diz Lia falando ainda de Amlia. Ou suspira apenas, abanando a 
cabea com indiferena, como se a lamentasse: Ela tem muito 
milando na vida dela.
Amlia tem olhos claros, esverdeados, que mudam um pouco de cor 
conforme a luz do dia, e pinta o cabelo de loiro cendrado. Raras 
vezes vai ao cabeleireiro, at porque no gosta da cabeleireira 
do bairro, que rega a cabea das clientes com gua aquecida ao 
lume numa cafeteira de esmalte, mas compra na drogaria da esquina 
o Color Shampoo Palette e usa-o em casa, deixando a espuma actuar 
de cada vez dez minutos. O resultado deixa-a satisfeita, como 
alis ela esperava - as palavras estrangeiras na embalagem do 
produto parecem-lhe garantia de qualidade, dada a admirao 
incondicional que demonstra pelas outras lnguas, de que no 
entende mais do que palavras soltas. Admirao que estende aos 
estrangeiros que v passar, sobretudo se so os sul-africanos, 
louros, de olhos azuis, com dois metros de altura.
Laureano e eu vemo-los tambm passar, s vezes a cair de bbedos, 
ou encontramo-los a partir garrafas em bares

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e restaurantes, e no conseguimos atinar com nenhuma 
superioridade, tm enormes ps e um ar pattico de lagosta 
cozida, porque no se bronzeiam como ns, ficam encarnados e sem 
pele mas no desistem, untam-se a toda a hora com mais cremes e 
continuam aplicadamente a torrar ao sol. No percebemos por que 
razo a sua pele, obviamente de to m qualidade, haveria de 
suscitar admirao.
Achamos irritante sobretudo, mas tambm cmica, a invaso dos que 
vivem habitualmente em regies de temperaturas baixas, onde s 
vezes neva, e vm na poca que para ns  fria, mas deve ser o 
mximo de calor que a pele deles suporta sem ficar desfeita. A 
season, dizem chegando aos montes e acampando na praia - quase 
quatro mil pessoas em mais de cento e cinquenta caravanas e 
atrelados. Tm a praia por sua conta, o que lhes agrada 
duplamente porque no gostam de se misturar connosco, olham-nos 
como a seres de outro planeta do alto dos seus dois metros, 
recusam-se a aprender seja o que for na nossa lngua e procuram 
como nufragos as tbuas de salvao dos letreiros English 
Spoken ou Afrikaans Gesprek, que raramente encontram e at 
acabam por no fazer falta, porque nos esforamos sempre por os 
entender.
Os da classe rica so iguais a estes, a nica diferena  que no 
fazem barulho e falam pouco, instalam-se em hotis onde exigem 
que no se admitam crianas e os cabides fiquem  altura do seu 
brao. Mas no valem mais do que estes, que se amontoam num 
espao da praia onde lhes instalaram chuveiros quentes, e nem uns 
nem outros valem mais do que ns ou do que os negros, por que  
que algum h-de valer mais do que o outro.
Mas  intil falar destas coisas com Amlia, que persiste na 
convico de que os loiros esto no ponto mais alto da hierarquia 
das raas e de que os escuros portugueses esto no fundo da 
escala, logo a seguir a indianos e negros. Com um pouco de 
persistncia e bastante shampoo, acredita que podero tom-la a 
ela por estrangeira, o que lhe parece a melhor das promoes.
Desta sua viso hierrquica do cabelo e do seu desejo de subir 
socialmente a um escalo mais alto, veio a ideia de me pr na 
aula de ballet de Madame Solange Qubec, frequentada pelas 
meninas elegantes da cidade.
Sim, suponho que terei de falar disso agora, do desespero dos 
sapatos de pontas e das posies tortas do p,

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do sufoco dos corpos desengonados, como aves sem penas, 
avanando em passos inseguros de ganso. No virei, prometo a mim 
mesma, olhando com desdm as meninas gordas que mediam com 
aflio a cintura e juravam matar-se, cortar-se em bocadinhos 
para se tornarem de plumas. No virei, no vestirei o tou-tou de 
tule branco nem o maillot preto dos ensaios, no prenderei o 
cabelo num chignon apertado, sobre a nuca.
Porque tudo aquilo me aflige e me sufoca, o corpo triste, 
apertado na malha escura, o suor e lgrimas que custa a 
esparregata, o sangue nas unhas dos ps quando descalo os 
sapatos de pontas, o ponteiro batendo no cho como se tivesse 
enlouquecido: um dois trs quatro, um dois trs quatro, um dois 
trs quatro.
Madame Qubec no quer um nico cabelo fora do lugar e teima em 
fazer de ns bonecas de madeira ou de loua, peas articuladas 
como rodas de engrenagem. Todos os exerccios tm por objectivo 
tirar a vida do corpo, torn-lo malevel e mecnico - - lembro-me 
do gato que dana quando se d corda  manivela, mas esse pelo 
menos j nasceu empalhado, no foi preciso mat-lo primeiro para 
o fazer danar.
Madame Carmencita Citron acompanha ao piano martelando uma valsa, 
tambm ela embalsamada e velha, de culos de tartaruga, cheirando 
a naftalina.
Vou-me embora, penso outra vez. Vou-me embora. Porque eu  
descala que irei danar. E no aqui, mas na terra quente do 
quintal, debaixo das rvores. Ningum vergar o meu corpo, 
ningum o matar. E a msica que eu quero tambm no  esta, so 
os ritmos verdadeiros desta terra africana.
Porque danar - como  que no viam? - danar no tinha a ver com 
beleza, a idade, a gordura, a magreza ou o fato das pessoas, nem 
com a presena ou no de espectadores: a dana ia buscar cada um 
onde ele estava, homem ou mulher, novo ou velho, feio ou bonito, 
no importava, a dana queria-o assim, queria que ele danasse. E 
bastava obedecer para que a dana ficasse dentro dele. Ento o 
corao era o compasso. S havia o corao, que o tambor 
ampliava, e o corao era o sangue da terra, que batia.
Mas no posso explicar, porque  difcil explicar e porque elas 
no iam ouvir nem entender. Por isso metade das vezes falto  
aula e vou sentar-me num banco do Jardim Vasco da Gama.  espera 
que o tempo passe, antes de voltar para casa.

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Mas na outra aula da semana resigno-me ao desejo de Amlia e vou 
 Madame Qubec, como prova de boa vontade. Mas a boa vontade no 
esconde a profunda m vontade e a noite do sarau acaba mal.
De resto, tambm comeou mal: Um velho com ar de sapo apareceu  
boca do palco, a ler um papel com frases de circunstncia, que me 
pareceram completamente destitudas de sentido. O que pude reter 
foi a pomposidade com que foram debitadas, com um acento entre a 
advertncia, o elogio e um ar que parecia quase de ameaa. Como 
se no fossem para discutir nem entender, apenas se devessem 
aceitar.
Havia sobretudo um hiato antes das ltimas palavras de cada frase 
que criava uma falsa expectativa, como em algumas homilias em que 
parecia de repente que alguma coisa de novo ia ser dita. Mas logo 
se verificava que tudo aquilo j tinha sido repetido de todos os 
modos e era s para ouvir sem prestar ateno, ou fingir que se 
ouvia.
Deve ser a isto que Laureano chama discurso oficial, pensei 
olhando em volta e interrogando-me se os que ali se pavoneavam 
seriam os mesmos que desfilavam no palcio do governador, se 
aqueles aplausos fariam parte de outros e aquelas palavras 
balofas seriam as mesmas de outras ocasies. Mas no pude 
perguntar-lhe, porque Laureano no tinha querido estar presente. 
Tambm ele desaprovava a aula de dana de Madame Qubec.
Quase tenho pena, agora, do senhor com ar de sapo que continua a 
falar e deve sentir tanto calor. Por isso agita os braos daquele 
modo, talvez na iluso de que vir algum fresco se agitar o ar em 
volta da cabea. As pessoas aplaudem, o que quer que ele diga. 
Aplaudir faz parte e tambm no se discute.
Enquanto ele fala uma mulher abana a cara com o leque, cruza e 
descruza os ps, olha com ateno o fecho do vestido da que est 
sentada em frente. Ao lado, outra mulher rola entre os dedos as 
prolas do colar, como se desfiasse contas de um tero. 
Distrai-se, aborrecida, bate ao de leve no cho a biqueira do 
sapato, suspira de vez em quando. Aplausos outra vez.
Agora sim, comeam as variedades. Um homem vem recitar um poema, 
h uma mulher que canta o fado, exibe-se um conjunto musical.
Finalmente, num tom de voz entusistico, como se fossem a 
atraco da noite e o alvo de todas as expectativas, so 
anunciadas as alunas de Madame Solange Qubec. O anncio  
seguido por uma salva de palmas.

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Ao piano Madame Carmencita Citron acompanha, trmula de 
ansiedade, com a cabea de pssaro a sair do decote de renda. 
Est vestida de escuro, da cor do piano, e bate no ar com a 
cabea, balanando o corpo nos tempos fortes para dar mais 
convico aos acordes, sobretudo finais.
Comeamos a danar, mas na segunda msica desequilibro-me ao 
levantar um p e acabo por cair no meio do palco, o que provoca 
risos abafados na sala e uma pequena confuso nas marcaes.
Por um instante o nmero ameaa interromper-se, a menina que 
volteia  minha frente perde o compasso e olha para os lados 
atarantada, sem saber para onde ir. Quando me levanto j a roda 
onde eu estava fugiu para longe, no encontro o meu lugar e 
desapareo para trs da cortina, onde Madame Solange grita de 
aflio, agitando os braos: Continuem! Continuem!
As meninas improvisam, assustadas,  preciso chegar ao fim de 
qualquer modo, Madame Carmencita Citron martela furiosamente o 
piano, algumas marcaes saem trocadas, o tempo parece no 
passar.
Finalmente a msica acaba, as meninas sorriem, nervosas, 
inclinam-se para a frente flectindo os joelhos numa vnia 
estudada, as famlias batem palmas com calor, desvanecidas, como 
se j tivessem esquecido o incidente, ou saboreando o gozo de no 
ter acontecido s filhas delas, que ali esto no palco aplaudidas 
e admiradas, brilhando como estrelas.
Enquanto a outra, a filha da outra, quase estragou a festa, mas, 
j que no se integra no meio delas e no entra na dana nem  
fora,  muito bem feito que ali esteja, cada por terra, com o 
p inchado e negro, torcendo-se de dor, sozinha atrs da cortina. 
Diz Amlia, depois, sufocada de raiva, no txi em que vamos para 
casa.
Mas agora ningum diz nada, ou s coisas de circunstncia, as 
meninas atropelam-se em volta, perguntam  pressa: Di-te muito? 
e j vo a correr pr vus na cabea para danar a seguir No 
Mercado Persa.
Madame Citron recomenda-me que ponha o p numa cadeira, com um 
saco de gelo em cima, mas no h gelo nem ningum se preocupa em 
ir busc-lo, Madame Qubec faz uma marcao de emergncia para 
suprir a minha falta, explica duas vezes como , para ficar bem 
entendido.

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No txi, Amlia desespera-se, at porque j pagou adiantado um 
semestre inteiro. Mas eu juro que no vou mais.
Nem morta, digo. No irei nem morta.
Meses depois ainda garanto que o p me di ao andar e finjo que 
no aguento pous-lo muito tempo no cho, arrasto uma perna 
quando sinto Amlia a olhar para mim. Finalmente, ela acaba por 
desistir.
E eu continuo a danar descala, batendo as palmas com as mos, 
debaixo das rvores do quintal.
J agora poderei tambm falar da roupa que Amlia me manda vestir 
para sair contigo: sapatos de verniz com pegas brancas e um lao 
igual ao vestido na cabea.
Devo estar tal e qual como vem no figurino, mas sinto-me um co 
amestrado. A primeira coisa que fao, uma vez na rua,  tirar a 
fita e sacudir para todos os lados o cabelo. E quando nos 
sentamos no machimbombo meto as meias no bolso e deixo cair os 
sapatos. (Sei o que ela diria: Quem te vir h-de dizer que vens 
l do Canio.) Apoio os ps descalos no banco da frente e 
espreguio-me com fora.
Amlia ralha sempre, depois, porque caiu um pingo de gelado no 
vestido, ou porque o enrodilhei ao sentar-me. Odeio os vestidos 
de tobralco, de seda, os boleros e as blusas de renda, as saias 
de percal, que no deixam os movimentos livres e me fazem sentir 
um manequim com fitas e folhos pendurados, uma boneca de 
celulide, de cabelo aos caracis e olhos de vidro, parada na 
vitrine e morta como ela est morta. Olho-a com os meus olhos 
vivos e juro: No venho de ti, venho de Lia. Amanh vou vestir 
capulana, como Orqudea.
Mas no quero pensar em Amlia. (Ao cinema? Esta tarde? No, no 
vou. Tenho o vestido de Elejana para acabar. E alm disso di-me 
imenso a cabea.)
Vamos ao Scala ou ao Variet (no, nessa poca ainda no tinha 
sido demolido, s foi depois, em 67). Ou talvez vamos ao Gil 
Vicente, logo ali na Aguiar (que nessa altura ainda no se 
chamava D. Lus) - porque o Gil Vicente tambm  prximo dos 
stios por onde em geral andamos e que ficam entre a Avenida da 
Repblica, a 18 de Maio e o cais.
J o Manuel Rodrigues  mais para cima, na 24 de Julho. Estivemos 
l ontem, por acaso, e vimos os cartazes: Infame Falsidade - 
Prazer e Violncia - A Corista - Leito de Espinhos - A Bela 
Mentirosa. Nunca
passamos diante de um cinema sem ver o que vai hoje e o que est 
anunciado, quais so os filmes de domingo, geralmente em sesso 
dupla, e o que se promete em estreia para a prxima tera-feira. 
Ficamos parados a olhar, as cores fortes, em contrastes 
violentos, parecem sugar-nos quando passamos em frente - nem 
mesmo dentro de um carro, e passando depressa, se consegue 
despregar os olhos sem tentar ler o que dizem.
O Segredo de Virgnia estava ontem no Manuel Rodrigues, um filme 
dedicado ao pblico de gosto requintado, e a seguir ia O Espio 
de Duas Caras, o filme policial que faz vibrar os nervos, um 
filme inesquecvel, um espectculo inolvidvel que o comover at 
s lgrimas e o far rir como nunca antes.
s vezes vm-me frases  cabea, nomes de filmes que me levaste a 
ver, ttulos que li nos cartazes, outros que eu talvez tenha 
inventado. s vezes no sei se foi ou no verdade e pergunto-te, 
para me pr  prova: Lembras-te de Tarzan o Magnfico? Norman no 
Palco? Crime na Machava? Um Dlar de Medo? (E onde foi que li: 
Fixem estes ttulos: Lbios que Queimam - Voando Para as 
Estrelas?)
 cedo ainda, mas h uma longa bicha diante da bilheteira do 
Scala. Tomamos lugar atrs de todos, um pouco inquietos se vamos 
ou no conseguir lugar. J tem acontecido esgotarem-se os 
bilhetes antes de chegar a nossa vez. Sobretudo porque h quem 
chegue depois e espreite a ver se h um conhecido mais  frente, 
e quando descobre algum vai a correr pedir-lhe para, j agora, 
comprar mais cinco ou dez bilhetes, para ele e a famlia inteira 
- e assim no admira que os lugares se esgotem logo e a bicha 
parea no andar.
Salto de um p para o outro, impaciente, e acabo por ir dar uma 
olhadela at  entrada, enquanto tu esperas na fila que 
entretanto cresceu quase instantaneamente atrs de ti. Passo no 
meio de figuras pintadas, homens seminus saltando de arranha-cus 
com mulheres nos braos e pistolas  cintura, avies caindo no 
horizonte, florestas em chamas, cabeas de leo que vistas da rua 
parecem gigantescas. A Mulher Desejada, constante emoo, ousado, 
angustiante, opressivo, espectculo - aqui um outro cartaz, 
colado em cima, interrompeu as letras - volto-me para o lado e 
leio com esforo o resto da frase, noutro cartaz mais pequeno, 
dentro da vitrine: espectculo supremo de suspense e imprevisto.


48 - 49


Ler os cartazes  j quase ver ou imaginar o filme - dou a volta 
para um lado e outro, e deixo as palavras girar na cabea. Alguns 
filmes assustam-me, outros atraem-me, apesar do medo, fazem bater 
o corao muito depressa, o peito sufoca e fica-se a transpirar, 
apesar do ar condicionado que h em todos, menos no Variet. Mas 
este, reparo, no  o filme de hoje, nem este outro, Cruel Poder, 
um filme diferente e empolgante. Encontro finalmente, no meio dos 
anncios, o letreiro que indica: Hoje, matine s 15 h, soire s 
20,30 h: Os Caminhos do Pr do Sol. Quem deixar de ver este filme 
perder uma das mais belas obras do cinema. Agrado total. A no 
perder. Absolutamente. Divino. O espectculo do ano. O cartaz 
mostra uma plancie vermelha onde se desenrolam cenas de guerra 
com bombas explodindo, e um homem e uma mulher muito altos, de 
costas, que parecem caminhar na direco de uma casa minscula, 
que arde na linha do horizonte.
Volto para junto de ti, entusiasmada. Penso que os actores devem 
ter vidas espantosas e ser pessoas fora do comum. Em todos os 
lugares do mundo lhes sabem os nomes, os jornais no se cansam de 
falar deles, nos cinemas copiam-lhes a cara para aquelas folhas 
imensas de papel. E sobre os seus filmes se comenta, em grandes 
letras, nos cartazes: Ousado, angustiante, opressivo. Espectculo 
supremo de emoo suspense e imprevisto.
Entretanto j tu saste do lugar e me procuras. No vale a pena 
esperar, dizes. Esgotou.
Mas talvez ainda cheguemos a tempo de ver o filme do Variet. 
Seguimos depressa para a Rua Arajo - l est o Dancing Aqurio 
que tem no letreiro um peixe com uma barbatana brilhante no dorso 
e o corpo arqueado num salto. Por cima do peixe h um bojo 
redondo, ao qual o peixe est ligado pelas bolhas de ar que lhe 
saem da boca. Parece feliz por ter saltado para fora e talvez 
seja para comentar a estranheza de ele respirar sem gua, com 
bolhas de ar a sair da boca, que surge no bojo do aqurio um 
enorme ponto de interrogao muito curvado.
 difcil o trnsito aqui, os automveis so quase constantes, a 
todo o comprimento dos passeios h carros estacionados.
Logo a seguir ao Aqurio, o Variet tem um ar antigo e cansado, 
apesar de todos os enfeites - o varandim rendilhado l em cima, a 
entrada larga, com duas colunas que sustentam as arcadas, o 
fronto triangular com o nome escrito. Sobre as linhas 
horizontais da fachada h clarabias em semicrculo,

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empurradas para dentro, e grandes cartazes com anncios. No 
temos tempo de os ler agora, procuramos  pressa, o ttulo de 
hoje: Almas em Conflito, drama escaldante, fulgurante, soberbo, 
totalmente absorvente, eis o que  em absoluto esta produo da 
Metro Goldwin Mayer. Olhamo-nos um instante, mas j decidimos, 
mesmo sem falar: Entramos.
Em Julho os dias eram breves, s cinco horas caa a noite - quase 
logo depois da sesta, se a gente se demorava mais um instante no 
quintal, debaixo do jacarand, o cu ficava escuro de repente.
Foi por essa altura que se comeou a ouvir falar em promoo. 
Primeiro a palavra parecia nem mesmo ter sido dita, a tal ponto 
passou de leve, roando apenas os ouvidos, e logo caindo no 
esquecimento. Depois tornou-se insistente como chuva caindo e 
caindo, e com o tempo acabou por encher a casa, como se fosse a 
nica palavra que contasse.
Como uma frmula mgica: promoo, l na empresa.
Amlia pareceu contente e comprou no John Orr uma mala 
Marshmallow cor de vinho.
As aulas comearam em Setembro. De repente estava-se na escola e 
a professora dizia: As vias do pensamento. Querendo dizer: a 
rdio e as comunicaes telegrficas. Mas vias do pensamento era 
mais belo e de certeza mais exacto. Porque nada era to veloz 
como o pensamento, nada corria to longe, no mesmo instante, 
sobre os mares, at ao outro lado do mundo.
L fora as rvores vem-se como se fossem riscadas  rgua, com 
traos paralelos muito finos, atravs das janelas cobertas com 
persianas de lamelas brancas. A um canto do ptio - distingue-se 
daqui - cresceu uma mafurreira.
A professora  gorda e sem idade, e tem um ar doce de boneca de 
pano antiquada. O peito muito grande comea quase logo abaixo da 
cabea, a pele do pescoo  cada e flcida. Repete sempre as 
mesmas coisas e usa o cabelo apanhado em volta da nuca, numa 
espcie de rolo grosso, preso de ambos os lados por travessas. De 
vez em quando espeta melhor os ganchos que seguram o rolo, e 
volta-lhes a ponta para dentro. Chamam-se ganchos invisveis, mas 
na verdade vem-se. Caem no cho s vezes, ou em volta da 
cadeira.

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Em geral ela no se senta durante muito tempo, passeia entre as 
carteiras pela sala e em algumas ocasies tem um ar quase aflito. 
Quando fica de costas para ns, entre uma fila e outra, Roberto 
tira do bolso um lpis e jogamos o jogo do galo. s vezes temos 
de parar a meio, at que ela se volte outra vez de costas para 
ns. Ficamos atentos aos movimentos do seu vestido azul escuro 
com pintas brancas e dos brincos de ouro com dois coraes que se 
agitam.
Eu sou, tu s, ns somos, diz Dona Eullia, e ns repetimos em 
coro, balanando nas carteiras, e escrevemos no caderno um F 
muito inclinado de Fevereiro e de Fanisse, um J de Jussa, um M de 
Margarida e de Miranda, um Y de Yasmin e um G de Gita.
Escrever  difcil, porque os dedos se ajeitam mal a pegar no 
lpis, ficam logo sujos e mancham o papel, o caderno dobra-se nos 
cantos e tem de se molhar o indicador na boca para voltar as 
folhas, e a borracha perde-se logo e tem de apagar-se com as 
mos.
E algures h um cansao, porque se suspira muito, com a boca 
entreaberta, e se deita a lngua de fora, com a ponta voltada 
para cima, e se enruga a testa, de pura concentrao nas voltas 
do L e do P e do I. Escreve-se Elejana ou Ilejana? Margarida quer 
saber porque  filha de Elejana. Margarida Miranda, a da blusa 
aos folhos.
Dona Eullia senta-se outra vez na cadeira e abana-se com um 
leque chins, de papel pintado. Ao leque ela chama ventarola. E  
tabuada chama casa: A casa dos quatro, a casa dos cinco.
Infulene, Munhuana, Alto Ma, diz Yasmin, porque Dona Eullia 
perguntou qualquer coisa. E Luatina, a quem chamamos Titita, 
acrescenta, com alguma hesitao: Lhanguene, Malanga. E Joana 
diz: Maxaquene. E ningum diz mais nada.
E a gente esfrega os ps no cho, de impacincia, ou esfrega um 
s p e dobra pelo joelho a outra perna, levanta-a at ao tampo 
da carteira e senta-se sobre o calcanhar e de todo a gente no se 
lembra quantos so sete vezes oito.
Xandinha chega tarde e diz que arderam duas casas. Na Rua do 
Trabalho. Arderam todas. L perto de onde eu moro. A que horas? 
s dez. Onze. No, de manh cedo. Morreu gente. No sei. No, 
dizem que no. Ningum morreu. Todos acudiram. Vieram os 
bombeiros. Vieram os vizinhos. Duas casas. Arderam.
Dona Eullia suspira e v-nos os cadernos, molhando o dedo com 
saliva para voltar as folhas. Descobre-se que no alto da cabea 
tem um
cabelo branco e quando se inclina sobre ns cheira a p-de-arroz, 
suor e naftalina.
Estamos de p em volta da mesa, onde h um mata-borro que parece 
um barco. O fundo  redondo e ele oscila at ficar quieto ao lado 
do tinteiro de vidro com dois boies de tinta, azul e encarnada.
Recitamos a lio em coro, mas nem todos sabemos ler, nem sequer 
abrimos o livro na mesma pgina. Repetimos de cor, sem olhar as 
letras: gi-ras-sol, r-ci-no, ma-fur-ra.
Uma respirao. A nossa. Cheiro de crianas. Transpiramos, de 
calor e de esforo - ficar quieto  de tudo o mais difcil.
Xavier olha o quadro preto com a cara comprida de ateno. Jussa 
coa a cabea, olha e olha e no atina, ri muito alto de repente 
e deixa cair um sapato. Os cabelos de Joana caem-lhe sobre os 
olhos, ela afasta-os com a mo, o rabo de cavalo de Yasmin 
bate-lhe na cara, com o movimento brusco de apanhar o lpis que 
resvala. Uma rgua cai.
Roberto trouxe uma r no bolso, e no outro dia um grilo. Titita 
tem um co que a espera sempre ao fim da rua. Assa deve ser mais 
velha do que ns porque  muito mais alta e logo na frente da 
boca caiu-lhe um dente.
Aprendo a escrever o meu nome no caderno: Zita Marcelino 
Captulo.
E quando samos Fanisse esmaga o nariz na minha cara e faz o 
gesto de vomitar: Cheiras to mal. A cadver, diz. Cheiro de 
branco. Todos os brancos cheiram a cadver.
  Assa que um dia pergunto, no recreio: J viste feitios?
Ela ri, abrindo muito os olhos: Feitio, sim, yyyyy. Quando 
era pequena, acrescenta, rindo mais, contando logo:
Os rapaze vinha  noite, esfregava erva no cabo da enxada, batia 
palma, as minina ficava a ver, batia tamm palma, cantava. E 
ento o cabo de enxada levantava, sem mo de ningum que toca 
nele.
E cantavam o qu? quero saber.
Ela bate as palmas e recita:
Npin oiwe, npin oiwe,
Npin iowe, npin oiwe,
Npini lamuca npin
Vuca, vuca, vuca!


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Canto com ela, batendo as palmas, pnin oiwe, npin oiwe, Assa 
repete, sufocada de riso: Vuca, vuca, vuca!
Zita Marcelino Captulo - este  o meu nome, que herdei de ti, 
Laureano Captulo. Assim te chamaro, l na empresa, talvez pelo 
telefone, talvez at pelo altifalante, para subires ao 
escritrio, quando fores promovido.
Talvez ento compremos uma vanete como o Z Mrio. Poderemos 
fazer uma viagem, ver quedas de gua, manadas de elefantes, o 
lago Niassa, a ilha de Moambique. Talvez andemos de avio. Ou 
vamos a um safari de caa grossa, depois de teres comprado a 
espingarda de que me falas sempre, no me lembro da marca,  uma 
palavra estrangeira que me pareceu difcil.
Vemos agora as montras da Consiglieri Pedroso e das joalharias 
indianas na General Machado, e tu pensas em voz alta, como se 
falasses contigo mesmo, no que poders comprar para Amlia. Um 
anel, um alfinete de pr ao peito, um colar de prolas 
verdadeiras, para substituir o de majolica, que lhe deste no 
noivado. Ou talvez uma estola de pele, para usar no Inverno. A 
no ser que ela preferisse sapatos de pele de cobra e carteira a 
condizer.
Entramos nas lojas, mas nem tu nem eu somos entendidos em lojas, 
porque em geral no compramos muita coisa. Emudecemos de espanto, 
no meio da profuso dos artigos e da eficincia dos empregados, 
que nos mostram uma coisa e outra, cada uma mais cara que a 
anterior. Sentimo-nos aflitos, mas felizmente ainda h tempo, a 
promoo s deve ser no fim do ano. No temos que decidir j, 
explicamos com um sorriso assustado, andamos s a ver.
Mas tu pelo menos precisas de um casaco, digo. Um casaco de linho 
branco, feito por medida. Sempre achei que precisavas de um.
E  assim que nos achamos diante de uma alfaiataria, na Rua da 
Gvea. A entrada  escura e logo ao entrar da porta subimos uma 
escada muito ngreme. Percebe-se que uma parte  loja, e outra 
parte  habitao, ouvem-se passos apressados em outras escadas 
que no vemos mas levam com certeza ao interior da casa. Por 
detrs das fachadas, sei, esconde-se por vezes uma arquitectura 
confusa, h casas que por dentro comunicam e se fundem, no se 
sabe bem onde comeam nem acabam, adivinha-se, por um olhar 
furtivo que se deita atravs de uma porta entreaberta, nestas 
construes da Gvea, um labirinto de corredores, escadas, 
quartos, vidros poeirentos, por vezes varandas interiores sobre 
uma sala que fica em baixo. Mas tudo isso  preservado dos 
olhares estranhos, e tambm as mulheres so resguardadas, nos 
interiores sombrios e profundos.
Por detrs da parede, uma voz chama alto por um nome de que no 
distingo todas as slabas, uma criana responde, outra criana 
grita, enquanto outra ainda, ou talvez a mesma, salta sobre as 
tbuas do soalho. Interrogo-me se ter uma corda de saltar ou se 
estar a jogar  bola, sozinha ou com algum, presto ateno 
durante um instante, a ver se  um movimento regular ou casual, 
tento distinguir as vozes. Mas agora  uma mulher que diz 
qualquer coisa em tom zangado, uma criana chora, uma criana 
muito pequena, talvez de colo, a mulher murmura algo indistinto 
muito baixo, para sosseg-la, fala mais alto com as outras 
crianas, que parecem parar mas j de novo recomeam.
Lakshmi, grita o alfaiate abrindo a porta com a fita mtrica 
pendurada ao pescoo, o livro de assentar. Parece contrariado, 
porque procurou o livro um instante na mesa e no o encontrou no 
lugar devido.
Uma menina de sari, com um sinal vermelho entre as sobrancelhas, 
aparece quase de imediato trazendo um livro como se tivesse 
estado a ouvir atrs da porta, sorri-nos levemente e desaparece 
outra vez, com passos de seda, no meio de um tilintar de 
pulseiras. O homem endireita-se, passa os dedos no queixo, parece 
mais magro do que no momento anterior.
 sua filha? perguntas. Ele acena que no, ainda casou s h trs 
anos, tem um filho pequeno e espera outro. A mulher ocupou de 
novo, acrescenta, querendo dizer que engravidou.
Percebe-se que  uma famlia numerosa, talvez mais do que uma, a 
viver junta, e que deve haver l dentro alguma confuso, a 
avaliar pelo barulho que agora atravessa a dbil parede que 
separa a loja da parte restante da casa. E no entanto tudo entre 
eles parece ser rigorosamente organizado, a menina que chegou 
logo, com o lpis aguado a marcar a folha j aberta da agenda, a 
sua apario e desapario momentnea, como se representasse um 
papel que lhe fora distribudo ou lhe coubera em sorte. Penso que 
lutaro juntos para que o caos no se instale no pequeno mundo 
dentro das paredes, e mais ainda para sobreviver no mundo 
exterior  casa.

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Ligados talvez tambm por uma religio, alm dos laos de famlia 
-  verdade que a mesquita fica ali logo mais adiante.
Apesar do espao exguo e do pequeno incidente do livro, a loja 
est perfeitamente arrumada: h quatro figurinos numa mesinha 
baixa, ao lado de uma jarra de vidro com flores secas. Debaixo do 
maple forrado a napa onde estou sentada, estende-se um tapete 
indiano, em tons gren, nas paredes que certamente eles prprios 
pintaram, porque tm aqui e ali manchas de tinta mal espalhada, 
alinham-se modelos de fatos e casacos recortados de revistas.
O homem ouve o que dizes com ar grave, os grandes olhos fixos. 
Tira duas vezes as medidas, para ter a certeza de no haver 
engano, escreve-as numa pgina vazia do livro, onde ps ao alto o 
teu nome e endereo, avalia a textura do tecido apertando-o entre 
o polegar e o indicador. Perfeitamente, repete. Apesar da sua cor 
escura, noto-lhe na pele alguma palidez.
Farei tudo para servi-lo a seu gosto, diz no fim por despedida, 
trazendo-nos at  porta e esboando um rpido sorriso. Espero 
que fique fregus deste alfaiate.
De novo samos para a rua, descemos as ruas - densas, agitadas, 
com o seu zumbido de abelhas e o seu carreirar incessante de 
formigas, a sua mistura de cheiros e de corpos, a sua teimosa, 
infatigvel vida quotidiana. Povoadas de gente de muitas raas - 
basta caminhar assim ao acaso e reparar nos tons da pele de quem 
passa: Como um pingo de tinta branca, misturada em tinta preta, a 
abre em claridades, e um outro pingo a abre mais ainda, at um 
tom mate, assim entre indianos, brancos escuros, mulatos, 
variavam os tons - e tambm o contrrio, uma gota de sangue negro 
mesclava o claro da pele, uma segunda gota adensava mais a cor, 
por vezes contrariada por cabelo liso e olhos claros.
Encontravam-se todas as misturas, ou pelo menos suspeitava-se de 
todas - branco e negro, indiano e branco, indiano e negro ou 
mulato, negro e chins, indiano e chins, e todas as outras 
possveis - porque no se vivia separado, algures, secretamente, 
os corpos se entendiam e cruzavam, descobriam-se afinidades 
secretas, cumplicidades escondidas. Ou atraam-se pela sua 
diferena evidente - porque  verdade que se atraam, que o 
dissessem, se ousassem confess-lo, os sul-africanos que
aqui achavam, na Arajo, o que na terra deles se punia com priso 
- o sexo com o outro, o de outra raa -
Ai meninos, contaram o Jamal e a Bibila voltando de Joanesburgo, 
a gente julga que j sabe, mas na verdade nem se imagina, aquilo 
s visto. Porque l no era s assim: uma parte da cidade para 
brancos, outra para negros, hotis e restaurantes para brancos, 
hotis e restaurantes para negros, machimbombos para brancos e 
machimbombos para negros - no era s isso, nas mais pequenas 
coisas se apartavam.
Assim por exemplo os bancos de jardins e de ruas tinham letreiros 
pregados: brancos e no brancos, nos Correios havia guichets 
de comprar selos para brancos e outros guichets iguais, com os 
mesmos selos, mas com o letreiro: no brancos, como se os selos 
no fossem iguais, nem os postais e as cartas, nem o dinheiro que 
por eles se pagava.
Viviam no terror de se tocarem, ou mesmo de se aproximarem, como 
se os negros tivessem lepra, ou a cor da pele fosse uma doena. 
Havia bebedouros de gua para brancos e outros para negros, 
mquinas de comprar coca-cola para brancos e outras para negros e 
assim por diante, em tudo havia uma diferena, um trao a 
separar, uma parede invisvel mas to presente que se dava sempre 
nela com o corpo e os olhos.
E se por exemplo brancos e negros fossem a andar no mesmo 
passeio, os negros tinham de sair dele, para dar lugar aos 
brancos.
Desato a rir porque uma tal imbecilidade, de to absurda, me 
parece risvel. Meu Deus, como so estpidos, digo-te, saltando 
ao pp-coxinho no passeio da Sete de Maro, que agora 
atravessamos. Como so estpidos, no achas?
Descemos as ruas, chegamos ao fundo e entramos nas docas, 
caminhamos ao longo do cais.
Esse era, foi sempre, o favorito de todos os passeios. O olhar 
perdia-se no meio de tudo aquilo, a floresta dos navios, o perfil 
muito alto dos guindastes e das gruas, os carris que corriam pelo 
cho, ao longo de quilmetros, o balano dos barcos ancorados, o 
casco negro que ao sabor da ondulao se tornava mais ou menos 
visvel. E havia aquele cheiro, nem sequer agradvel, mas intenso 
e familiar, a leo, a gua e a lodo, e os nomes e siglas que nos 
vinham  memria, tambm eles familiares de to ouvidos, Robin, 
Farrel, Gol Star,


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Lykes, South African, Deutsche, Cotts e outros.
Porque esta  uma cidade-porto, uma cidade-cais e  aqui, em 
frente ao largo esturio, que o seu corao bate mais depressa.
Dia de So Vapor, dizia-se dantes, no tempo em que vieste. A 
cidade despovoava-se e corria para o cais, mesmo quem no 
esperava ningum vinha ver o barco e ficava s vezes em p, duas 
horas ao sol. Mais tarde era a festa, os marujos enchendo as ruas 
e os bares, as lojas abertas mesmo  noite - ainda agora  um 
pouco assim, embora j ningum corra ao cais sem motivo maior do 
que ver o barco aportar. Mas de qualquer modo os barcos fazem 
parte da nossa vida, partem e chegam, levam e trazem, podemos 
pautar o tempo pelas suas idas e vindas, so regulares e fiis 
como as estaes do ano, os meses as mars e as luas.
H os que aceitam carga para Durban, Cabo, Lagos, Port Harcourt, 
Victoria, Takoradi, Abidjan, Monrovia, Freetown, dizes, os que 
partem para Bremen, Hamburgo e Anturpia, para Trieste ou para o 
Golfo do Mxico, para a ndia, Vancouver, Nova Iorque, Sidney, 
Maurcias e outros destinos. E h um ritmo nessa circulao de 
gente, nessas trocas de carga baldeada e embarcada - e no fundo 
de ns, algures, a certeza de que estamos ligados a todos os 
lugares,  ndia e  Europa, ao Japo,  Austrlia e  Amrica, a 
certeza de que o mundo passa por aqui.
Paramos numa sombra, sentamo-nos em cima de caixotes. Os barcos 
mudam, vo e vm, nunca se demoram, e no entanto - verificamos - 
 possvel, sem nenhum esforo, apenas com um pouco de hbito, 
estabelecer alguma ordem no emaranhado das suas linhas. (Sim, 
queremos perceber o que se passa  nossa volta, organizar o 
mundo, e por isso nos fazemos espertos e rimos, descobrindo, 
porque pensar  um gozo: juntamos uma coisa a outra e outra e no 
fim h um desenho que aparece. Provavelmente ser assim com tudo, 
o universo deve estar cheio de indcios, como sinais numa 
floresta.) Assim por exemplo os navios da Robin Line, que 
pertencem  Cotts e fazem a carreira da Amrica do Norte, 
chamar-se-o com frequncia Robin qualquer coisa, Robin Mowbray, 
Robin Locksley, os que tm no nome a palavra African pertencem 
em geral s Farrel Lines, da Rennie, e andam tambm entre os 
Estados Unidos e a frica, African Moon, African Comet, African 
Mercury, os da CNN tm naturalmente nomes portugueses e por isso 
 fcil, chamar-se-o Prncipe Perfeito ou outra coisa assim, os 
que tm no nome a palavra Maru so japoneses,

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embora possam tambm viajar com a Cotts: (por exemplo o Eiken 
Maru).
s vezes perguntamos um ao outro a nacionalidade dos barcos que 
ali esto, ou que nos lembramos de ter visto, aqui ou no cais da 
Matola, e quem acertar ou errar ganha ou perde um ponto. Alguns 
so fceis, pode-se dizer logo por exemplo que Ugolino Vivaldi e 
o Sebastiano Caboto so italianos (sobretudo se os leres assim, 
com essa entoao muito cantada), e o Krugerland alemo, mas quem 
se lembra de que o Virtala  sueco, e o Shavit israelita? Tem 
desculpa, naturalmente, de errar.
E como saber de onde so o Lommaren ou o Nuea? E o Mormac Penn? 
E o Walvis Bay, se  americano ou britnico? E o Braemer Castle, 
que tem um nome meio alemo, meio ingls? Podemos saber,  claro, 
pelas bandeiras, se as conhecermos - mas ainda assim  preciso 
que fiquem suficientemente perto para lhes podermos distinguir os 
desenhos e as cores.
 direita do navio onde agora se agita uma bandeira grega, h um 
barco mais pequeno onde um homem lava o deque com uma escova e 
sabo. Ao lado do balde tem uma pequena caixa preta, que  
provavelmente um rdio de pilhas porque chega at aqui, esgarado 
pela distncia, o som de uma voz cantando.
No barco  nossa frente, inesperadamente, assoma a uma vigia uma 
cabea de cabra, muito perto do local onde um marinheiro pinta 
uma escada, logo abaixo de uma chamin. Dois homens atiram uma 
prancha e saltam para terra. Vem-nos rir da cabea de cabra e 
riem tambm, voltados para ns.
Querem subir? perguntam, como se fossem recm-chegados oferecendo 
a sua casa  curiosidade dos vizinhos. L em cima o marinheiro 
continua pacientemente a pintar. Um fumo branco sai da chamin.
Sim, sim, respondemos sem hesitar, porque embarcamos sempre na 
aventura. Um negro estende-nos a mo, do outro lado da prancha 
que oscila, ajuda-nos a saltar para dentro. Outro estende roupa 
numa corda segura entre dois ganchos, gotas de gua muito lentas 
pingam no cho de tbua esfregada.
Um barco  como uma casa, verifico. Uma casa que balana, e anda 
de lugar em lugar. Nem sequer falta o cheiro da cozinha, para 
onde se desce por uma escada ngreme, que tem um ltimo lano de 
ferro. O fogo est aceso e dois homens em tronco nu cortam 
legumes em cima de uma tbua,

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atiram os restos para dentro de um alguidar onde se amontoam 
espinhas de peixe, cascas de cebola e borras de caf.
Tomem um copo, diz um dos cozinheiros pondo cerveja noutra mesa 
onde j esto trs homens. Sentamo-nos e bebemos, est calor e o 
balano do barco e a cerveja causam-me vertigens, mas por nada do 
mundo me iria embora porque tudo o que agora acontecer faz parte 
de uma onda em que eu entrei. O marujo que pintava a escada 
juntou-se a ns, apertamos mais as cadeiras para lhe dar lugar, 
rimos com fora, falamos sem querer alto de mais.
Duas conchas grandes servem de cinzeiro, todos fumam, tu tambm, 
h uma nuvem que se adensa em volta. E eu bebo mais cerveja e 
sinto o navio andar  roda, agarro-me com fora na beira da mesa 
e acho que tudo  possvel, o barco poderia, enquanto aqui 
estamos, arrancar, e chegaramos uma manh a Singapura. Tudo  
possvel, tudo, acredito enquanto o barco balana, e agora 
parece-me um milagre muito pequeno, uma cabea de cabra 
espreitando na vigia.
Quando finalmente voltamos para casa, vemos que o teu casaco de 
linho branco, que tnhamos entretanto ido buscar  Gvea, depois 
de duas provas minuciosas no meio de muita ateno e silncio, 
est manchado de tinta numa das bandas. E logo na parte da 
frente, num lugar to visvel. Deves ter-te encostado ao varo da 
escada, pintado de preto. No tinha letreiro: Pintado de 
Fresco, ironizas.
Tambm eu estou suja de leo, o meu vestido parece provavelmente 
um trapo, as minhas mos esto negras, perdi a fita do cabelo, 
mas nada disso nos afecta, sentimo-nos radiantes, como se entre o 
mundo e ns houvesse um acordo indestrutvel.
Tanto assim que no nos ralamos com a fria de Amlia por causa 
do meu vestido, nem por causa do teu casaco (quem no sabe usar 
roupa de gente devia morar no galinheiro), ouvimo-la sem ouvir, 
deixamo-la falar. Passar tempo, talvez semanas, antes de ela 
dizer: Vou ver se o posso descoser na frente e meter o lugar da 
ndoa na costura. Mas s quando tiver tempo. E de qualquer modo, 
no prometo nada. Deixamo-la falar e comemos anans com gua 
ardente e acar.
Quando no sei o que fazer, acendo o globo que uma vez comprmos 
na Minerva Central, e que  ao mesmo tempo um candeeiro e um 
mapa-mundo, e jogo sozinha o jogo dos navios,

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seguindo com o dedo as suas rotas.
Imagino s vezes as cidades. A Singapura chegava-se ao romper do 
dia e ver-se-ia o perfil dos templos no horizonte, enquanto que 
era de noite que se chegava aos portos afadigados da Europa. Mas 
a Europa no me dizia muito, l o cu era cinzento e o ar pesado 
e sombrio, segundo tu contavas, o seu Inverno era duro, e eu no 
gostava do Inverno. A Europa tinha o mesmo corao mecnico que 
batia em Nova Iorque, mas Nova Iorque era mais alta e mais fria, 
como uma torre de ferro com ps de cimento armado. frica, pelo 
contrrio -- tinha a certeza - era o mais belo continente do 
mundo.
Tirando essa compra do globo, no me lembro de entrar muitas mais 
vezes na Minerva Central. Nunca foste muito chegado a revistas ou 
livros. Mas havia os discos, os saldos da Grundig, por exemplo, a 
que nunca faltavas. Chegavas com ares misteriosos, trazendo um 
embrulho quadrado de papel. E, se era  hora do almoo, eu 
aguentava esperar o resto do dia. Desembrulhava-o e tirava-o da 
capa, voltava nas mos as duas faces pretas, punha-o no prato do 
gira-discos mas no o tocava, voltava a p-lo no lugar. Esperando 
que chegasses. S quando vinha a noite nos sentvamos no cho e 
escutvamos. Como se ouvssemos histrias, depois do pr do sol. 
Porque aquela msica tambm contava histrias: havia um fio 
condutor, sempre constante, frases que sobre ele se levantavam e 
entravam em cena, como personagens. Frases muito livres, por 
vezes quase obsessivas, que pareciam terminar mas voltavam, 
iguais a si prprias ou escondidas em variaes como atrs de 
mscaras. Ou cindidas em fragmentos, estilhaadas.
Tinham a ver com a vida, com a nossa vida, pensava-se, com o 
corao em sobressalto. Porque eram regulares mas deixavam lugar 
para o improviso, e quase para o impossvel. E s vezes, 
dir-se-ia tambm, sobretudo nos solos enlouquecidos do saxofone: 
deixavam lugar para o desastre.
Jazz, dizes. Eu sei. Havia as noites de Jazz, a que ias dantes, 
na Arajo, no Night Club Pinguim, onde conhecias os msicos do 
conjunto, que tocavam saxofone, piano, viola elctrica, bateria -
Mas isso foi h muito tempo, penso, antes do tempo de Amlia e do 
meu.

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Agora estvamos em Dezembro, ouvamos jazz  noite e pensvamos 
que tudo ia mudar porque no fim do ano serias promovido a um 
lugar muito melhor l na empresa. Havia dois candidatos, e tu 
eras o mais antigo. Desde Julho, pelo menos, que a vida parecia 
girar em torno dessa palavra: promoo. Dizias, por exemplo: 
Quando eu for promovido. Ou: depois da promoo.
Mas o fim do ano chegou e no foste promovido. Apenas te subiram 
um pouco o salrio, por seres um empregado leal e fiel. Como te 
disseram, chamando-te ao escritrio ao fim do dia.
No conseguiste responder nada e saste.
L fora tinha rebentado a chuva.
S depois se viu como a chuva aumentou e se levantou o vento e um 
temporal desabou sobre a cidade, causando estragos em todos os 
lugares, sobretudo na Baixa. No dia seguinte soube-se que a 
Avenida da Repblica tinha ficado alagada, porque os esgotos no 
funcionaram com suficiente eficcia, e porque, para complicar 
ainda mais as coisas, a mar estava em preia-mar.
Em vrios locais se verificaram acumulaes de areia, 
machimbombos e carros viram-se imobilizados no meio da inundao 
e dos montes de terra, que foi preciso remover depois com 
bulldozers. Uma das faixas da marginal ficou obstruda e junto ao 
Drago de Ouro postes de iluminao caram, arrancados pela chuva 
que arrastou a terra das suas fundaes.
Foi no meio desse temporal que chegaste a casa. A mesa estava 
posta, espervamos por ti para jantar.
 sobremesa contaste o sucedido na empresa. Gaguejando um pouco.
Durante um segundo, s se ouviu l fora a trovoada e as btegas 
de chuva.
Depois Amlia afundou-se na cadeira, a chorar alto, em dada 
altura levantou-se e de repente desatou a rir:
Um coelho, julgas tu, disse na minha direco, apontando-o com o 
dedo. Os coelhos so espertos. Mas ele no. Uma marmota, digo eu. 
Uma marmota,  o que ele , uma estpida marmota africana sem 
unhas nem fel. Bom para ser comido e mais nada.
Empregado leal e fiel, repetia, em risos agudos, caminhando de um 
lado para o outro na sala. Empregado leal e fiel.

62


A sua voz tornava-se cada vez mais estridente, ameaava a cada 
instante partir-se:
Fiel  nome de co, gritou por fim, batendo com os punhos sobre a 
mesa.
Uma marmota, uma estpida marmota. As palavras rodopiam no ar 
como morcegos, em cambalhotas cegas, avanam no escuro, evitando 
a luz. Ouo-as ferir o ar, como pedras atiradas, que caem dentro 
de ns como num poo. Uma marmota, uma estpida marmota africana.
Uma vez soltas, as palavras no voltam mais a desaparecer, 
engolidas pela boca que as lanou. Transformam-se em pedra, uma 
vez ditas, ganham vida prpria, seguem o seu rumo. No voltam 
nunca mais para trs.
Agora a mentira comeou a andar no mundo, sinto, cresceu at ao 
cu e nunca mais voltar a recolher-se  boca. A mentira  assim 
como a desgraa, que primeiro andou por longe, sem fazer mal s 
pessoas, comeou por se chegar s rvores e deixou-as 
estropiadas, torcidas, gemendo no vento, crescendo curvadas sobre 
a terra em lugar de se levantarem para o alto, rvores loucas, 
mortas-vivas que no sabem do dia nem da noite, do sol nem da 
chuva. Depois a desgraa saiu da floresta e entrou no povoado e, 
tal como fizera com as rvores, semeou aleijes entre as pessoas.
A mentira  como a desgraa, aqueles em quem ela toca nunca mais 
so os mesmos. Agora eu sei. Sei que um raio pode cair em 
qualquer altura, e deixar o mundo quebrado para trs.
No dei conta de ter adormecido, penso de manh, com o corpo 
modo e a cabea pesada entre os lenis. Di-me a cabea e os 
olhos esto inchados no espelho.
Deso a escada, na direco da cozinha. Simba vem atrs de mim, a 
meio do corredor passa-me  frente, esgueira-se pela porta aberta 
do quarto da costura. Amlia no est, vejo ao passar. Entro, no 
encalo de Simba, e, com ele nos braos, vou sair de novo a porta 
- mas quando me volto vejo o casaco de Laureano sobre a mesa. Ao 
lado da tesoura. Desmanchado.
Parece maior, a tesoura, assim olhada de perto: afiada, metlica, 
as duas lminas afastadas, num longo bico voraz.

63


Imagino Amlia cortando, retalhando. O casaco desfeito, sobre a 
mesa: a gola tirada para fora, como uma gravata de fantoche, as 
mangas largussimas, espalmadas, sem costura, o forro saindo 
pelos bolsos como as entranhas de um animal abatido. (Tudo isso 
por causa de uma pequena ndoa de tinta?)
Percorro com os dedos os bordos da tesoura, sinto a lmina afiada 
sobre a pele. Uma arma branca, cortante como uma lmina de faca. 
Assim ela a devia ter sentido, a entrar no tecido, fundo. Um fio 
de sangue algures, invisvel. Doendo, doendo.
E ela, ofegante, curvada sobre a mesa. Cortando, absorta, sem dar 
conta de nada. As mos autnomas, entregues a si mesmas, 
treinadas.
S pra no fim, transpirada, exausta. Talvez afaste o cabelo da 
testa, limpe com o leno uma gota de suor. Agora respira fundo, 
alisa o vestido.
E ento sai por um instante a porta e vai por botes  rua, como 
se nada fosse. Como se lhe fizesse uma gentileza, e pudesse 
anunciar tranquilamente  noite: Ah, o casaco de linho, em que eu 
ainda no tinha pegado, porque o trabalho das freguesas era mais 
urgente, afinal vou arranj-lo.
E ele diria talvez: Obrigado.
Diria, talvez. Porque no teria visto, nem podia imaginar: os 
primeiros pontos, cerrados, midos, a rebentar com um estalido no 
bico da tesoura, o rasgar dos outros depois, com um gesto, 
brusco, definitivo. O algodo dos enchumaces saindo do lugar dos 
ombros, duas ou trs fiadas de pontos, de cores diferentes, no 
contorno das cavas, as bordas desfiadas, num contorno irregular. 
A gola e os virados das bandas tirados para fora, as mangas 
separadas, cada pedao mais pequeno que o outro. Sem nexo, todos 
os fios quebrados. Sobretudo o fio condutor, a linha mestra que 
unia os bocados e os transformava numa coisa inteira.
Toco-lhe por dentro, no lugar das costuras. Num dos bolsos, 
fazendo um fru-fru ligeiro, o invlucro de celofane de um mao de 
cigarros. E o cheiro a tabaco, e o cheiro do seu corpo, no tecido 
leve, sem entretela, de linho branco. Um casaco de Vero, que 
trouxera a etiqueta da alfaiataria. Mas tambm a etiqueta tinha 
desaparecido.
Nessa noite fico muito tempo acordada, olhando o escuro,  espera 
que todos adormeam, deso finalmente devagar a escada, vou p 
ante
p pelo corredor, entro no quarto da costura, apanho do cho 
pedaos de seda e de renda branca, de uma blusa de Amlia que 
ficou j quase pronta em cima da mquina, tiro da caixa redonda 
de sndalo alfinetes agulhas e linhas, meto tudo isso no bolso, 
juntamente com a caixa de lata dos botes, e subo, sem rudo como 
desci, para o meu quarto.
Ento acendo a luz, sento-me em cima da cama, fao uma boneca de 
farrapos e pinto-lhe na face a cara de Amlia, copiada 
pacientemente de uma fotografia que tirei do lbum. Olhos e 
nariz, boca e sobrancelhas, no esqueo sequer os brincos, que 
lhe fui buscar ao quarto, durante o dia, e agora coso, um de cada 
lado, no stio das orelhas. No pode haver engano, verifico: est 
igual.
No  um feitio de morte que lhe fao,  um feitio de viagem. 
Em cada mo e em cada p, nas orelhas e no meio do peito deito 
uma pedra de sal, espalho em volta os alfinetes e  a luz do 
luar, espalho renda branca e  a espuma.
Porque o mar a vai levar, o mesmo mar que a trouxe. E a tampa da 
caixa dos botes  o barco onde ela vai sentada.
Avano, outra vez, pelo corredor, at  porta do quintal e chamo 
em meu auxlio os xipocus:
 ventos que levam os espritos, venham traz-los agora  minha 
casa,  ventos que levam os espritos, venham traz-los agora  
minha casa, e tudo o que eu disser acontea -
O vento sopra l fora, as rvores arrepiam-se de medo, sacudindo 
as folhas, o cho estremece debaixo dos meus ps como terra 
revolvida, o bafo dos xipocus bate-me na cara, cola-me a camisa 
de noite contra o corpo, tremo de frio e sinto-me arder de calor, 
como de febre, mas no posso recuar, no posso recuar agora,
entro outra vez na sala da costura, escondo a caixa com Amlia 
sentada atrs da porta, empurro-a para debaixo do guarda-fatos e 
grito, sem voz, de olhos fechados:
Vai-te embora e no voltes. No voltes nunca mais.

64 - 65


2.


Aquela era a Duque de Connaught. Belo nome. Condizia com as 
moradias senhoriais e as accias. E com as casuarinas, e o mar. 
Mais atrs ficava a Duquesa, a Avenida Duquesa de Connaught, que 
era de prdios altos, restaurantes e boutiques. Gostava de ver as 
montras das boutiques caras, que comeavam mais ou menos a partir 
da Antnio Enes.
A cidade, verdadeiramente, era tambm a que comeava, pelos 
lados da Antnio Enes e da Princesa Patrcia (ou quando muito: a 
leste da Pro de Alenquer), e vinha avanando at  extremidade 
da falsia, at  Bayly,  Duquesa e  Duque de Connaught. E 
descia depois, quase a pique, at ao mar l em baixo - via-se  
distncia o Clube Naval, os iates e outros barcos de recreio, 
atracados na pequena doca de abrigo, e ao lado havia uma 
esplanada com mesas e guarda-sis. Os coqueiros alinhavam-se na 
marginal, onde passavam carros nos dois sentidos, bastantes mais 
na direco da Costa do Sol. As folhas dos coqueiros balanavam 
no vento.
Apoiou-se melhor no varandim de pedra, por um momento ficou quase 
sentada no parapeito, embora um dos ps continuasse no cho. O 
suficiente para aliviar um pouco o cansao dos saltos, demasiado 
altos para caminhar toda aquela tarde de domingo. Mas odiava 
sapatos rasos, o mundo era feito para pisar com saltos altos, que 
davam elegncia ao andar e faziam cair de outro modo os vestidos. 
Se bem que fatigassem demasiado os ps. Mas havia tambm, 
felizmente, os bancos, pensou sentando-se num deles e pousando ao 
lado a mala Marshmallow cor de vinho.
Havia, felizmente, por todo o lado os bancos. Sobretudo nas ruas 
que davam para o mar. Que de repente - parecia-lhe que fora de 
repente - se tinha enchido de barcos  vela.
E no Clube Naval, para onde agora olhava outra vez, sabia que um 
iate de luxo, vindo de Durban, ia ficar um ano, para depois sair 
e dar a volta ao mundo. Um iate Trimarin, tipo Victress,

67


que tinha sido construdo na Cidade do Cabo.
Ouvira dizer isso a Dora Flvia. Mas quando Graa Casaleiro lhe 
perguntara como sabia, a outra limitara-se a sorrir e a levantar 
as sobrancelhas, como se s pudesse falar por conhecimento 
directo do objecto possudo ou dos seus donos, e a pergunta fosse 
portanto descabida ou absurda.
A cidade, verdadeiramente, comeava na Antnio Enes e na Princesa 
Patrcia, passava pela General Botha, pelo Parque Jos Cabral e 
ruas muito perto ou  volta deste, Fernandes Toms, Eduardo 
Costa, Couceiro da Costa, Belegarde da Silva, Massano de Amorim e 
poucas mais, e corria para o mar. At  Ponta Vermelha, onde de 
resto comeavam a Duquesa de Connaught, a Fernandes Toms, ou a 
Belegarde da Silva.
Eram assim as avenidas, longas e largas, espraiadas ao longo de 
quilmetros. Por isso s vezes enganavam. Um endereo da 24 de 
Julho, por exemplo, podia significar os lugares onde as tabuletas 
anunciavam o Manzy Beauty Parlour ou a Pastelaria Versalhes, ou o 
lado oposto, onde a cidade se perdia bruscamente no Canio. E 
havia outras, que oscilavam tambm entre extremos.
Mas o outro lado da cidade, ela no contava. Excepto, talvez, 
algumas ruas da Baixa. O outro lado existia para servir este, 
levantado em frente ao mar.  cidade ela acrescentaria ainda o 
ponto alto do aterro, a vista que se tinha do Hotel Cardoso ou do 
Girassol. O resto no contava e no tinha importncia se deixava 
neste momento algum pormenor esquecido. O outro lado, por teimar 
em embrenhar-se no novelo confuso do Canio, perdia sempre, em 
dada altura, a geometria. Enquanto que ali a geometria no corria 
o perigo de ser desfeita: estava defendida pelo mar.
Ali, as coisas eram defendidas. As casas tinham grandes portes e 
vedaes de ferro pintado, e dissimulavam-se atrs de rvores, na 
sombra, camufladas com heras, buganvlias e canteiros de flores. 
Escondiam que tinham dois sales, cinco quartos, sala de jantar, 
trs casas de banho, varandas, escritrio, atelier, arrumos, 
dependncias de criados, churrasco, duas garagens, um enorme 
jardim. Quem passasse, ou quem estivesse sentado num banco, a 
olhar, como ela agora, pouco mais podia ver do que o porto 
fechado e, por entre as barras verde-escuro da vedao, o faxina 
que regava os canteiros com uma mangueira de bico de metal.

68


Por entre os ramos das rvores, no se abrangia mais do que a 
parte superior da fachada, onde havia uma varanda e ao lado uma 
janela aberta. Aguando os olhos, podia quando muito adivinhar-se 
que era de chintz o reposteiro que emoldurava a janela, e que na 
varanda havia uma cadeira de balano, com almofadas de riscas 
amarelas.
E se, como agora acontecia, um moleque abrisse o porto e um 
carro entrasse, um Alfa Romeo cinzento metlico, com um motorista 
negro fardado, ver-se-ia um pedao de jardim com placas de 
cimento no cho, entremeadas de relva, um caramancho ao fundo, 
no caminho da garagem. Mas j o moleque fechava o porto outra 
vez, e quem olhasse estaria de novo, como ela agora, num banco da 
rua, no meio das vagens secas das accias.
Viu no relgio de pulso que passava das cinco. Teria de ir 
andando, para chegar a casa antes deles, mudar de roupa e 
sentar-se outra vez diante da costura. Mas no tinha vontade de 
se ir j embora. Era uma tarde fresca, suave, de Setembro. A luz 
ia durar ainda, pelo menos, uma hora.
Era assim muitas vezes que passava o domingo. Andava pelas ruas, 
sentava-se diante do mar. Tinha a cabea to cheia de coisas que 
preferia ficar sozinha. S no ltimo minuto apanhava o 
machimbombo, corria para casa, para chegar antes deles e 
sentar-se a trabalhar como se nada fosse. Era uma mentira intil, 
mas tinha prazer em mentir-lhes.
Olhou outra vez os coqueiros, l em baixo. Talvez tudo fosse um 
equvoco, mas no podia voltar atrs. Era como se do outro lado, 
de onde viera, o mundo tivesse acabado. De certo modo era isso: 
No podia voltar atrs.
A cidade enganara-a, e por isso ela a odiava tanto. Mas no fora 
a cidade a engan-la, sentiu, a vida, a vida a enganara.
Porque a cidade, ou o que ela considerava como tal, no era muito 
diferente do que tinha imaginado, poderia mesmo dizer que era 
talvez mais bonita. Ela sonhara algo assim, aquela fita de 
asfalto da marginal, os jardins, os guarda-sis abertos, os 
barcos  vela, as praias, as piscinas. E a verdade  que tudo 
isso existia, ela via claramente que existia. Mas longe, na linha 
do horizonte, fora do seu alcance.
Ela estava na margem, olhando. Enquanto a vida, como os barcos  
vela, passava ao largo. Era tudo to visvel e concreto que tinha 
vontade de chorar. Mas se chorasse era pior,

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sentiu tirando da mala um leno de papel, era como se o mundo 
risse dela, os guarda-sis, as casas, os barcos, as rvores, as 
pessoas, sobretudo as pessoas rissem dela. Cinco e meia, viu. 
Comps o bton no espelho, ajeitou melhor o cabelo. Era a hora 
limite de ir embora.
Mas no domingo seguinte voltaria, sentar-se-ia outra vez num 
banco. No mesmo ou noutro, era igual, havia tantos, e tantos 
lugares que davam para o mar.
Havia aquela prgola, cheia de flores de buganvlia, onde agora 
estava, havia, por exemplo, o Miradouro e o Caracol que s vezes 
gostava de descer a p, at junto da praia.
Era um mar em geral sossegado, com ondas mansas, no azul, como 
ela julgara antes de o ver, mas de um verde cinzento, quase cor 
de chumbo. Podia-se caminhar muito tempo  beira-mar, o passeio 
era empedrado e largo, e havia a sombra dos coqueiros. Quando a 
tarde era fresca e a brisa batia na cara, parecia que se podia 
caminhar at  Costa do Sol sem sentir cansao, embora fossem uns 
doze quilmetros ou mais.
Na praia, na mar baixa, as ondas recuavam e deixavam a 
descoberto uma faixa enorme de areia. Branca, fina. Mas o mar 
cheirava pouco a maresia. Mais bravo e mais azul, e com mais 
cheiro de mar, era na Maaneta.
Na verdade ela nunca avanava muito, nesses passeios a p, 
chegava sempre o momento em que se fatigava e procurava um banco. 
Embora continuasse a sentir, insatisfeito, o desejo de andar. De 
andar, a tarde inteira,  beira de uma praia lisa e sem pessoas.
Mas ao domingo a praia estava cheia e havia muita gente e muitos 
carros a passar, na marginal. Por isso ficaria onde estava, l em 
cima, no meio das flores da buganvlia.
 verdade que ao domingo o machimbombo da carreira 1 ia at  
Costa do Sol, mas ela odiava os machimbombos, como odiava as 
pessoas que tomavam os machimbombos e iam fazer piqueniques na 
praia. Preferia olhar o mar de longe, e estar sozinha.
quela hora, Dora Flvia estaria no tnis, ou no Clube de Golfe. 
No havia nada no Autdromo, e tambm no ia ao Centro Hpico, 
tinha dito ao telefone  Conceio Santana e  Pureza Antelo. 
Pelo menos, era o que julgava ter ouvido. Ouvia muitas coisas, 
desde que passara a ir l trabalhar,  quarta-feira.

70


Apressara-se a anunciar s freguesas:  quarta-feira no fao 
provas. Vou para o Sommershild.
Dissera isso pelo prazer de dizer esse nome, associado ao seu, 
pelo prazer de saber que doravante passariam palavra no bairro: 
Amlia no est,  quarta-feira. Ou: Nesse dia Amlia no est. 
Vai sempre para o Sommershild.
Falara com uma voz sem expresso, como se lhe fosse indiferente e 
o facto no tivesse para ela qualquer significado:  
quarta-feira, vou para o Sommershild.
No explicara mais nada, deixara cair um profundo silncio sobre 
o assunto. Nunca diria que tratava da roupa das crianas e, 
ocasionalmente, alargava ou ajustava as fardas das criadas. 
Deixara espao, no silncio e na expresso altaneira da face, 
para a suposio, ou pelo menos para a dvida, se seria ela a 
fazer os vestidos de Dora - que eram comprados em Lisboa e 
noutros lugares da Europa, na frica do Sul ou nos desfiles de 
modas do Hotel Polana. Ou, se lhe traziam sedas de Hong-Kong ou 
de Macau, ela mandava fazer numa modista de alta costura (ainda 
no ouvira o nome, e interrogava-se se no seria algum de quem 
j tivesse ouvido falar, como a Maria Eunice, ou a Madame 
Laurentina Borges).
Por sorte, logo no incio tinha havido um acaso que viera dar 
fora  verso que lhe convinha: Dora Flvia mandara-lhe coser um 
pedao da bainha de um vestido, no lugar onde o fio rebentara. 
Era j tarde e ela tinha perguntado se podia fazer esse trabalho 
em casa. Dora encolhera os ombros, era-lhe indiferente, no 
precisava do vestido agora.
Assim, levara-o consigo, deixara-o toda a semana pendurado no 
quarto da costura. E no meio das provas, mencionava sempre que 
tinha que acab-lo, antes de quarta-feira. Era da dona da casa. 
No Sommershild.
Em geral nem sequer era ela a puxar a conversa. O vestido falava 
por si, atraa logo os olhos das freguesas.
Deixara-o ali, como um talism que a livrasse, a ela, do mundo 
dos armazns baratos d'A Feira ou do Loureno Marques Mercantil, 
na rua dos Irmos Roby. Como se o vestido, suspenso da cruzeta, 
fosse o sinal exterior de uma mudana.
S na tera-feira seguinte,  noite, lhe coseu a bainha. Difcil, 
porque a mousselina parecia desfazer-se nas mos. Mas era tambm 
um prazer tocar-lhe - suave, leve, se havia tecido vaporoso era 
aquele.

71


Vestiu-o ela prpria, depois de pronto. Um corpo to parecido, as 
medidas iguais, ficava-lhe at melhor a ela, achava-se to mais 
bonita do que Dora. Mas os vestidos pertenciam a umas, e no a 
outras mulheres. Mesmo quando uma mulher os talhava e cosia com 
as suas mos, eles pertenciam a outra. As vidas no se trocavam.
Dora nunca lhe pagaria o preo justo por nada, soube. Ningum lhe 
pagaria. Nem ela poderia explicar. Se tentasse, neste caso, 
enumerar os problemas em volta do vestido, falaria da textura, 
to leve que parecia areia movedia, onde os alfinetes e a agulha 
escorregavam sempre, e Dora assentiria, distrada, com um 
movimento de cabea, julgando que ela queria justificar um 
acrscimo no preo por esse trabalho extra, diria, sim, sim, 
impaciente, sem ouvir, porque tanto lhe fazia pagar um pouco 
menos ou um pouco mais, e no fundo essa conversa a aborrecia. 
Nunca poderia dizer-lhe que o problema no tinha sido o trabalho, 
mas aquele n na garganta, como uma mo de ferro, que a deixava 
sem ar.
Podia fazer um vestido assim, pensou ainda, rodando levemente 
sobre si prpria, no espelho. Saberia faz-lo, tal e qual, nem um 
ponto a menos. Mas o que parecia uma coisa prxima, concreta, era 
ao mesmo tempo impossvel. Irreal. Mesmo que houvesse ali  venda 
aquele tecido e ela tivesse dinheiro para compr-lo (duas coisas 
j de si improvveis), nunca teria ocasio de vesti-lo, porque 
no tinha acesso aos lugares onde esse tipo de roupa se usava.
Despiu-se devagar, no espelho. Como pudera, alguma vez, ter-se 
alegrado, com as idas ao Sommershild, com o que, dentro de si, na 
euforia do primeiro momento, chamara a poca do Sommershild. 
Como pudera ser to louca. Acreditar que uma mudana acontece s 
porque algum passa a ir regularmente a um lugar.
Se bem que era to novo e to surpreendente, atravessar a cidade 
e entrar no outro lado - como se, por um qualquer milagre, o 
velho machimbombo a levasse, aos trambolhes, at ao que sempre 
fora, secretamente, um objectivo. Tinha o corao a bater quando 
os portes pela primeira vez se abriram e ela subiu a escada e, 
depois da porta principal, pisou, de saltos altos, o cho de 
mrmore branco e preto da entrada.
Sim, a casa abria-se, como um mundo que ela conheceria doravante 
a partir de dentro, a sala de jantar a seguir  cozinha e  copa, 
o grande salo que dava sobre a varanda,

72


os quartos das crianas, o quarto de hspedes, o quarto de Dora 
Flvia e do engenheiro, com a casa de banho anexa, toda em 
mrmore, com lmpadas nos espelhos, a sala de jogos, o escritrio 
do engenheiro, o churrasco no jardim, a mesa de ping-pong no 
alpendre, ao lado dos quartos do pessoal e da garagem.
A casa abria-se, como se abria a mainatos, moleques e faxinas: o 
que parecia to prximo que bastava estender a mo para 
tocar-lhe, ficava ao mesmo tempo inacessvel, como se estivesse 
atrs de um vidro.
A vida era falsa, armava-lhe ciladas em que ela, descuidada, 
caa.
Ah, sim, a vida era falsa: dava-se por exemplo um passo, sem 
pensar, por brincadeira - porque s vezes dava vontade de ser 
louco e fazer coisas no ar, deitar cartas ou bzios, ou ossos, 
ler nas cinzas de cigarros, escrever cartas a desconhecidos. s 
vezes a gente no aguentava mais e enfurecia-se, e dava-lhe para 
ter caprichos, cegueiras, impulsos. E estava bem assim, cada um 
sabia de si e era como era, e ningum tinha nada com isso.
O que no estava certo era a vida aproveitar a ocasio e levar a 
srio a pessoa. Agarr-la, nesse primeiro passo, e faz-la dar a 
seguir todos os outros. No estava certo, mas a vida era assim. 
Por causa de um pequeno passo, dado a rir, podia a gente 
encontrar-se do outro lado do mundo. Sem quase saber como. E 
depois no se podia voltar atrs.
Embarcara em Lisboa, pelas onze horas, numa manh de Inverno. Os 
Jernimos e a Torre de Belm, olhava-os pela primeira vez, assim 
de longe, do barco, e nem conseguia distinguir se tinham alguma 
semelhana com o que tinha visto nos retratos, pareciam 
construes irreais, muito pequenas, a Torre de Belm sobretudo, 
parecia feita de acar, igual a uma que vira uma vez a enfeitar 
um bolo.
Deixou-se ficar um pouco mais no deque apesar da chuva mida que 
caa, porque queria ver a cidade, que sempre desejara ver e nunca 
vira - mas logo Lisboa desapareceu, tragada pela nvoa, s ficou 
o mar e o cu cinzento e os gritos das gaivotas, que acompanhavam 
o navio e desciam sobre a gua de repente.
O mar encapelou-se depois de sair a barra, ela sentiu-se mal e 
vomitou no deque, tentou descer at ao camarote mas teve 
dificuldade em chegar at l, tropeou, atirada contra as 
paredes, em corredores e escadas, deixou cair o saco de mo

73


- o barulho de moedas tilintando, o espelhinho partido, o bton 
que na altura nem pensou em procurar e depois nunca mais 
encontrou. Quando passou pelo bar havia loua cada e cadeiras 
tombadas deslizavam no soalho, batiam com estrondo contra a 
porta. Agarrou-se, sem querer, a uma das mesas, que no caiu, 
estaria provavelmente presa ao cho.
Levou a noite sem dormir, a vomitar em seco. Pior do que o medo 
era aquela horrvel sensao de nusea, os vmitos vindo 
constantemente  boca, a sensao de que algum cometia uma 
violncia contra ela, e no havia possibilidade de fugir.
Se ao menos o balano amainasse, se o barco ficasse quieto, um 
momento que fosse. Porque ento poder-se-ia respirar fundo, pr o 
estmago e o corpo no lugar. Podia ser que depois ela aguentasse 
melhor o balano, se tivesse um momento, um nico momento, de 
trguas: como numa viagem de carro a gente abre a janela e recebe 
o ar na cara e, se mesmo assim no melhora, pra um pouco na 
berma, pisa outra vez o cho firme, e sente com alvio que o 
mundo voltou ao seu lugar. Mas ali no havia por onde fugir, no 
havia mais que mar e cu, aparecendo alternadamente na vigia, 
agora que a manh clareava.
Fechou os olhos e deixou-se ficar quieta, como se estivesse 
morta. Se conseguisse ficar como morta, pensou, seria talvez 
menor aquela nusea.
No beliche debaixo do seu uma freira velha rezava, ouvia a sua 
voz bichanar av-marias, entrecortada por assobios finos quando 
por instantes se esquecia da reza e dormia. Uma freira mais nova 
levantava-se, de vez em quando, do beliche em frente, vinha 
dar-lhe gua ou sumo de laranja, ver se ela teria febre. 
Espalhara-se no ar um cheiro azedo, o calor era sufocante, apesar 
de ser Inverno, havia sumo de laranja entornado no cho e uma 
garrafa de gua partida, a freira gemia baixo, gritos de crianas 
atravessavam a parede, malas caam no camarote ao lado, havia 
vozes altas l fora e portas que batiam.
Voltou-se no lenol, transpirada, suja, com vontade de chorar. 
Jurou a si mesma que nunca mais entraria num barco nem provaria 
sumo de laranja, em dias de sua vida.
Assim, pois, a viagem comeava mal, pensou. O primeiro movimento 
em direco quela terra trazia-lhe j um sofrimento que s podia 
ser de mau agoiro.

74


Se bem que talvez s por um acaso no era uma vida igual  de 
Dora Flvia que a esperava,  chegada, no cais. Na verdade, podia 
bem ter sido. E como saber antes?
Podia ter sido o engenheiro a esperar o paquete em que ela vinha, 
pensara ao cruzar-se com ele na escada, quando a cumprimentara 
com um leve sorriso e um aceno de cabea. Podia ter sido ele a 
pr aquele anncio no jornal.
Bastava um nada para que a sua vida tivesse sido outra - ter 
respondido a outro anncio, ter-lhe ido parar s mos outra folha 
de jornal.
Talvez por isso essas duas ou trs linhas em que as pessoas 
jogavam as suas vidas a fascinavam tanto. Guardava s vezes os 
recortes na gaveta das agulhas, s muito tempo depois os deitava 
fora. Guardava-os sem nenhuma inteno, s porque lhe pareciam 
curiosos: menina, vinte e cinco anos, procura cavalheiro para 
conforto espiritual.
Os anncios e os horscopos, era o que lia sempre primeiro. No 
dia em que comeara a ir ao Sommershild, o horscopo dizia: O 
grande acontecimento vai ser a entrada da Cauda do Drago no seu 
signo no dia 26. Por isso esta semana uma mudana inesperada, mas 
desejada h muito, ir marcar na sua vida o incio de uma nova 
etapa.
Era verdade que ele redigira o anncio. Pensara bastante, porque 
uma coisa dessas era difcil, e acabara por escrever: Cavalheiro, 
solteiro, trabalhador e de bons sentimentos, 30 anos, residente 
em Moambique, procura menina honesta at 25 anos, para fins 
matrimoniais. Favor enviar fotografia, que ser devolvida caso 
no interesse. Assunto mxima seriedade. Escrever para: L. C. 
Caixa Postal n ..., Loureno Marques, Moambique.
Mas ao reler enchera-se de angstia. Era um anncio em tudo igual 
aos outros. Como havia a mulher que ele esperava de sentir que as 
palavras lhe iam direitas ao corao e ao ouvido, como havia de 
desdobrar o jornal e sentir o sangue bater forte, como nos 
momentos em que a gente se cruza com o destino? Porque ele 
acreditava que para o amor todos os caminhos eram bons, bastava 
as pessoas terem corao e Deus querer.
Ento no se conteve e acrescentou: Se tiveres f que hs-de 
encontrar o teu ideal e se desejas fundar um lar feliz, 
escreve-me. Espero por ti. E assinara o seu nome completo: 
Laureano Captulo.

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Tinha sido uma coisa  toa: No sabiam ao certo onde ficava 
Moambique, nem ela nem a Conceio nem a Celeste. Procuraram no 
mapa e quando ela deu com o nome Porto Amlia desataram a rir, 
porque parecia vir to a calhar. Porto Amlia. Ento era assim: 
ela descia de um barco, numa terra que tinha o seu nome, 
procurava com os olhos um homem que a esperava no cais, na cidade 
que se estendia a seus ps.
Era o destino que lhe batia  porta, disseram, no meio de risos, 
e no tinha importncia se o homem que queria casar com ela a 
esperava afinal num outro porto. Que era, alm do mais, a 
capital.
Mas s brincavam com a ideia, o prprio facto de acharem o jornal 
no tinha sido mais que um acidente. At porque em casa da 
madrinha ningum lia jornais. O anncio tinha aparecido por 
acaso, numa folha que vinha a embrulhar uns sapatos do tio 
Alfredo, chegado dias antes, de visita.
Ela entrou com os sapatos na cozinha e desdobrou o jornal em cima 
da mesa. Foi ento que leu. No sabia que o comeo de uma grande 
viagem tinha sido esse pequeno passo, entre a cozinha e a sala, 
onde leu outra vez o anncio, em voz alta,  Conceio e  
Celeste.
Nessa altura a nica coisa que sabia  que queria acirrar o Quim. 
E s por causa dele tinha acabado por escrever, trs semanas mais 
tarde:
Senhor Captulo: Escrevo para dizer ao senhor que li o seu 
anncio. Tenho dezanove anos e vivo em casa da minha madrinha 
desde os seis. Mando o meu retrato como o senhor pediu.
Amlia dos Santos Marcelino.
Tinha sido por causa do Quim Albano. Por uma zanga que tinham 
tido. Para lhe fazer cimes, cimes verdadeiros, com um 
pretendente a srio, que a ia fazer atravessar o mar se ele no 
fosse homem bastante para a agarrar primeiro.
Porque o Quim vai no vai se armava em parvo, com cimes sem 
razo, que lhe davam a ela vontade de o matar.
Que sim, que sim, que o Z Furna no tirava os olhos dela e ela 
bem sabia, no se fizesse de sonsa, que ele tambm tinha olhos na 
cara. E porque torna e porque deixa, fez-lhe a vida negra todo o 
Entrudo. E ela disse que nunca mais lhe falava mas era a ele, 
Quim Albano. Porque se ia passar a vida com cimes desses, 
inventados, nem era homem nem era nada, fosse mas  s urtigas e 
com ela no contasse.

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E assim acabou o Entrudo e passou a Quaresma. No Domingo de 
Pscoa ela quis fazer as pazes, mas o Quim no deixou o amuo. 
Ningum lhe tirava da cabea que ela olhava para o Z Furna, 
apesar de o Z Furna lhe jurar que no e de ela lhe gritar que 
gostava era dele, Quim Albano, mas deixaria de gostar se ele 
continuasse naquela.
E o Quim em vez de vir s boas e de lhe pedir desculpa por ser 
doido e inventar coisas, comeou a andar atrs da Adelina, ou a 
fazer que andava. Para lhe fazer cimes a ela.
E ento ela decidiu fingir que levava a srio a histria de 
frica enquanto ele fingisse que levava a srio o namoro com a 
Adelina.
E assim tirou o retrato, e, porque raras vezes tirava retratos e 
a brincadeira ao mesmo tempo a divertia, ps papelotes no cabelo, 
vrios dias a fio, depois de o molhar com ch de macela para lhe 
abrir a cor, que de castanho claro passou a quase louro, 
sobretudo na testa, emoldurando a cara. E para que constasse, e 
chegasse aos ouvidos do Quim, pediu conselho  Elisa sobre o 
vestido que ficaria melhor. Acabou por vestir uma blusa da 
Celeste, com uma rendinha de frioleira a debruar a gola.
No fim, o tom de louro no se notava, porque o retrato era a 
preto e branco, e as ondas do cabelo quase tambm no. Mas via-se 
a frioleira na gola, a cara estava sorridente e ela acabou por se 
dar por satisfeita com o resultado, no conjunto.
De qualquer modo, tambm no gastaria mais dinheiro com aquela 
histria, decidiu fechando o envelope. Bastava que fosse a 
escolhida, para mandar essa notcia at ao Quim.
E para que constasse e chegasse aos ouvidos do Quim Albano, lia 
depois com as amigas as cartas que chegavam:
A cidade era muito bonita,  beira-mar, com um porto muito maior 
que o de Lisboa, e uma baa com muitos quilmetros de comprimento 
e de largo, do outro lado ficava a Catembe, para onde se ia num 
barco a que chamavam ferry boat, a Xefina via-se quase sempre, de 
muitos lugares, a Inhaca tambm, mas quando o cu estava limpo. E 
havia ali perto outros stios para visitar, a menina havia de 
gostar de ver. E quanto ao resto, tambm ia gostar - j tinha 
visto um macaco? Uma zebra? Um crocodilo? Uma rvore grande da 
borracha? Uma papaeira?

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As cartas comearam a ser faladas. E era como se lhe dessem, na 
aldeia, muito mais ateno. Porque algum lhe escrevia, ela 
passara a existir mais e isso agradava-lhe: sentira sempre dentro 
de si aquela raiva, aquela vontade de se vingar do mundo. Desde 
os seis anos que andava a engolir a esmola da madrinha. Era tudo 
muito bonito, mas ela era pouco diferente de criada.
Que lhe queria como a filha, dizia a madrinha a quem a queria 
ouvir. Mas sempre tratara de modo bem diferente a Palmira, que 
era filha de verdade.
Ai, de resto essa histria de filha tinha muito mais que contar. 
Talvez ela fosse mas  filha do padrinho Honorato, que pouco 
antes de morrer lhe dera o relgio de bolso que tinha  
cabeceira, um relgio de ouro que fora o nico luxo da sua vida. 
Tinha pouco valor, mas era uma lembrana, dissera-lhe.
Chorara muito com a sua morte, teria nessa altura uns onze anos. 
Chorara sobretudo s escondidas, porque parecia que a madrinha e 
a Palmira no gostavam de a ver chorar, como se o desgosto e o 
luto s fossem delas. Nem sequer a deixaram vestir-se de preto, 
era muito nova, disseram, e fizeram questo em que pusesse com a 
saia umas blusinhas brancas.
O relgio, ainda o guardava, no fundo da gaveta. Tinha sido uma 
sensao to estranha. No podia negar que ele sempre gostara 
dela, mas levara isso  conta de bondade, ou de velhice. No 
podia imaginar que de repente aquele gesto a ia apanhar de 
surpresa - ele estava muito doente, na cama, chamou-a com um 
aceno, meteu-lhe na mo o relgio de ouro, dobrou-lhe os dedos 
com uma pancadinha leve. Tem pouco valor, disse com esforo. Mas 
 uma lembrana. Tentou sorrir, mas comoveu-se e no disse mais 
nada.
Nunca mais disse nada, devia ter-lhe dado alguma coisa nessa 
altura, s que ningum notou logo, estavam todos  volta, mudos, 
emparvecidos de espanto. S depois deram conta de que ele no 
estava bem, chamaram o mdico, desataram aos gritos.
Depois da morte dele, poucos dias passados, no se falou mais no 
caso.
O relgio  Amlia, diria tranquilamente a madrinha mais tarde, 
ele j no devia saber o que fazia, porque sempre me disse que 
era para a Palmira. A seguir benzia-se e acrescentava logo: Mas 
est dado, est dado,
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e longe de mim outra ideia. Porque at podia ser que estivesse 
ainda em seu juzo e lho desse realmente de vontade. Que ele 
tinha muito bom corao, e sempre demos tantos mimos  Amlia.
Podia-se ir ao Bilene, que era uma praia com dunas de areia clara 
e gua transparente. Ou  Namaacha, onde mesmo no Vero estava 
fresco debaixo das rvores, e onde havia uma cascata que caa 
sobre pedras grandes, a gente podia chegar-lhe mesmo ao p, 
passando por cima de uma ponte.
Por causa do relgio vinha-lhe s vezes essa ideia de que era 
filha do padrinho Honorato. Ela, de quem as comadres diziam  
boca pequena, mas no suficientemente pequena para que no se 
ouvisse, que tinha nascido por detrs dos valados, nas tristes 
ervas, e era filha daquela desgraada que tinha filhos sem pai, 
coitada, j l est e que Deus lhe perdoe. Ela mesma, portanto, 
quem sabe se no era filha dele. Tal e qual como a Palmira.
Talvez para esconder isso a madrinha s estava bem a contar aos 
quatro ventos como o padrinho Honorato lhe fora sempre to fiel, 
em quarenta anos nunca lhe dera um desgosto. O que era uma 
histria bem diferente das que vinham da boca pequena das 
comadres, sobretudo da Rosa, da Marta e da Alice, quando se 
punham a lavar no tanque: Que o padrinho Honorato no era nenhum 
santo, no, tinha ido at com a Joana Coxa, do Olival de Cima.
Depois da morte do padrinho tudo mudara para muito pior, a 
madrinha irritava-se por tudo e por nada com ela, parecia que 
estava sempre zangada.
O relgio, portanto, s lhe trouxera mal. Talvez fosse sinal de 
uma injustia, de que tinha direito a outras coisas, de que a 
vida a defraudara. Dava consigo a morrer de raiva da madrinha e 
da Palmira, e do padrinho Honorato ainda mais.
Ainda deito fora aquele relgio, pensava muitas vezes. S no o 
tinha feito porque isso no iria afinal apagar a lembrana.
As cartas iam e vinham e ela comeou a entontecer. Como se 
andasse s voltas, no carrocel da feira. E havia frases que 
andavam tambm em roda, atrs dela:

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Olha que ele parece to bom rapaz e a gente aqui no passa da 
cepa torta. V l se te saiu a sorte grande e se ainda a deitas 
fora, rapariga.
Do-se passeios  Bela Vista,  Ponta Mahone,  Ponta do Ouro e a 
outros lugares. O Incomati tem ilhotas e outras ilhas maiores, 
onde vivem pescadores, e atravessa-se na balsa, a caminho da 
Maaneta, onde h uma praia de mar, e logo ali, to perto como ir 
do lugar onde a menina agora est at  porta da sua casa ou do 
seu quintal, to longe quanto se v  s areia, e o rio.
E s duas por trs o namoro do Quim e da Adelina at parecia que 
era a srio, e no  que talvez fosse mesmo?
Ento ela entrara em desespero e mandara-lhe um bilhete: Quim, as 
cartas no so verdade, era s para me vingar de ti. Se gostas de 
mim, vem  noite debaixo da janela.
Esperou toda a noite que ele atirasse uma pedrinha, como 
costumava. Ela teria aberto a janela e t-lo-ia deixado entrar, e 
ele teria dormido com ela. Como j tinha feito algumas vezes. E 
teriam feito as pazes. Como j tinham feito, algumas vezes.
Mas nenhuma pedrinha bateu na janela.
Ainda guardava a carta que recebera da madrinha. Estava, junta 
com as de Amlia, na ltima prateleira do armrio, dentro da 
caixa grande de sndalo:
Senhor Captulo, deseijo que esta o v emcontrar de prefeita 
sade que eu ao fazer desta fico bem graas adeus -
Embora ela o esperasse. A noite inteira. Torturando-se, a pensar 
mil razes: se ele teria recebido o bilhete, se a madrinha teria 
andado a espalhar intrigas, se lhe teria barrado o caminho, 
porque a madrinha andava desconfiada das noites deles, e podia 
ter-se posto a rondar a casa, com o guarda-chuva na mo,
Senhor Captulo, no  por o senhor pedir informains da menina 
que respondeu ao que o senhor botou nesse jorenal,

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mas eu  que no ficava de bem com a minha conscina se deixasse 
a menina seguir viaje sem le dar essas informains porque o 
senhor h-de querer que las dem, mesmo que no pessa que a gente 
sabe como so os homes que fico a enpreender que buscar mulher  
coisa sria e a gente se casando  distncia no  como na nossa 
terra que eu tanbim fui casada cuarenta anos com o meu Honorato 
que Deus l teim e senpre com muita felecidade e alegria pois 
senhor Captulo fasso questo de dizerle que a menina Amlia  
menina sria e temente a Deus como j no nas , de boa jente, 
muinto honesta e muinto prendada no se le aqui cunheceu 
conversado e queim na levar ao altar vai bem aconpanhado vai em 
boa conpanhia e no se  de a repender que na doensa que eu tive 
ela senpre me tratou coma me e nunca me faltou com nada que eu 
por io le quero coma filha e no  por ser minha afilhada que a 
jente nova oje em dia no  farinha do mesmo saco desta pode o 
senhor ficar descansado que le sabe guardar respeito e tomar 
conta da caza pois  muinto trabalhadeira e asseada e o senhor 
prior que a bautizou pode tanbim dar informains se o senhor 
quizer tirar e no me deicha mentir que eu por ela pounho as 
muns no fogo a Deus senhor Captulo at mais ver fique na grassa 
de Deus
desta que sassina Maria do Livramento de Nossa Senhora Coelho


A madrinha empurrava-a, todos a empurravam, ela chorava e 
procurava o Quim e o Quim fugia dela, e da nica vez que se 
encontraram gritou-lhe que no a queria porque no tinha 
confiana nela, e ela chorava mais e parecia que andava embruxada 
e entontecida.
Empurravam-na, e ela ia. Antes a tivessem empurrado para dentro 
de um poo. Ao menos assim estaria tudo acabado.
Os lances seguintes foram rpidos, certeiros, como se os dados 
estivessem lanados e j nada pudesse ser de outro modo.
Comovera-se com a sorte dela, rf desde os seis anos, a viver em 
casa da madrinha, aprendendo o trabalho da casa e a costura. 
Cosendo talvez  janela, deitando os olhos para o largo da vila e 
no se agradando de nenhum dos rapazes que passavam. Sem saber 
que era dele que estava  espera, ele l to longe, por terras de 
frica. Porque assim era a vida e o destino.

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Mandou-lhe dinheiro para tratar dos papis, comprar um fio de 
ouro e um anel e umas coisinhas de roupa que quisesse, mas tudo 
mais de Vero, porque, como j disse, faz bastante calor por 
aqui.
Por causa dele, ainda se correspondera, anos depois, com a 
Celeste, que vivia no Porto, mas mantinha contacto com a terra. 
Escrevia com rodeios, usando de todas as precaues. Como est 
esta e aquela, este e aquele? perguntava sempre, no fim, como se 
o Quim nem existisse.
E s na sexta carta, em P. S., como se fosse a ltima coisa do 
mundo a vir-lhe  ideia, deixava cair: Que  feito da Graciana? E 
do Joo Rolo? E da Palmira? E acrescentara, mesmo no fundo da 
pgina, numa letra muito pequena: E do Quim?
Finalmente, pensou fechando o envelope. Finalmente, fizera a 
pergunta que justificara as seis cartas. Tinha de saber se ele 
sempre tinha casado com a Adelina. E foi em alvoroo que recebeu 
a resposta, dois meses e dezoito dias depois: A Graciana casou 
com o Augusto e vive no Cimo do Olival, o Z Rolo e a Incia 
esto em Gaia, a Palmira continua solteira, o Quim casou com a 
Adelina, tm uma menina e agora que o sogro morreu, est ele na 
mercearia.
Deitou fora a carta e chorou a tarde inteira. Mas no Natal 
escreveu longamente  Celeste (criados temos trs, e um 
cozinheiro). Mandou um postal do hotel Polana reflectido na 
piscina (foi aqui que passmos a lua de mel, e  onde o meu 
marido me leva todos os sbados, a jantar ou ao dancing).
Juntou uma fotografia das casuarinas, na marginal, onde se viam 
dois macacos a descer de um ramo, por lhe parecer que os macacos 
eram sempre motivo de admirao, e os animais favoritos da gente 
do povo.
E depois nunca mais deu notcias.
Mas s vezes era como chegar ao fundo de um poo e voltar  
superfcie. Disparate, pensava. Que graa tinha, a vida l na 
terra. E eu no gostava do Quim tanto como isso. Cime a mais, e 
macheza a menos, e pouca raa ele tinha. A madrinha, se calhar, 
nem teve culpa. Foi assim e pronto. E tambm, que grande vida, l 
na mercearia. Ou a cavar no campo, se eu ficasse com ele. De 
qualquer modo, so guas passadas e coisas esquecidas.

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No dia seguinte, na viagem, o mar amainou e parou o vento. J 
tinham passado o Cabo Branco, passado ao largo de Dakar, e 
seguiam rumo a So Tom.
O cu tornou-se esbranquiado, plido, de onde em onde azul. No 
deque da primeira classe, que ela via de longe, as pessoas liam, 
sentadas em cadeiras de lona. Algumas usavam culos de sol, 
olhavam o horizonte com binculos, fumavam. Conheceu o casal que 
viajava no beliche ao lado do seu. Vinham de passar frias e 
tinham uma menina chamada Orlanda. Soube por eles que alguns 
navios tinham at piscina, na primeira classe. Embora no fosse 
esse o caso, no barco em que seguiam.
S depois da meia noite chegaram a So Tom, de que apenas se via 
uma fiada de luzes. Os motores pararam, a noite foi silenciosa, 
serena, como se o navio fosse um hotel. De manh viu a ilha verde 
e os montes, e ouviu, com desagrado, que iam ali ficar o dia 
inteiro. Quase todos os passageiros desembarcaram, para irem de 
lancha at  baa de Ana Chaves. Apanhariam depois um txi e 
dariam a volta  ilha, disse o casal, saindo com Orlanda. No 
queria vir tambm? Ver a gua Iz? No queria. No tinha dinheiro 
para gastar em txis. Isso no disse, mas sentiu. Foi um dia 
longo, cheio de tdio e de calor.
Ao cair da tarde partiram outra vez. Havia ainda outra escala 
assim to longa? perguntou a um marinheiro. E logo se arrependeu, 
porque se sentiu to ignorante - devia ter-se informado de tudo 
isso antes de se meter naquele maldito barco, que fazia o 
trajecto talvez da pior maneira possvel.
Ele respondeu com um sorriso que lhe pareceu de troa: Ah, pois 
havia. Em Luanda, no Lobito, na Cidade do Cabo. Podia-se, outra 
vez, desembarcar.
Sorriu-lhe tambm, para esconder a raiva. Por esse andar, no iam 
chegar nunca.
E quem tem pressa de chegar? perguntou ele. A bordo, todos os 
dias so de festa. E contou que tinha havido um baile na primeira 
classe, e que alguns passageiros tinham sido convidados para 
tomar champanhe na cabine do comandante. At cantaram fados, 
ouviam-se do outro lado da porta, no corredor.
E que mais, e que mais, quis ela saber, gulosa de notcias.
Ele riu: Ah, e antes disso houve a ceia e o cup gelado, e 
danaram tangos e valsas no salo, as mulheres tinham vestidos 
compridos, lindssimos, os homens transpiravam nos smokings,

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porque estava muito calor, apesar do ar condicionado.
Aquela dor de ser excluda. Havia portanto lugares proibidos, 
portas que s se abriam para alguns. Assim era, pois. Esse noivo 
distante que a mandava ir no lhe abria essas portas.
E que mais, e que mais, perguntava, como se quisesse medir toda a 
extenso do seu infortnio.
Ele ria, gozando a posio privilegiada de ter sido testemunha, 
porque andara com uma bandeja a servir bebidas:
 meia noite soltaram serpentinas e sopraram apitos, como se 
fosse a passagem do ano, e havia um chapu que passava, ao 
danar, de cabea em cabea. Quem tinha o chapu procurava um 
novo par.
E no dia seguinte, acrescentou ainda, iam passar o equador e 
borrifar com gua os que o atravessavam pela primeira vez. Diziam 
que era o baptismo.
Depois do equador, navegamos rumo ao Capricrnio, s guas de 
Capricrnio, pensara. Navegava-se no mar como nas moradas do cu 
- isso significaria uma mudana?
E o enjoo? riu ele. Pois olhe que no Cabo da Boa Esperana vai 
enjoar outra vez. Mas, se o balano for proa-ppa no  o pior. 
Foi pior o bombordo-estibordo, ao sair de Lisboa.
Preferiu Momedes, onde no desembarcaram, a Luanda, onde se 
podia deixar o barco e ir at  cidade, que ficava distante do 
cais, preferiu Momedes, de que se via uma faixa desolada e 
rida,  baa azulssima do Lobito. Ao menos ali ningum 
desembarcava. Quando muito, para enganar o tempo, havia quem se 
debruasse, a pescar  linha.
Ficou tambm no barco na Cidade do Cabo (a que preferia chamar 
Capetown, como ouvira tambm dizer). Viu as montanhas altas, 
cortadas de nevoeiro pelo meio,  noite as luzes numa faixa larga 
e brilhante. Parece Nova Iorque, disse quem l tinha estado.  
tudo soberbo e moderno, e os prdios so altos como arranha-cus.
E houve o balano, outra vez. E outra vez o enjoo. Menos forte, 
contudo. Mesmo assim no dormiu. De manh viu o ndico - imenso e 
pastoso, com manchas de espuma. Doravante o mar da sua vida? Mais 
feio que o Atlntico, achou. Embora mais tranquilo. Mas tambm a 
se enganava. Comeou a chover com fora e o mar alterou-se, 
tornou-se grosso e bravo,

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com ondas que chocavam contra o barco, lutavam entre si e 
rebentavam, em remoinhos de espuma.
Diante de Durban amainou de novo. Havia nessa noite outro baile, 
na primeira classe, ouviu dizer. O ltimo, porque amanh se 
estaria em Loureno Marques. Tinham passado quase vinte dias.
Mas agora que ia chegar estava assustada. Quase desejava que o 
navio andasse, andasse, e no chegasse nunca.
Arranjara a casa. Uma coisa de cada vez, todos os dias, ao voltar 
da empresa. O cigarro ao canto da boca, e s vezes um lpis atrs 
da orelha. Assobiando baixinho. Trabalhos de mos eram com ele, 
descontraam-no, dava-lhe gosto aplicar os materiais e ver as 
coisas mudarem de feio.
Foi assim que forrou de linleo verde o cho da casa de banho, 
substituiu o arame em volta da banheira por um varo cromado, 
onde pendurou uma cortina de plstico s bolas azuis e 
encarnadas.
A cozinha foi beneficiada com uma mesa redonda, de frmica, e 
duas cadeiras, e com uma pintura na parede, que teve de ser 
reforada com uma terceira demo na chamin. Escolheu o branco 
para alegrar a cozinha, que era escura, porque s tinha uma 
janela pequena, a luz entrava sobretudo pela porta do quintal. 
Mas j para o quarto foi beije o tom escolhido, e para a sala um 
verde claro que dava bem com as almofadas do sof.
Na sala, depois de pronta, faltavam ainda alguns enfeites nas 
paredes, e ele achou que seria bom pr alguns quadros. Comprou, 
assim, umas pinturas a um negrinho de uns dez anos que as vendia 
na rua: Uma mulher de costas, com uma lata de gua  cabea e uma 
criana pela mo. Seguiam num carreiro estreito, que subia e se 
perdia no mato, mais adiante. Noutro quadro havia folhagem, 
ramos, capim alto e uma cabea de leo espreitando. O resto do 
corpo no se via, escondido no capim. Pendurou-os lado a lado, 
medindo de cada vez a distncia entre o soalho e o prego.
Ainda para a sala, comprou uma coleco de estatuetas de arte 
indgena, que disps nas prateleiras da estante, e um candeeiro 
de p alto, para junto da cadeira--aviador, o que implicou a 
aplicao de uma nova tomada na parede, com os fios muito 
disfarados, puxados desde a caixa rente ao tecto, contornando a 
ombreira da porta e seguindo o correr do rodap.

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Quanto ao mais, foram coisas adquiridas aqui e ali, uma agora e 
outra depois, s vezes pagas a prestaes para no sobrecarregar 
demasiado o oramento: a colcha para a cama de casal, de tecido 
adamascado vermelho brilhante, dois tapetes iguais, um para cada 
lado da cama, e um terceiro, diferente, que estendeu na entrada.
Eram poucas as lojas de moblias, a bem dizer quase no se tinha 
escolha, mas mesmo assim ainda comprou,  ltima hora, um 
bengaleiro e uma mesinha de chanfuta, que encontrou por acaso e 
lhe agradou, por aquela madeira ser ali pouco vista, embora de 
momento no lhe visse utilidade. Comprou-a, apesar disso. Numa 
casa que passaria a ser de uma famlia, haveria certamente sempre 
um destino a dar a uma mesinha de chanfuta.
No era no Cabo da Boa Esperana, mas no Cabo das Agulhas, que 
acabava o Atlntico e comeava o ndico, disse-lhe um marinheiro, 
quando ela subiu ao deque, ao fim da tarde.
Ele j tinha visto, l de cima da falsia, lugares 
inacreditveis, onde as agncias de viagens levavam sempre os 
turistas, j vira o Gama Park, a False Bay que no era realmente 
uma baa e a que davam, por isso, esse nome, e depois ao longe o 
Cabo das Agulhas - j vira o lugar exacto do separar das guas, 
onde de um lado se estendia o Atlntico, alteroso e bravo, um 
oceano instvel e revolto, e do outro lado o ndico, suave e 
vagaroso.
Ah, havia muita coisa a ver, na frica do Sul, cidades que no 
Inverno desapareciam, debaixo de neves, os lugares fantasmticos 
das minas, para j no falar na Cidade do Cabo, rodeada de montes 
e verdura, com a Table Mountain, aquela montanha do feitio de uma 
mesa, onde havia sempre uma toalha de nuvens. Se tiver 
oportunidade, no deixe de visitar tudo isso - quanto tempo vai 
ficar por aqui?
No primeiro momento no soube o que dizer, de tal forma se 
assustou com a pergunta.
No sei bem, disse por fim, com o corao descompassado, sentindo 
que nunca mais diria uma s palavra verdadeira sobre si mesma. 
Vim visitar parentes. Passar frias.
Ele sorriu. Quer dizer que o tempo da visita depende de gostar ou 
no?
Sorriu-lhe tambm, assentiu, com um movimento de cabea.

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Ele tinha os olhos claros, reparou, era alto e magro, poderia 
passar por estrangeiro. E ficava-lhe bem aquela farda, fazia 
ressaltar a pele queimada pelo sol.
O anncio deitado no jornal. Como uma garrafa deitada ao mar. 
Sentiu-se triste, depois, nem sabia porqu.
Caminhara pela rua, nos dias seguintes, depois do trabalho, para 
se distrair um pouco. Tinha dado aquele passo, e no ia voltar 
atrs.
Lembrou-se de uma histria que algum lhe tinha contado: Uma 
mulher recebia pelo correio, doze anos mais tarde, a resposta a 
uma carta que, em criana, tinha deitado ao mar. Com a resposta, 
vinha tambm o original da carta, ainda sofrivelmente conservado, 
apesar de ter boiado doze anos, num percurso inacreditvel, como 
depois se verificou: a garrafa tinha seguido desde a costa 
holandesa at ao mar do Norte e ao largo da Noruega, vagueado 
pelo rctico, descido ao Canad, e sido arrastada pela corrente 
do Labrador, que finalmente a empurrara em direco a Frana. 
Ouvira isso algures, ou sonhara?
Teve sonhos confusos, nessa noite. De manh s se lembrava de que 
o mar entrava, rebentando a janela, e havia em toda a casa uma 
sensao de angstia.
Nunca fora, afinal, a Capetown, pensou, sentada na prgola de 
buganvlias roxas. Nunca vira de perto a toalha de nuvens nesse 
monte com feitio de mesa.
Mas conhecia, podia dizer que conhecia, pessoas para quem parecia 
que a Europa ficava perto e a frica do Sul era um arrabalde a 
dois passos; pessoas que usavam a frica do Sul, do mesmo modo 
que os da frica do Sul usavam Moambique, inserindo a 
Gorongoza, Santa Catarina e outros lugares nos seus roteiros 
tursticos.
Gente que ia e vinha e nunca se sentia aprisionada, nem corria o 
risco de enjoar em barcos, antes, com a facilidade com que se 
muda de vestido, pousava suavemente no cho e descia com 
elegncia uma escada de metal em Mavalane. Que entrava depois num 
carro, levando apenas uma pequena mala de crocodilo ou de 
antlope, onde s vezes se via um monograma, ou, se se tratava de 
uma mulher, segurando a ala da malinha do ncssaire, com um 
design moderno, que arredondava as arestas debruadas de metal.

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Gente que se sentava na parte de trs de um carro sem fazer o 
menor gesto,  espera que o motorista acorresse, de bon na mo, 
a fechar a porta. Gente que no obedecia aos sinais de trnsito, 
antes continuava a acelerar, ao longo das avenidas.
Gente que trocava de carro como de sapatos e gozava a vida em 
todos os lugares, que sabia o que devia ou no usar, com quem 
conviver, a quem desprezar, porque, como ela descobria, eram 
muitos e complexos os jogos daquele mundo, que s pertencia a 
alguns. Em que s entravam, e s se mantinham, muito poucos. Por 
um nada, um riso, um gesto, um aceno de cabea, ela juraria que 
s por um aceno de cabea, eles sabiam, de imediato, entre si, 
quais eram os que valia a pena conhecer: os que no acreditavam 
nas celebridades locais em matria de cirurgies, parteiras e 
protsicos dentrios, troavam dos que embarcavam no Lrio em 
excurses a mdicos atravs da Luzfrica, com intrprete e 
acompanhamento, troavam dos que se hospedavam no Grande Hotel, 
ou no Sherborne Hotel, onde se falava portugus, em 63 Claim 
Street. Pelo modo como falavam das ruas pareciam conhec-las 
desde sempre, como se fossem objectos pessoais, de uso comum - a 
Eloff, a Von Brandis, a Pritchard - o John Orr dali nada era, 
para eles, em confronto com o John Orr de l, para j no falar 
da abundncia do O. K. Bazar.
E quando, por acaso, em vez de entrarem no primeiro avio, iam de 
comboio  frica do Sul, o seu nome vinha no jornal, na rubrica 
Movimento dos Comboios, como se o trnsito se pautasse pela 
frequncia com que faziam malas e as suas idas e vindas fossem a 
nica razo de ser dos comboios sobre as linhas.
Para Dora Flvia e os amigos, por exemplo, a comparncia nas 
Tmbolas de Caridade e nas Exposies Caninas, nos Pools no 
Centro Hpico, ou nas competies internacionais do Autdromo, 
dir-se-iam concesses feitas  pequena vida local. Desdenhavam 
das praias dali e todos os veres partiam com os maridos e as 
crianas em busca das guas sul-africanas, mais frescas e cheias 
de brisa e de espuma.
Em casa tinham aparelhos de ar condicionado, que, como diziam, 
criavam em frica um clima europeu. Mandavam portanto no clima e 
podiam quase alterar a geografia. Tudo, mesmo o clima (ela via 
agora), era uma questo de pagar um preo.
Mas a frica do Sul tornara-se tambm para eles um lugar por 
demais montono e comum.
Sim, j tinham ido tanta vez a Capetown, dizia Dora ao telefone, 
em tom de queixa,  Paulina Gameiro. Entusiasmara o Manuel Carlos 
e a Leonor Garrido para um cruzeiro ao Japo. No, na Albatroz, 
na Albatroz  que iam fazer a lista de inscries. Pois, tinham 
primeiro de saber quem ia. Organizar um grupo, de contrrio... A 
Marta Lobo? No, no lhe tinha dito. A Sara Crespo e o Antnio 
talvez, o que  que achava?
Os amigos de Dora tinham nomes curiosos, parecia-lhe, e tambm 
uma habilidade especial para os espalhar  sua volta, como 
arranjos florais espetados em jarras, ou como cerejas num cesto 
em que, se se puxava uma, logo outras vinham atrs. Quando se 
ouvia dizer por exemplo Sara Crespo ressoava logo na memria 
Vidigal Nino, porque ela se chamava assim, e apetecia dizer, 
como se fosse uma frase que de outro modo no teria sentido: Sara 
Crespo Vidigal Nino. Era o que ela, pelo menos, achava.
Os nomes divertiam-na. S pelo nome podia imaginar-se um pouco da 
pessoa. Em geral, no se enganava muito. Pureza Antelo era a mais 
velha do grupo e tinha de facto um ar severo - embora no usasse, 
como ela supusera, o cabelo apanhado com ganchos, em forma de 
banana. Mas o ponto mais marcado do rosto eram os olhos, com um 
trao preto na base das pestanas, e p azul ou verde nas 
plpebras, de acordo com o tom predominante do vestido.
J Telma Dias Marques era, como ela julgara, mais nova, gostava 
de rir, tinha os dentes da frente um pouco afastados, usava um 
bton vermelho escuro, nacarado e brilhante. s vezes parecia um 
pouco insegura, como se no tivesse a certeza de ser 
completamente aceite.
Porque nesse mundo havia aquele lado feroz, que a ela no deixava 
de parecer fascinante, como a garra de um animal selvagem. Muita 
gente nunca era admitida em determinados crculos, ou era 
admitida para depois ser outra vez excluda, havia quem sofresse 
dia aps dia  espera de um convite que nunca vinha, havia quem 
desse o primeiro passo num convite a que outros se escusariam com 
elegncia, ou seria aceite por mera formalidade, sem nunca ser 
retribudo.
Parecia tudo to simples a quem estivesse de fora, como se no 
houvesse mais nada a fazer seno sentar-se na varanda, nas 
cadeiras com almofadas de flores, e jogar canasta,

88 - 89


bridge ou mahjong, comer scones com doce e tomar ch em bules de 
prata, servido por mos negras enluvadas de branco.
Parecia to simples mas no era, ela ouvia por exemplo que 
vestidos tinham sido considerados demasiado vistosos ou demasiado 
banais nas festas do Clube Naval e sobretudo nas festas do Grmio 
(havia quem ficasse favorecido e quem estivesse um desastre, quem 
tivesse conscincia das cores que lhe ficavam bem, e quem no 
tivesse a menor ideia das pedras e das jias adequados  hora do 
dia e  personalidade de quem as usava); havia quem soubesse 
escolher os menus quando recebia em casa, e todos eles, 
alternadamente, recebiam em casa, era uma forma de passar o 
tempo: Vichioise (por exemplo) e vol au vent, podia ser, mas s 
quem de todo no tivesse requinte nem imaginao ofereceria s 
visitas caril de camaro ou de lagosta.
E depois havia, debaixo desse mundo ocioso e brilhante, um outro, 
escondido, feito de dios, rivalidade, inveja, cime, havia os 
amantes, as amantes, as noites varadas nas mesas de jogo, em casa 
de uns e outros, o lcool, os escndalos, as fortunas perdidas ao 
pquer -
ah, como ela sabia, como ela sabia tudo isso, e como essas 
histrias a excitavam, essas coisas ouvidas por entre portas, em 
pedaos de conversas, ao telefone, quando provava a roupa das 
crianas e Graa Casaleiro ou Telma, ou Paulina, telefonavam e 
Dora interrompia a prova do vestido da Maria, do calo do Diogo 
ou do bibe do Martim e prometia que ligava j, mas no se 
continha e ia dizendo, uma frase ou duas, e metade de mais outra, 
e ela percebia, pelo dito e sobretudo pelo no dito, como se 
lesse claramente em entrelinhas.
As palavras que Dora ia deixando cair, diante dela como diante 
dos cozinheiros, criados e mainatos, porque nenhum deles existia, 
eram coisas, sombras, objectos que passavam pela casa e amanh se 
poriam fora, estariam noutro lugar e seria como se nunca l 
tivessem entrado.
Porque ela era tratada como criada (nada mudara, nada mudara, 
desde a casa da madrinha), era tratada como os criados negros, e 
um dia em que Dora lhe deu um tecido para uma blusa, um tecido 
feio que por qualquer razo absurda lhe tinha ido parar s mos 
mas ela no queria para si, e por isso lho dava, como uma forma 
mais discreta de o deitar no lixo, ela sentiu-se corar, como se 
estivesse descala no mato e uma patroa branca lhe levasse um 
saguate de pano.

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Sentou-se na cadeira--aviador e olhou em volta: a sala mudara 
para melhor, nem parecia a mesma. S faltava arrumar o lixo que 
deixara acumular entretanto, as latas de tinta, os pedaos de 
fios cortados, a ferramenta espalhada no cho.
Mas faria isso depois. Fechou os olhos e encostou a cabea para 
trs. Era uma tarde quente de domingo. Abafada e quente. Tinha o 
corpo transpirado e a boca seca e um enorme cansao o invadia.
Uma cerveja bem fresca, pensou. Mas pareceu-lhe um esforo 
demasiado levantar-se, ir  cozinha, abrir a porta da geleira, 
tirar da gaveta o abridor de garrafas. Viu-se fazer esses gestos, 
sem coragem de faz-los, realmente.
Cruzou os braos e apoiou-se melhor na cadeira, sentindo que ia 
adormecer.
Gostava de nomes. Podiam revelar as pessoas, como fotografias. 
Assim por exemplo, gostava desse nome: Alegna d'Ortsac.
Alegna d'Ortsac dava conselhos de beleza num jornal (lia-os 
sempre, a seguir ao horscopo), e era dona de um salo com o 
mesmo nome, onde se faziam banhos turcos,  base de vapor e 
exsudao, e depilao elctrica indolor.
Sempre desejara ir a um salo de beleza, e com essa inteno j 
por mais de uma vez juntara algum dinheiro - uma vez, dizia 
consigo, uma vez poderia sempre pagar. Mesmo que depois nunca 
mais l voltasse. Mas sempre se sentira intimidada.
Olhava os nomes nos letreiros, ao passar (Salo Rosa, Salo 
Ldia, Salo Tulipa), ou encontrados por acaso num qualquer 
anncio ou prospecto - Carlos Cabeleireiro, Haute Coiffure, o 
cabeleireiro que as senhoras devem preferir, devido  qualidade e 
perfeio dos seus trabalhos. (Onde era preciso fazer marcaes e 
ficava na Massano de Amorim.) Ou o Salo Veneza, ou o Salo 
Arcdia, no trio do prdio Nauticus. Havia tambm o Instituto de 
Beleza Adelina, mas a esse no iria nunca, Adelina era um nome 
fatal na sua vida.
Se um dia entrasse num deles, seria de certeza no de Alegna 
d'Ortsac. Interrogava-se como seria Alegna, se poderia 
inspirar-se nela, copi-la como a um figurino. Seria alta e 
magra, decidiu. Com um vestido gren. Falaria devagar com um 
forte sotaque estrangeiro. Alegna poderia ser - o qu? Italiana, 
parecia-lhe. Ou talvez montenegrina,

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ouvira dizer que havia muitos montenegrinos por ali, embora no 
fizesse ideia em que lugar do mapa-mundo poderia ficar um stio 
chamado Montenegro.
Mas um dia em que aludiu ao nome, Laureano desatou a rir.
Alegna d'Ortsac? Meu Deus, mas  Angela Castro, escrito ao 
contrrio, como  que ela no tinha dado conta?
Quase chorou de raiva, e a partir da riscou Alegna dos seus 
projectos. Alegna  MENTIRA, escreveu a lpis vermelho nas folhas 
que tinha coleccionado, com os seus conselhos. Sentia-se lesada, 
burlada. Alegna nem sequer existia. Mas tinha-a feito sonhar.
S mais tarde entrou na cozinha, abriu a geleira, trouxe para a 
sala a cerveja, o copo e o abridor, colocou-os em cima da mesinha 
ao lado do sof, bebeu devagar olhando em frente.
No quadro, a mulher negra afastava-se, de costas, com a lata de 
gua  cabea, levando a criana pela mo. Duas figuras magras, 
isoladas, trepando com esforo o caminho a subir, que se perdia 
no mato mais adiante. Tinham andado muitos quilmetros, por uma 
lata de gua, pensou. Conhecia, na vida real, aquelas silhuetas 
esgalgadas que transportavam gua  cabea, percorriam distncias 
imensas com os ps descalos - que o quadro apenas esboava, como 
se os confundisse com a terra.
Uma lata de gua. Poupada, depois, quase gota a gota. Para beber 
e misturar com farinha cozida. O suor que custava uma lata de 
gua. Ele sabia.
Conhecia uma mulher que pusera a um filho o nome de Sofrimento. 
Um menino negro que se chamava Sofrimento Nassiaaca.
Cummeroysh e luggoshteensh diziam os roteiros tursticos. 
Para facilitar a vida aos estrangeiros, aos que procuravam nas 
lojas letreiros que diziam: English Spoken ou Afrikaans 
Gesprek.
Atraam-na as lnguas, como todas as coisas estrangeiras. Um dia 
copiou minuciosamente para um caderno duas frases encontradas em 
prospectos. A primeira dizia respeito ao John Orr: The finest 
department store in the city, with merchandise from every country 
in the world. Twenty departments and separate rest, writing and 
powder rooms, for the use of customers only.

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A segunda era sobre a Casa Hofali, the Perfume Shop. All the 
best known French perfumes, and a varied assortment of cosmetics 
from the beauty centers of the world.
No entendia a mensagem, mas sentia que comunicava qualquer coisa 
de superlativo, talvez de prodigioso. Hofali?
Deu consigo, poucos dias depois, na Sete de Maro. Era um dia 
quente de Outubro, mas havia brisa. No cu pouco nublado vogavam, 
aqui e alm, nuvens brancas esgaradas.
Passou diante do Standard Bank, entrou no Prdio Fonte Azul, 
transps, pela primeira vez, a porta da Casa Hofali.
Era uma loja requintada, sentiu de imediato diante das vitrines 
com luvas, malas, jias, perfumes. Havia um aroma no ar, 
envolvente mas quase imperceptvel.
De certo modo, disse qualquer coisa dentro dela enquanto olhava 
em volta, a Casa s vendia o que no era essencial. Podia-se 
viver sem jias nem perfumes. E naquele clima as luvas, como as 
peles, a bem dizer eram suprfluas, um luxo que s se podia 
ostentar poucos dias no ano. Mas era justamente o que a atraa, e 
por isso entrara. Queria o suprfluo, o luxo, o que s era 
reservado a alguns.
Pousou a carteira em cima do balco e enfrentou o vendedor.
Desejava ver luvas, jias? Tinham acabado de receber a nova 
coleco de bijouteria francesa. O que poderia mostrar-lhe?
Perfumes, disse, sem hesitar, respirando fundo.
Algum em especial?
Relanceou os olhos pelos frascos de feitios diversos, colocados 
ao lado da caixa respectiva. Demasiado longe para conseguir ler 
os nomes. Lembrou-se de ter visto Tabu na casa de banho de Dora 
Flvia. E como se chamavam os outros, os muitos outros, 
encetados, que ela tinha na banca de mrmore, em frente ao 
espelho? No lhe ocorria um nico e sentiu-se levemente 
constrangida. Aquela vinda ali tinha sido muito pouco preparada.
Tabu no quero, disse com uma desenvoltura que soou quase 
agressiva.  para oferecer, acrescentou mais cordata, tem de se 
adaptar  personalidade da pessoa. Talvez me possa mostrar 
alguns.
Com certeza, disse ele colocando no balco Sirocco, Elle, 
Orage, Madeiras do Oriente, Promessa,Embrujo de Sevilla. 
Trazia de cada vez o frasco original e outro com pulverizador, 
aspergia-lhe ao de leve a parte interior do pulso, onde a 
pulseira do relgio escorregava.


93


Ela aspirava com delcia, mas recusava sempre. Pousava os frascos 
de novo no balco, admirava sem dizer nada as suas formas 
caprichosas, a perfeio das rolhas de vidro, que pareciam jias, 
sobretudo uma, pequena, que terminava numa bolinha preta, 
facetada.
No, no exactamente.
 para uma senhora jovem?
Era um empregado solcito, simptico. Com mos finas e culos 
ligeiramente escuros. Passaria de boa vontade toda a manh a 
atend-la, dir-se-ia. Ofereceu-lhe uma cadeira que ela aceitou 
com uma inesperada sensao de bem-estar, aliviada de um cansao 
de que, curiosamente, s agora dava conta.
Sim,  para uma senhora jovem, disse aspirando outro perfume e 
ouvindo por um instante o barulho da cidade l fora. Alta, loura. 
E acrescentou, depois de uma curta pausa: Estrangeira.
(Uma mulher rica, que tem tudo na vida, pensou encostando-se para 
trs e apoiando as mos nos braos da cadeira. Uma mulher bonita, 
rodeada, admirada.)
Temos por exemplo Madame Rochas, disse ele. Ou Femme, de 
Marcel Rochas. Perfume ou eau de toilette.
Rochas  um nome portugus, disse ela, enfadada, porque ele 
tambm tinha pronunciado assim.
No, no, assegurou ele com veemncia, era francs, e o perfume 
tambm. Podia certificar-se na embalagem.
Escolheu um outro, tambm em eau de toilette, seduzida pelo 
aroma e pelo desenho caprichoso da caixa. Um perfume denso, 
talvez excessivo, parecia-lhe. Mas no tinha dvida na escolha.
Aparentemente talvez no muito jovem, disse ele com voz de seda, 
mas para alguns tipos de personalidade podia ser absolutamente 
certo. Havia meninas de dezoito anos que compravam aquele 
perfume, no fundo a idade no tinha nada a ver, era uma questo 
de gosto, no  verdade? Tudo uma coisa muito pessoal.
Viu-o fazer o embrulho com delicadeza, como se fosse uma jia, 
envolver a caixa num papel brilhante que lhe pareceu sumptuoso, 
pr-lhe com mincia uma etiqueta e um fio dourado em volta.
Caminhou na Sete de Maro, cedendo  tentao de desfazer 
imediatamente o embrulho e abrir o frasco, deixar-se seduzir pelo 
perfume. Era uma prenda que dava a si mesma

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- merecia, alguma vez, um perfume caro,  verdade que demasiado 
caro, mas pago afinal com dinheiro dela, dela mesma, Amlia 
Captulo, ganho com o trabalho das suas mos.
Amlia Captulo. Meu Deus, detestava esse nome. No Amlia, que 
tinha sido at nome de rainha, da ltima rainha que Portugal 
tivera, Amlia, que era nome daquela cidade, Porto Amlia - meu 
Deus, mas no queria pensar nesse episdio, nunca mais, era uma 
coisa esquecida, deixada para trs.
Amlia, pois bem, era o seu nome e gostava dele. Mas Captulo era 
impossvel, como podia uma pessoa chamar-se Captulo? Nunca o 
dissera, em casa de Dora Flvia. Era s conhecida por Amlia.
Mas, embora no lhe desagradasse, no seria esse o nome que daria 
a si prpria. Fora presente da madrinha e s por isso 
apetecia-lhe p-lo de lado e nunca mais o usar. Se pudesse 
escolher queria ser, por exemplo - por exemplo Patrcia. Que era 
at nome de rua e de princesa, havia a Avenida Princesa Patrcia. 
Patrcia qu, se fosse tudo a seu gosto?
Patrcia - Hart. Uma mulher alta, loura. Estrangeira. Uma mulher 
bonita, rica, admirada. Patrcia Hart.
Ocupou um lugar, automtica, distrada, na paragem do 
machimbombo. Desfez devagar o embrulho enquanto esperava, sem 
sentir os olhos das pessoas, que a olhavam com curiosidade, tirou 
com cuidado a rolha, deitou uma gota na parte interior do pulso. 
Aspirou o aroma, uma vez e outra, concentrada. Ficaria bem em 
Patrcia Hart, pensou.


Sofrimento Nassiaaca. Ele sabia. Conhecia o sofrimento dos 
negros, conhecia-o a partir de dentro, podia pr-se no lugar 
deles, porque no sentia, nunca sentira distncia. Ele no era 
diferente.
Lembrou-se do caixo do pai do Relito Matunga a ser coberto de 
terra, na parte de trs do cemitrio, onde no havia jazigos com 
esttuas de anjos segurando ampulhetas, placas de mrmore nem 
lampadrios. No lugar onde ficavam os brancos pobres e os negros. 
Ali, pensou, ficaria tambm ele um dia. Estaria bem, junto dos 
negros. Em paz. Enquanto os outros -
Gostava de mentir-lhes. Nem sabia porqu. Sentia-se melhor assim, 
escondendo deles os seus pensamentos, como escondia os passeios 
solitrios de domingo.
Precisava disso - de estar s, de caminhar assim  beira-mar, 
pisando as placas quadradas do cho, entre os coqueiros 
perfilados e o varandim de pedra, duas linhas rectas que pareciam 
tocar-se no horizonte. (Mas esse ponto onde se encontravam no 
era, tambm, de onde fugiam?)
Despenteados, os coqueiros, sempre abanando no vento, alguns com 
uma faixa larga pintada de branco, e mostrando, de onde em onde, 
folhas amarelas queimadas. Assentes na terra por uma parte mais 
larga do tronco, uma parte grossa, rugosa e mais escura, como uma 
pata de elefante. Ah, mas depois, at l em cima, to esguios, 
cada vez mais da grossura de linhas, parecendo tambm diminuir de 
tamanho em altura. Correndo, at ao horizonte. E o mar, ao lado, 
tambm fugia, ia-se embora em ondas, at  Xefina,  Inhaca, ao 
Bazaruto, a outras terras, outros portos, outras ilhas.
Gostava de andar assim, entre os coqueiros, despenteada pelo 
vento, gostava daquele vento das tardes de domingo que lhe 
afastava da cabea os cabelos e os sonhos.
Enquanto os outros, os vampiros que se tinham alimentado do 
sangue dos negros, sairiam um dia dos seus jazigos sumptuosos, 
onde quer que estivessem, e errariam entre as campas, 
mortos-vivos sem descanso e sem sono.
Mas ele no. Ficaria em paz, em campa rasa, entre os negros. Com 
pouca terra por cima. Para poderem ouvir os pssaros cantar.
Caminhar sem sentir, sem pensar em nada. Pisando, no cho, as 
sombras esguias, movedias, dos coqueiros. Ouvir o bater dos 
saltos no empedrado, como se fossem os ps de outra pessoa.
E depois correr para o machimbombo, chegar depressa a casa, 
vestir outra roupa qualquer, sentar-se diante da mquina. Ela 
prpria maquinal, alheada, como se dormisse sem fechar os olhos. 
Contente de saber que Gita distraa Laureano, lhe preenchia as 
longas horas de domingo.
Eles viriam, finalmente, sempre depois dela, contariam coisas, 
ela diria sim, fingindo ouvir, chegaria mesmo a fazer perguntas, 
cuja resposta ignorava. Pensando no prximo domingo. Nos caminhos 
em que tinha andado, e eles no sabiam. Ouvia-os falar, por sobre 
o rudo constante da mquina, montono como o som das ondas. Ou 
do vento.

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A agulha corria, sempre para diante, no pano, sempre para diante, 
enlouquecida - o pano era imenso e vasto como o mar, e no havia 
margens, ela pedalava furiosamente porque os ps se tinham 
soltado e no lhe obedeciam, ela era a agulha que corria para a 
frente, corria - sonhara isso, uma vez, havia muito tempo. Era um 
sonho velho, esquecido. Mas agora vinha-lhe outra vez  ideia - 
ela era a agulha, uma agulha louca que cosia o mar -
At melhorar de vida tivera mulheres s de passagem. Negras e 
brancas, mas sem compromisso. No queria prender-se. Casar era 
bonito, mas tinha muito encargo. Durante muito tempo, ao fim do 
ms, mesmo cortando no tabaco, no havia nada ao canto da gaveta. 
E pelo menos de vez em quando, ainda mandava algum  me e ao 
Narciso.
Uma agulha louca, que cosia o mar - ah, os sonhos.
Coisas doidas,  toa, que passavam na cabea da gente, enquanto 
se dormia. Estava outra vez em casa da madrinha, havia luto pela 
morte recente de algum. Mas apesar disso tinham feito uma festa, 
danava-se no terrao, ao som da msica, de repente o homem com 
quem danava levava-a para longe e abraava-a, no meio de um 
campo, sentia o peso do corpo dele sobre o dela, sentia que ele a 
amava e que a seguir iriam fugir os dois, mas tambm sabia, no 
sonho, que nada disso era possvel. Acordara banhada em suor e 
sufocada.
Os pequenos segredos que escondia, por nenhuma razo, s porque 
gostava de guardar uma parte da vida para si. Mesmo que fossem 
coisas tolas, inteis, como por exemplo recortes de jornal.
Divertia-se a ler aquelas palavras que de algum modo a 
fascinavam, embora no deixassem de lhe parecer absurdas - Reze 
nove ave-marias durante nove dias e pea trs desejos: um de 
negcios e dois impossveis. Ao nono dia publique este aviso e 
cumprir-se- mesmo que no acredite.
Orao ao Senhor dos Amarrados. Orao dos Aflitos: Aflita se viu 
a Virgem aos ps da cruz, aflita me vejo eu, me de Jesus. Mande 
publicar no terceiro dia e aguarde o que acontece no quarto.
Orao a Santo Onofre:  meu glorioso Santo Onofre, que ao monte 
Tabor subistes, de hera verde vos cobristes.

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Cavalheiro recm-chegado da metrpole procura alojamento, 
Serralheiro mecnico oferece-se para emprego compatvel, 
Cavalheiro honesto procura - oh cus, que tolice que era 
acreditar nessas histrias de cavalheiros honestos e de 
casamentos  distncia -
Zuze, Mdium-Vidente Espiritualista e Cientista, Adaptado de 
Poderes Absolutos. Resolve problemas difceis ou impossveis em 
15 dias, com eficcia e garantia. Aproxima e afasta as pessoas 
amadas com rapidez total. Se quer prender a si uma vida nova no 
perca tempo, contacte o Professor Doutor Mestre Zuze.
Caminhar toda a tarde na Baixa (e dizer-lhes depois calmamente ao 
jantar que tinha sado s um quarto de hora,  loja da esquina, a 
comprar botes), caminhar ouvindo ressoar no cho os sapatos 
altos, vendo a sombra correr no passeio a seu lado, esguia, 
elstica, uma sombra rpida, que s ali estava de passagem e s 
vezes desaparecia, entrava de repente numa porta, perdia-se no 
emaranhado do trnsito, no meio da profuso de artigos de um 
grande armazm que podia ser por exemplo o John Orr.
Gostava do John Orr, daquela fachada de vidros, do prdio 
imponente que ocupava todo um quarteiro e tinha entrada por 
vrias ruas. L dentro havia aquela abundncia de coisas 
expostas, uma seco atrs de outra, moblias, roupa de casa, de 
cama, roupa interior, vesturio de homem mulher e criana, 
sapatos, malas, brinquedos. E porque agora era Dezembro, 
ofereciam coca-cola e as crianas tiravam fotografias com homens 
vestidos de Pai Natal.
Ah, no a convidassem, pelo amor de Deus no a convidassem para 
ir a casa de Sakarbai Laia ou do Relito, ou para fazer 
piqueniques na praia com o Andr, o Jamal e a Bibila. Queria 
passar aquela tarde sozinha, subindo e descendo os pisos do John 
Orr, acotovelando-se com quem entrava e saa, abrindo caminho com 
o corpo, olhando sem realmente ver mais do que um brilho 
desmesurado e confuso, ouvindo as vozes e os risos das crianas 
como se falassem ou rissem ao longe.
Como se nada tivesse realidade, fosse antes um cenrio onde ela 
se perdia, onde tinha prazer em perder-se, atordoada pelo rudo 
das vozes, ofuscada pelo piscar resplandecente das luzes.
Perder-se, perder-se agora, j que tinha sempre de voltar para 
casa e fingir-se alegre diante das frutas secas da Prodag e da 
rvore de Natal improvisada, em equilbrio instvel em cima do 
banco da cozinha, j que tinha de ficar desvanecida
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com a prenda que iria desembrulhar  noite - - um leno de seda 
falsa, ou um par de sapatos que, de qualquer modo, teria sempre 
necessidade de comprar.
Oh, no a convidassem, por amor de Deus no a convidassem nunca 
para ir ao Jardim Zoolgico ver os palhaos Emiliano e Vosnes, ou 
ouvir os concertos da banda, no Jardim Vasco da Gama, nas tardes 
de domingo.
Quando agora sasse AO John Orr iria sentar-se a uma mesa, no 
Continental ou no Scala e leria devagar uma revista, depois de 
pedir um caf e um pastel (escolhia sempre pastis de nata, a que 
ouvira uma vez chamar custard, na mesa ao lado da sua).
Sentar-se-ia portanto no Continental ou no Scala, saboreando o 
bolinho redondo com o creme queimado no meio e sorvendo em 
pequenos goles afinal no o caf, que acharia demasiado 
concentrado e por demais escuro, mas ch forte em que deitaria 
leite ou espremeria gotas de limo. Faria depois um aceno ao 
criado, olharia de relance o talo da conta, pagaria sem dizer 
uma palavra, como se no entendesse nem falasse portugus, 
deixaria uma gorgeta na bandeja e ir-se-ia embora, de cabelo 
solto e carteira a tiracolo.
E ao atravessar a rua, na faixa branca, e ao passar em frente do 
Lopes & Ramos, lembrar-se-ia talvez de ter lido tambm no jornal 
o anncio do pr do sol danante dessa noite na bote Chez Mona 
do Hotel Girassol, e do Rendez-Vous Coty nos sales do Polana, 
patrocinado por casas como a Costa & Cordeiro, Coimbra, Fabio, 
alm daquelas duas, Lopes & Ramos e John Orr.
Lembrar-se-ia talvez desses anncios, a par dos outros, dos 
anncios misteriosos que lia no jornal, em que as pessoas 
brincavam com o destino como se fossem comedores de fogo ou 
balanassem l em cima, no trapzio, em risco de vida ou de 
morte, suspensos por um p -
Assobiava debaixo das rvores do Xipamanine, caminhando no meio 
dos rapazes que descarregavam camisas, bons, bacias de plstico 
e toalhas de banho, das vendedoras de feitios sentadas em cima 
de sacos, de baldes deborcados, de pequenos bancos de madeira.
As mulheres usavam lenos na cabea, saias e blusas, ou capulanas 
amarradas em volta do corpo; os lenos, as capulanas e as blusas 
tinham desenhos diferentes, e a regra (se tivesse de haver uma 
regra, mas na verdade no havia)

99


era que tudo combinava com tudo, de modo que todas as combinaes 
de cores e desenhos eram possveis, e o resultado era 
surpreendente. Sobretudo se ele olhasse no s para uma mulher, 
mas para os grupos de duas ou mais, em que geralmente andavam, e 
reparasse na mistura que faziam. No conjunto eram um quadro 
movedio andando.
Sim, podia ter sido o engenheiro a esper-la no cais. Por um 
pouco a sua vida no era diferente. Por um acaso, um golpe de 
sorte, um nada - dado de jogar que mostra uma face e no outra, 
roleta que desliza um instante mais e pra no nmero seguinte.
Cruzara-se com ele na escada, e com tanta fora pensara que 
poderia ter sido ele a esper-la que pousara mal o p no degrau e 
cara. Ele apressara-se a levant-la, pegara-lhe na mo e depois 
quase pegara nela mesma, ajudara-a a sentar-se no canap do 
corredor.
Est melhor? perguntara sorrindo. Fizera outras perguntas, 
oferecera caf, mandara a Zlia buscar gua fresca.
No, no era nada, assegurou. O p um pouco torcido, s isso, no 
era coisa de cuidado.
O Irmantino vai lev-la a casa, disse ele preocupando-se, ou pelo 
menos parecendo preocupar-se. Est a doer muito?
Abanou a cabea, dizendo que no. Mas os olhos traram-na, 
encheram-se de lgrimas.
Oh, deve doer imenso, com certeza, disse ele dando ordem  Zlia 
para chamar o Irmantino e de caminho trazer da casa de banho 
aqueles comprimidos - a caixa azul, com uma risca no meio. Dentro 
do armrio do espelho.
Foi assim que chegou a casa no carro do engenheiro, e continuou a 
mentir. Sim, torcera o p, doa-lhe imenso, nunca nada lhe doera 
tanto na vida. Nem tinha vontade de falar, e no descia para 
jantar porque no conseguia engolir. Deixassem-na assim no 
quarto, s escuras, deitada na cama, segurando na testa um pano 
molhado em gua fria.
E no entanto fora uma glria e um gozo atravessar a cidade no 
carro do engenheiro, sentada  direita, no banco de trs - alis 
quase estendida, porque tinha tirado o sapato e apoiava o p no 
estofo beije, que cheirava a couro.
100
O ar condicionado era fresco, soprava-lhe direito  cara, ela 
sentia-se mais leve, havia agora no fundo de si uma obscura 
sensao de alvio. O Irmantino dizia qualquer coisa sem se 
voltar para trs, olhando-a no espelho, qualquer coisa que ela 
depois esqueceu mas a fez sorrir, ele prprio riu, sacudindo os 
ombros, com o bon a tremer na cabea.
A cidade dir-se-ia diferente, mais alta e distante, atravs dos 
vidros, sobretudo atravs do grande vidro da frente, que tinha 
uma larga faixa escurecida, as accias oscilavam, cobertas de 
flores vermelhas que pareciam vir ao seu encontro e fugiam, 
rapidamente, para trs.
Para j no falar do gozo que lhe dera deixar-se ficar sentada,  
espera, segurando nas mos a carteira, enquanto o Irmantino saa 
e vinha atrs abrir-lhe a porta.
Tudo isso visto, olhado e observado, pelas vizinhas que estariam 
- tinha a certeza - detrs das janelas, espreitando por detrs 
das cortinas.
frica tinha todos os desenhos e todas as cores - plancies e 
montanhas, rios e mato, quedas de gua e florestas, mar e savana, 
rpteis e antlopes, paquidermes e pssaros, flores e frutos.
Ele ia gostar de ser um guia, para aquela mulher que ia chegar.
O Polana era uma vasta fachada luminosa, onde s se via o branco. 
Reparara, ao passar-lhe diante, caminhando devagar ao longo da 
Rua Bayly, que tambm nas janelas as cortinas eram brancas. Mas 
talvez fosse apenas o forro, ou uma das faces; vistas de dentro, 
quem sabe se no teriam grandes ramagens de flores. Mas no podia 
saber, nunca entrara em nenhum dos quartos.
No hotel sim, claro que j tinha entrado, embora no visse mais 
que o grande trio, os elevadores luxuosos, cujas portas de 
repente se abriram para deixar sair algum, o salo em frente, 
com o cho de mrmore e mesas douradas onde havia ramos imensos 
de esterlcias e de antrios. E a porta a seguir, tambm j a 
tinha atravessado: dava para o jardim, a piscina e o mar.
A paisagem inundava de repente os olhos, oferecia-se, sem limite, 
como se o mar tambm fizesse parte do jardim, logo a seguir aos 
canteiros de flores, aos pedaos verdes de relva, ao entranado 
cinzento e branco dos ladrilhos. O mar que se estendia a perder 
de vista l em baixo,

100 - 101



quando se desciam os degraus e se chegava, ao fundo, at  
balaustrada de madeira.
No muito diferente, alis, da paisagem que ela podia ver, mais 
adiante, ali da rua: Um petroleiro passava devagar ao longe, 
havia barcos  vela e carneirinhos brancos de espuma. Os 
coqueiros, na marginal, eram nesta zona mais ralos, agrupados, s 
aqui e ali um ou outro se isolava. Todos soprados na mesma 
direco pelo vento.
Mas tambm havia coqueiros no jardim do Polana, e, se se 
voltassem as costas ao mar, dar-se-ia conta de como se levantavam 
no meio da relva, envolvendo a gua muito azul da piscina. 
Olhando da, do meio da relva, ver-se-ia ainda como esse lado do 
hotel se abria em janelas, varandas, colunas, balaustradas, 
deixando entrar o sol e o mar, ver-se-ia como esse lado, mais 
defendido, preservado, (preservado e defendido como o prprio 
jardim), era, de algum modo, o principal. Como se a parte voltada 
para a rua fosse meramente fachada, atrs da qual a verdadeira 
realidade se escondia.
Mas esse lado era s de alguns. Dos que se sentavam nas varandas 
em mesas e cadeiras brancas, ou deitavam em colches azuis 
debaixo dos guarda-sis,  beira da piscina, enquanto empregados 
fardados deslizavam sem rudo, segurando bandejas.
Esse lado no lhe pertencia. Ela era apenas visitante, no lhe 
cabia mais do que um rpido olhar, quase furtivo. Bater-lhe-iam 
sempre em dada altura nos olhos as placas douradas dos letreiros, 
informando que a piscina era reservada aos hspedes do hotel. E 
tambm o jardim, e a beleza, e a tarde calma, pensou. E os sales 
l dentro, e as mesas de jantar, e a msica do dancing  noite. E 
a vida, meu Deus, a vida no lhe pertencia.
Esquecera completamente o Quim Albano, pensou caminhando diante 
do hotel, onde um carro grande, reluzente, acabava de chegar.
No queria ter ficado na terra e viver como a Adelina, entre a 
mercearia, o quintal e a rua. Jurava que no. No lamentava nada. 
O Quim era uma lembrana perdida, morta, esquecida. No existia 
mais.
Se pensasse nele a nica coisa que sentia -
(o porteiro fardado segurava a porta do carro, de onde um homem e 
uma mulher saam. A mulher avanou alguns passos na direco do 
hotel, enquanto um empregado retirava as malas e um outro as 
colocava num carrinho com rodas. O homem fechou o carro e em dois 
passos rpidos alcanou a mulher na entrada.

102


Quando bateu o porta-bagagens, ouviu-se um pequeno estalido de 
metal).
Se pensasse nele o que sentia era raiva. Quanto mais ele teimasse 
em dormir com ela, mais ela devia ter-se mostrado esquiva. 
Percebeu depois. Homem, s depois de papel passado, era o que 
devia ter-lhe dito. E por isso ele fora ter com a Adelina, que 
era to sonsinha e to guardada. E ia receber uma bela mercearia 
por dote ou por herana, enquanto ela no ia receber coisa 
nenhuma.
Mas tambm tinham sido, de certeza, histrias da me dele e da 
madrinha. Que isto mes quando se metiam era s para dar cabo da 
vida da gente. Porque a me dele fazia muito gosto no casamento 
dele com a Adelina.
E a maldita madrinha percebera a histria das pedrinhas na janela 
e batera-lhe com o guarda-chuva at lho partir na cabea. 
(Algures, algures no mundo ainda deviam existir os pedaos desse 
guarda-chuva.)
Ah, por tudo isso, ainda havia de pedir-lhe contas um dia - um 
dia em que havia de voltar  terra, num carro reluzente, com um 
casaco de peles e colares e pulseiras de ouro. E havia de 
devolver o relgio  Palmira, como se fosse lixo que lhe atirasse 
 cara.
Escreveu-lhe nessa noite, ao voltar do Xipamanine. (Ao passar, 
uma mulher velha, acocorada numa esteira, estendera-lhe uma 
bonequinha de madeira, do tamanho de um dedo. Compra pra ela, 
disse-lhe. Pra ter filhos.) Mas no lhe contou esse incidente. 
Falou-lhe do mato, das machambas, dos pomares de citrinos, dos 
terrenos pantanosos, das caadas que fazia.
E prometeu que a levaria s vezes a jantar fora, tinha um amigo 
dono de um restaurante, a mulher dele  que cozinhava, frango com 
piri-piri, que tambm se chamava  cafreal. Estava sempre cheio, 
ao domingo ento era um ver se te avias, nem davam vencimento a 
tanta freguesia. Mas para os amigos sempre se arranjava uma mesa.
Defendia-se  toa, tentando correr, com as mos e os braos a 
tapar a cara, mas ela batia-lhe com mais fora, zurzia-a com o 
guarda-chuva como se fosse um pau de marmeleiro - ouvia um zunido 
antes da dor, em volta da cabea, dentro dos ouvidos que deitavam 
sangue, enquanto ela caa e o guarda-chuva em pedaos voava pelos 
ares - algures, algures no mundo,

103


deveriam existir ainda os pedaos desse guarda-chuva.
E como a me, diziam a Marta e a Rosa, a lavar no tanque. 
Est-lhe no sangue.
E a Alice assentia, batendo a roupa: Igualzinha  me. Sem tirar 
nem pr.
A madrinha fazia agora um barco de papel e metia-a l dentro 
(agora que ests desonrada nenhum homem te vai querer, rapariga). 
Ela era pequena como um soldado de chumbo, o barco estava molhado 
e vogava, aos tropees, na sargeta.
Pedia-se uma migalha e Deus, se queria, dava muito. Assim faziam 
os negros, assim fazia ele tambm. Imitava-os porque os negros 
sabiam fazer as coisas: Pedia  vida um pouco de felicidade, do 
tamanho de uma perna de formiga, e a vida lhe dava, lhe daria 
muito.

Tudo parecia correr-lhe de outro modo, desde que trazia aquele 
retrato de mulher na carteira.
Saiu  noite com os amigos com quem andava sempre, o Relito 
Matunga, o Tito Umbina, o Jamal Uamusse e o Andr Naene. Nem 
sempre iam aos bares da Arajo, que achavam bons para burgueses e 
turistas. Iam a outros lados, danar as verdadeiras marrabentas. 
Mas nessa noite, que para ele era j quase uma despedida de 
solteiro, tinham ido mesmo  Arajo.
Rua do Pecado, cantaram alto, s quatro da manh, cambaleando 
abraados no passeio.
A passagem do tempo. Como um fio puxado, uma agulha correndo. Ms 
aps ms, ano aps ano, domingo aps domingo.
Suspirou, na casa vazia, entrou na cozinha, deitou gua a ferver 
sobre o caf que lhe vinham entregar a casa (marcava o 4164 e 
encomendava pelo telefone, com o prazer, sempre renovado, de ser 
prontamente servido).
Sem se dar conta, a vida fugia. Parecia impossvel, mas tinham 
passado vrios anos.
Quando abriu o envelope e olhou o retrato soube que seria aquela 
a escolhida, por muitas mulheres que lhe escrevessem cartas.

104


Linda de morrer, pensou. Os olhos grandes, brilhantes, que ele 
gostaria de ver ao natural, ou num retrato a cores, o cabelo 
ondulado, preso com um gancho de um dos lados, o ar to sereno, 
com aquela blusinha branca que tinha uma renda na gola. S o 
sorriso lhe pareceu um pouco triste.
Vrios anos, mas nada acontecia. Nunca, nunca. Ela entendia o mal 
do Licnio, aquela histria da filoxera, daquela coisa que lhe 
dava e o punha a correr estrada fora, no meio do calor e da 
poeira. No gostava dele, mas entendia o seu mal.
Leitor, o mal existe e a soluo para a sua cura est to perto 
que no se v ou o prprio mal no deixa. Um problema que para 
muitos  um problema  resolvido com uma simples consulta com 
Mamana Mura, Grandiosa Astrloga, Curandeira Internacionalmente. 
Fao-te saber a origem dos teus fracassos, passado, presente e 
futuro. Problemas de amor, inveja, mau olhado.  segunda-feira 
faz-se limpeza de aura.  considerada uma das melhores 
Astrlogas. O pagamento  feito depois do resultado. D consultas 
pessoalmente e  distncia.
Cavalheiro portugus, residente em Sidney, com carro, casa 
prpria, indstria florescente, deseja conhecer senhora 28-38 
anos para convvio por carta, podendo levar a futuro compromisso. 
Bob Pereira, CP..., Sidney.
Receba os brindes do caf Cazumbi. Sofre do estmago? Experimente 
o famoso ch Ogard.  venda no Centro Ervanrio de Moambique.
Onde ficava Sidney? Pousou o jornal e esqueceu o nome, mas ele 
voltou-lhe  cabea nessa noite, porque se tinha esquecido de 
tomar a tisana habitual para dormir.
Procurou-o no globo de Gita, depois de acender o interruptor, o 
dedo indicador percorrendo a superfcie iluminada. Acabou por 
ach-lo - na Austrlia, meu Deus, ficava na Austrlia. Uma terra 
imensa, depois de uma distncia que parecia poder-se fazer em 
linha recta. Mas havia o mar no caminho.
Suspirou, apoiando melhor o globo no tampo muito estreito da 
mquina de costura. Tudo era sempre to longe, quando o mar se 
metia pelo meio.

105



A Austrlia era um lugar onde havia cangurus, era tudo o que 
sabia. Se lhe escrevesse - mas  claro que no ia escrever, 
escrever a algum, para qu ? - se lhe escrevesse, seria a 
perguntar se tambm havia cangurus em Sidney.
Bob Pereira respondeu que no (ela tinha acabado por escrever, 
afinal), mandou um postal ilustrado de Sidney e outro, tambm a 
cores, com um canguru apanhado em flagrante no salto. Um salto 
quase do tamanho da rvore que se via ao lado, ou pelo menos 
assim parecia, as patas da frente muito pequenas, as orelhas 
espetadas na cabea, um focinho afilado como o de uma cabra do 
mato - assim, pelo menos, parecia.
E Sidney parecia-se com qu? Com a Cidade do Cabo, decidiu, a 
cidade dos arranha-cus que no tinha chegado a ver.
Guardou ambos os postais na gaveta e esqueceu-os. Porque era como 
se no fossem verdade, e nunca os tivesse recebido.
Embora fosse curiosa, aquela experincia de ir buscar as cartas  
posta-restante, como se no se tratasse dela mesma e tivesse de 
repente saltado para a vida de algum diferente.
E, porque gostava de segredos e tinha prazer em mentir, tambm a 
Bob Pereira mentia. Ele nunca saberia o seu verdadeiro endereo, 
nem o verdadeiro nome. Assinava Patrcia Hart, como se fosse 
outra pessoa a escrever, e ela apenas servisse de intermediria, 
levantando correspondncia que no lhe pertencia.
Entrava nos Correios assustada, com a sensao de que procurar a 
posta-restante tinha qualquer coisa de vergonhoso ou de ilcito. 
Passava alis longo tempo antes de se decidir a entrar, olhava 
primeiro do passeio em frente o edifcio pintado de azul, como se 
o seu ar repousado e simtrico a pudesse tranquilizar, ou como se 
quisesse aprender de cor os degraus de pedra, os arcos redondos, 
debruados com frisos brancos, o rendilhado da varanda mais acima.
Hesitava antes de ganhar coragem finalmente, atravessar a rua e 
subir os degraus, com o corao a bater.
L dentro era um local espaoso e brilhante, sustentado por 
colunas. Do tecto de vidro, ao centro, a luz caa a jorros e a 
toda a volta do piso superior uma grade de ferro forjado, pintada 
de branco, repetia o mesmo motivo geomtrico, que lembrava um 
leque todo aberto, ou uma cauda de pavo.

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Aos cantos, tambm no piso superior, por detrs do parapeito, 
havia vasos com plantas verdes.
No conseguira ver todas essas coisas seno aos poucos, carta 
aps carta, enquanto esperava na bicha, diante do guichet. De 
cada vez desejando que no fosse a mesma empregada a atend-la; 
mas as coisas no se passavam  medida do seu desejo quase nunca, 
embora ela se esforasse por vir num horrio varivel, em dias 
diferentes da semana.
Porque era habitualmente a mesma mulher mulata que lhe estendia a 
carta, olhando-a um momento por detrs dos culos e conferindo 
com o bilhete de identidade o nome do endereo: Miss Patrcia 
Hart. E na linha de baixo, em letra em geral mais pequena: Care 
of Amlia S. Marcelino Captulo.
Da primeira vez fora complicado, porque a mulher dissera que s 
entregava  prpria, Patrcia Hart. Ela no pode vir, explicou. 
Tinha sofrido - um acidente. Estava doente, muito doente mesmo. 
Por pouco no tinha morrido. Um acidente - de automvel. Era 
isso. Mas ali estava ela, a outra, Amlia S. (que queria dizer 
dos Santos) Marcelino Captulo, igual ao nome e ao retrato do B. 
I. e em pessoa. Afinal no era exactamente o que o envelope 
dizia?
A mulher hesitou, virou a carta como se procurasse outro indcio, 
assentou melhor a haste dos culos em torno das orelhas, levantou 
os olhos para ela um momento em silncio, inquisidora.
Finalmente encolheu os ombros e estendeu-lhe o sobrescrito. Tinha 
o verniz das unhas estalado, reparou.
Ser a mesma empregada facilitava por um lado as coisas, porque 
no teria de explicar mais nada, pensou saindo a porta e de novo 
descendo os degraus das arcadas (que agora contava, pela primeira 
vez, e eram cinco). Mas s vezes a empregada esboava um sorriso 
quase familiar e perguntava, entregando a carta e conferindo 
inutilmente o nome dela, como estava Patrcia Hart.
Vai um pouco melhor, obrigada, respondia recolhendo o bilhete de 
identidade e voltando-lhe depressa as costas. Meu Deus, que 
hbito horrvel tinham as pessoas vulgares de meter conversa, 
toda a gente falava com toda a gente, como se contar a vida fosse 
natural.
Sentava-se depois no Continental ou no Scala ou, se calhava 
apanhar um machimbombo sem esperar muito, tambm no Caf Domin. 
Tomava ch com leite ou com limo enquanto lia a carta, folheava 
depois, com vagar, uma revista de moda,

107


escolhendo os vestidos que mandaria fazer num atelier de alta 
costura. Se fosse Patrcia Hart.
A passagem do tempo. Como um fio puxado, ano aps anos, dia aps 
dia, domingo aps domingo.
Quando agora olhava fotografias antigas, era quase como se fossem 
outras pessoas. (O casamento por procurao, com o tio Alfredo a 
servir de noivo, porque o anncio tinha vindo a embrulhar os seus 
sapatos. Tinham rido todos e bebido champanhe. Ela bebera 
depressa outro copo, depois de esvaziar o primeiro.)
Como se fossem outras pessoas. Laureano, Gita, ela mesma. Havia 
coisas que se tornavam cada vez mais remotas, por exemplo aquele 
incidente das lies de dana, como ia longe, como ia longe - 
Gita ainda ontem pequena e de repente j em meio do liceu, meu 
Deus, como o tempo passava, se deixasse de usar o champ Palette 
teria j de certeza alguns cabelos brancos.
Porque domingo aps domingo, ms aps ms, havia quinze anos que 
chegara.
Comprou outra loo de barba, sapato novo e roupa nova, ps uma 
jarra com flores no quarto, uma garrafa de champanhe na geleira e 
uma quinda com fruta na cozinha.
Semana aps semana, contava no calendrio o tempo que faltava. 
Parecia-lhe andar to devagar - e agora, de repente, ali estava. 
Aquele dia. Olhou pela milsima vez o relgio. Eram horas de sair 
de casa, descer  Baixa, correr ao cais.
Havia muito movimento nas ruas, parecia-lhe que a cidade inteira 
acorrera ao cais, como se esperar o barco fosse ainda, como em 
tempos passados, uma espcie de feriado ou de domingo, uma festa 
de santo ou romaria.
A cidade alegrava-se e no sabia que ele ia esperar uma mulher, 
que eram j marido e mulher, sem nunca se terem visto, a cidade 
no sabia essas coisas, que mexiam com a gente e deixavam um n 
na garganta - quela hora,

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pensou andando de um lado para o outro no cais, olhando o relgio 
e limpando os culos que o calor, o suor, e a emoo turvavam, 
quela hora ela estaria em p, no deque, no barco que se 
aproximava -
Mas no queria chegar, no queria chegar. Quando o barco se 
comeou a aproximar fechou-se na casa de banho, pintando-se e 
tornando a pintar-se, no espelho.
Desde manh cedo que ela estaria no deque. Veria primeiro a Ponta 
Vermelha e as altas Torres, e depois, quando comeasse a pensar 
se o barco no se teria enganado no caminho, a cidade apareceria, 
de surpresa - porque era assim, vinha-se andando, andando, pelo 
mar adiante, at  vista da costa, passava-se uma ilha e outra 
ilha, at que surgia um risco negro no horizonte, que depois se 
tingia de verde e branco - mais adiante crescia o Planalto, 
comeavam a ver-se l em cima as casas, e outras ainda no sop, 
dir-se-iam povoaes muito pequenas, aldeias espalhadas, at que 
se dobrava a Ponta Vermelha e a cidade escondida aparecia, de 
surpresa -
Mas no queria chegar, no queria chegar.
Deixaria sair antes de si toda a gente, os pais de Orlanda, as 
freiras, os vizinhos de cabine, os passageiros desconhecidos, 
pensou fechada na casa de banho. Para ganhar tempo. Com a 
desculpa de se querer fazer bonita, diria depois. Pintando-se e 
tornando a pintar-se, no espelho.
E foi assim que no deu conta de chegar  vista da costa, de 
passar por uma ilha e outra ilha, no viu surgir nenhum risco no 
horizonte que depois se tingiria de verde e branco, no viu 
adiante levantar-se o Planalto e as altas Torres nem depois, ao 
dobrar a Ponta Vermelha, viu de repente aparecer a cidade branca.
S depois, quando o barco j tinha atracado h muito tempo e se 
tinha calado a bordo a confuso dos que saam, das vozes, dos 
gritos, do tropel dos passos, do arrastar pesado das bagagens, 
ele a viu, finalmente, ao cimo da escada, ao lado de uma pequena 
mala de poro.

109


3.


O primeiro amante era o sol, andando em volta do corpo 
deitado, lambendo-o com a sua lngua de lume, batendo-lhe ao de 
leve com a sua cauda, farejando-o com o seu focinho de luz - 
via-se isso atravs das plpebras, sem abrir os olhos, enquanto o 
corpo amolecia e se sentia mais forte o cheiro do vento - e agora 
o sol comeava a apoderar-se de todo o corpo, avanava sobre ele 
com ps cautelosos, como um animal bravio, e a gente 
entregava-se, rendida, e o sol entrava pela pele, pelos ouvidos, 
pelas narinas, pela boca, e havia finalmente o momento em que se 
abandonava de todo a resistncia e se afastavam tambm as pernas 
e se recebia o sol no meio do corpo - o sol, sim, o sol era o 
primeiro amante.
Ou o mar, o mar era o primeiro amante. Quando se ficava deitada 
na areia, quieta, quase sem respirar, tensa de expectativa, e ele 
subia desde longe, sem rudo, e rebentava de sbito sobre ns, 
inundando-nos com a sua baba de espuma.
Cair no amor  uma maneira certa de dizer, penso, deitada na 
praia, com a mo de Rodrigo sobre a minha. Estamos todos deitados 
na praia, Ditinha, Titita, Joana, Ramesh Kumar, Ibrahim e Zaida, 
Jussa, Roberto Crisntemo, Jlio, a quem chamvamos sempre Jlio, 
Joaquim Barata, Valentina Ueja, Joo Saiote, Micas Julai, 
Carolina Matimele, Nuno Varela, Tojo, Juvenal, Alberta, eu e 
Rodrigo. Estamos todos ainda juntos, nesse Vero. Cair no amor, 
penso outra vez. To fall in love.
Eh! Da pra fora! grita Jlio sentando-se bruscamente na toalha e 
atirando uma pedra a um co que mete o focinho dentro dos cestos 
onde trouxemos o almoo. Bicho danado, grita de novo, de braos 
no ar, correndo em direco a ele. Mas o co no se deixa 
afugentar, afasta-se apenas alguns passos e deita-se na areia, 
obstinado, expectante. Dois outros ces aproximam-se farejando, 
de orelhas cadas, estendem-se tambm, com o focinho sobre as 
patas, a uma distncia reverente do primeiro.

111


Jlio desiste de enxot-los, arrasta os sacos de praia e os 
cestos para mais perto do lugar onde ficamos. Eh, malta, berra 
para ns, voltando. Da prxima vez quem l no vai sou eu. 
Fiquem-me de olho alerta nesses companheiros.
Est calor, diz Joana levantando-se. Quem vem comigo at ao mar?
Ningum vai e ela afasta-se sozinha, um vulto pequeno, de fato de 
banho escuro, que agora corre l em baixo, entra depressa na 
gua, v-se apenas a cabea avanando  superfcie.
Vamos  bote logo  noite, diz Titita. Quem no for paga amanh 
uma bebida a toda a gente.
Danar, na bote, as luzes girando no tecto, enlouquecidas. De 
repente abria-se um cortinado ao fundo e o mar surgia, franjado 
de espuma. E as luzes percorriam a sala, derramavam-se, 
intermitentes, sobre os ombros. Sobre os quais a mo de um homem 
pousava.
Segurando o vestido s duas alas muito estreitas, que magoavam a 
pele, queimada do excesso de sol. Mas no se sentia a dor, s se 
dava conta da mo dele descendo ao longo das costas, percorrendo 
as vrtebras, do pescoo at  cintura. A outra mo na minha, 
tensa, ajustada. Tremendo s vezes um pouco. Mais longe os ps, 
na pista brilhante do soalho, quase coberto por outros pares que 
volteiam.
E havia aquela sensao de existir, de existir com fora, de 
viver um ponto alto da vida - queramos isso, um ponto alto, ou 
nada. Queramos estar l, e saber que estvamos, porque depois 
tudo poderia perder-se e no instante seguinte j nada ser o mesmo 
-- tudo podia passar, como os vestidos e as modas, e de repente 
acabar o Vero.
Tnhamos medo de que o mundo, ou a vida, acabassem. Porque tudo 
acontecia bruscamente, o cair da noite, o amadurecer dos frutos, 
a morte ou a partida das pessoas.  verdade que tnhamos medo. 
Embora o corpo cantasse que no era mortal. Mas havia, sim, havia 
por vezes nas coisas um anncio de morte. Uma parte de ns 
acabava de repente - a vida era uma rvore crescendo e, l onde 
os ramos se apartavam, havia um tempo que chegava ao fim.
Mas essa no era uma ideia triste, no cabia nenhuma tristeza em 
ns, naquela altura: havia uma onda que de sbito nos levava, nos 
expulsava dos corredores e dos ptios do liceu e nos empurrava 
at  praia, uma coisa que tomava conta de ns, como os ataques 
de filoxera do Licnio, ou algo ainda mais forte. Mas sem 
melancolia.

112


A vida aproximava-se, sentia-se chegar, numa passada leve, mas 
no era, de todo, assustadora. Compnhamos um gancho, ou o bton, 
no espelho, bebamos vinho gelado e sabamos que tambm a vida se 
bebia como um vinho, e embriagava. A vida passava por ns, 
sabia-se danando, olhando as luzes que se acendiam l fora, 
talvez de barcos, longe, no horizonte. A vida que trazia a 
certeza de outro amante, o verdadeiro. Porque um dia chegava o 
momento em que j no era o sol, nem o mar, mas era um homem o 
primeiro amante.
Sabia-se isso desde sempre, estava escrito no corpo, no sangue, 
na palma das mos. A gente penteava-se ao espelho e sabia: Tudo 
comeava muito tempo atrs.
Ainda alguns meses antes eu pensava: Terei dezassete anos este 
Vero.
Porque nesse momento ainda a nova estao vinha longe, ainda  
noite o ar estava fresco.
Mas j de repente o cu tinha mudado, a cidade tinha mudado, e as 
lojas se enfeitavam com roupas novas, expostas nas vitrinas, 
louas, rendas, vestidos, toalhas bordadas.
As casas, vejo ao passar, dia aps dia a caminho do liceu, tm 
janelas abertas - interrogo-me se sero quartos de dormir os que 
do para as varandas, onde por vezes se distinguem vultos. 
Imagino os amantes dentro de quartos de hotel, por detrs de 
cortinas corridas.
Vamos comer ou no? diz Ramesh pondo-se de p. Eu pelo menos 
estou a morrer de fome.
Tinhas de ser tu, diz Alberta, e h de repente uma gargalhada em 
volta, porque o gordo Ramesh tem sempre fome e gosta de contar 
aquela histria de descer s escuras  cozinha para fazer uma 
incurso na geleira, tropeando de cada vez no ralador de cocos: 
Sabe que ele est l, no mesmo lugar, o ralador de cocos, e jura 
a si mesmo evit-lo, mas quando se lembra j lhe deu um pontap e 
acordou toda a casa. O pai barafusta, l em cima, o irmo 
chama-lhe burro e camelo, ele d murros na parede e enfurece-se 
contra o maldito ralador, mas na noite seguinte tropea nele 
outra vez.
Este tipo  um perigo, em matria de almoo, ri Carolina correndo 
para os cestos.
Pior que marabunta, diz Roberto levantando-se depressa. Quem 
chegar depois no encontra nada.

113


Num instante ficam quase vazios os cestos e os sacos de praia. 
To pesados, quando os trouxemos no ferry -
O ferry, esta manh. Ns a correr, carregando as coisas, 
ofegantes, porque se o perdssemos teramos de esperar meia hora 
ou mais, e no queramos esperar. Entrmos de roldo, no ltimo 
momento.
No sei como , a malta nunca chega a horas, queixa-se Ditinha. 
Mas ningum a ouve, falamos cada vez mais alto e rimos com 
superioridade, como se o ferry nunca pudesse partir sem ns.
No h bancos, vamos encostados ao corrimo ou sentados em cabos 
e nos degraus da escada. Encheu completamente, em todo o lado h 
pessoas, a maioria em p, outros sentam-se no cho, em cima de 
caixotes, de baldes deborcados. Uma garrafa de cerveja 
entorna-se, o lquido corre ao nosso lado, num trao grosso, 
cheio de espuma.
Eh, algum urinou, diz Juvenal, porque o risco espumoso se 
assemelha a urina. Foi o Joaquim, o Nuno, o Tojo, gritamos e 
rimos mais alto, balanando uns contra os outros.
Um negrinho albino olha-nos com espanto, tem os olhos inflamados, 
as plpebras quase coladas, tingidas de vermelho.
Dois caadores saem do jeep e conversam c fora, encostados s 
portas, um deles est bbado e comea a insultar um homem que vai 
no carro, do outro lado outro caador tenta cal-lo, consegue 
finalmente, quase  fora. Dentro do jeep os ces impacientam-se, 
presos, assomam atrs das janelas, latindo.
Adiante pescadores desportivos saem tambm do carro, um deles 
acende uma cigarrilha, guarda o isqueiro e o tabaco no bolso da 
camisa. Gaivotas vo e vm, algumas afastam-se at ao cais, 
vem-se as asas bater, em contra-luz. Em baixo,  direita, h 
grandes navios atracados,  possvel ler daqui os seus nomes. Mas 
no lhes presto ateno,  a cidade que olho, at  Ponta 
Vermelha: o Girassol, as Torres, os telhados da Estao, a 
Catedral, prdios altos, gruas, armazns, o perfil branco, 
luminoso, das casas, e adiante o mar sem ondas, cor de chumbo.
No ferry de regresso, ao fim da tarde, haver mulheres que levam 
grandes baldes de camaro gigante para vender na cidade, mal 
esperam, impacientes, a atracagem, para logo correrem para fora, 
carregando os baldes, quem primeiro chegar, primeiro vende - o 
tropel da sada, os passos ressoando no cais.

114


Tambm agora h um tropel na sada, chegmos  Catembe e as 
pessoas apressam-se, no meio dos jeepes e dos carros, e o ferry 
fica rapidamente vazio. Ao lado, pequenos barcos ancorados 
balanam, num deles est escrito em letras grossas, pintadas de 
negro: Jana. Outro chama-se: Santa Cruz.
Na orla de areia amarelada h outros barcos, vistos daqui parecem 
alinhados, em grupos de dois e trs. Pescadores arrastam uma rede 
para fora de gua, deixam-na estendida na areia. Uma mulher passa 
por ns com um fardo s costas, preso na capulana, outra mais 
nova transporta lenha  cabea. Adiante outras mulheres vendem 
peixe, debaixo de micaias.
Est-se mais  vontade na Catembe do que na Costa do Sol, por 
isso  melhor para conversas e namoros, para deixar as coisas 
seguirem o seu rumo, formarem-se os pares que se tiverem de 
formar. O que no deixa de trazer sobressaltos e surpresas: todos 
vemos por exemplo que Ditinha deita os olhos ao Joaquim Barata, 
mas ainda no se sabe se ele tambm gosta de Ditinha ou prefere 
Titita. Aparentemente, olha igual para ambas. E para dizer a 
verdade tambm ainda no se percebeu ao certo se Carolina gosta 
do Tojo, ou se olha o Tojo para fingir que no d ateno ao 
Juvenal, quando na verdade  nele que pensa.
Tambm demorou tempo a todos ns a decifrar Rodrigo, se ele se 
queria ou no aproximar de mim. Eu dizia que no, Ditinha achava 
que sim, e Joana tinha a certeza. Mas eu ria e assegurava que ele 
olhava para mim s  toa, para me arreliar e mais nada. Porque os 
rapazes eram assim, gostavam de arreliar-nos. Como quando 
cantavam em coro, poucos anos atrs, na altura em que mudavam de 
voz e lhes saa da boca um som aflautado que parecia fala de 
mulher: Gita - Gita - Ests to bonita - e atiravam para o ar 
aqueles assobios prolongados quando eu passava, irritada com eles 
e no fundo rindo por dentro, porque tudo aquilo era a srio e no 
era. Mas fingia no ouvir, voltava para o lado a cabea e fazia 
saltar nas costas o rabo de cavalo.
E amanh era Ditinha - Dita - Dita - Ests to bonita - e era a 
vez de ela se enfurecer com eles - e depois ambas nos voltvamos 
para trs e gritvamos: Assobiem mais, ora essa. Julgam que a 
gente se rala.
Mas nessa altura Rodrigo ainda no estava l. Rodrigo era 
diferente. Ou parecia-nos, porque no pertencia ao grupo desde 
sempre. Tinha vindo da Beira, no fim do ano passado,

115


comeou a andar connosco, porque tinha ficado na mesma turma, mas 
no parecia querer realmente aproximar-se.
Chegava em geral tarde, quando j se ouvia tocar a campainha, 
entrava quase a correr na sala de aula, sentava-se na ltima fila 
de carteiras. Ouvamo-lo falar para o lado, s vezes rir 
brevemente, fazer um comentrio irnico ou trocista a propsito 
de qualquer coisa, para logo regressar ao seu ar distante. Que de 
algum modo nos intrigava. Talvez ele fosse para ns, ou para mim, 
antes de tudo um enigma. No sabamos o que estava por detrs dos 
seus olhos claros, do sorriso que mal aflorava, dos lbios que 
escondiam depressa os dentes brancos quando por acaso pedia a 
algum um caderno.
Emprestas-me os apontamentos? perguntou-me uma vez, no fim da 
primeira aula. Mas quando lhe ia dizer qualquer coisa ele agarrou 
no caderno e desapareceu, agradecendo com um leve aceno. Para 
depois me seguir na rua, como se no tivesse tido oportunidade de 
falar-me durante a manh inteira. Porque tambm nos intervalos 
desaparecia a correr no grupo que a todo o momento jogava 
futebol, como se as manhs fossem um nico jogo continuado, que 
desgraadamente as aulas a cada passo interrompessem.
Tambm depois no veio falar-me para devolver o caderno. Quando 
cheguei ao meu lugar, depois do segundo intervalo, encontrei-o em 
cima da carteira, com um bilhetinho rabiscado em metade de uma 
folha, presa com um clip no ngulo direito: Obrigado.
No tinha, pois, nada a dizer-me. Mas no tirava os olhos de mim 
toda a manh. Estava sentada a meio da sala e via-o a olhar-me, 
sempre que voltava a cabea. Eu encontrava,  claro, mais razes 
do que as plausveis para voltar a cabea - - falar com a Zaida, 
ou com a Micas Julai, sentadas na fila atrs da minha, compor o 
travesso, apanhar um lpis que deixava cair de propsito, 
verificar se a ltima janela tinha ficado aberta.
Est vento, queixa-se Joana. Tinha de estar vento, logo hoje.
Qual vento, menina, diz Alberta. No h vento nenhum. O mais que 
pode acontecer  vir chuvada grossa. Olha ali aquela nuvem no 
cu.
Se falarem no mal ele acontece, diz Nuno. No digam coisas de mau 
agouro.
Vi hoje um pangolim, diz Juvenal com voz de choro.

116


Estpido, rimos todos. E o Tojo repete, num assobio: 
Estpido!
Caminhamos perto de casas de pescadores - so de madeira, 
construdas sobre estacas, porque antigamente o terreno se 
alagava. Esto pintadas de vrias cores, predomina o azul, o 
branco, e um rosa avermelhado, a pintura comea junto ao cho, 
mistura-se com o p do caminho. Algumas tm uma espcie de 
alpendre ou de sacada, porque uma parte do telhado avana, tambm 
seguro por estacas. Na areia, e por cima de muros, h redes 
estendidas, a secar ao sol.
Um barco a remos est voltado, ao lado de outro com motor fora de 
borda. Sentados no cho, pescadores consertam redes, movendo 
rapidamente as navetes. Adiante h bananeiras e papaeiras 
dispersas, e uma fila de palhotas de pau a pique e cambaia. Uma 
delas tem o letreiro: Sapataria da Janela Aberta.
As ondas batem, mais alm, no paredo - o ndico pardo, cinzento 
trreo, azulado ao longe. Uma seta indica: Ponta do Ouro 117 km.
Avanamos pelo caminho de areia e p, voltando as costas s casas 
sobre estacas.
Foi dessa vez ou de outra que desatou a chover de repente e 
tivemos de fugir,  procura de abrigo?
Creio que foi de outra vez que isso aconteceu - separmo-nos uns 
dos outros, correndo, e a certa altura encontrei-me com Roberto 
num corredor de canio, depois do qual havia palhotas espalhadas. 
Um menino de uns sete anos estava no vo da porta de uma delas, a 
olhar para ns e para a chuva.
Podemos entrar? perguntou Roberto. Ele no respondeu, mas 
afastou-se para nos dar passagem.
Entrmos, encharcados, com o cabelo a escorrer.
A chuva caa cada vez com mais fora, estralejava no canio como 
areia peneirada. Gotas grossas entravam pela parte de cima, onde 
havia um espao aberto, logo abaixo do tecto, desciam em fios 
brilhantes pela parede onde se acumulavam peas de roupa 
penduradas em pregos, ao lado de recortes de jornais e de 
revistas e de uma folha a cores de um calendrio.
Esta parte  o quarto de dormir, penso, sentada no cho (estamos, 
os
trs, sentados sobre a esteira). A um canto h uma mquina de 
costura
- incrvel como at uma mquina de costura cabe neste espao

117


do tamanho de um leno, dividido em dois por um pano suspenso de 
uma corda, que faz as vezes de cortina. Do outro lado, sei mesmo 
sem ver, fica a cozinha: ter mesa, fogo, baldes, bacias de 
plstico e, penduradas nas paredes, caarolas e frigideiras 
penduradas pelo cabo.
Mas  l fora que se faz a comida, no fogo aceso debaixo de 
panelas de ferro de trs ps, com uma asa no testo. L fora, sei 
ainda, h de onde em onde uma mancha verde de batata doce 
plantada. E de um lado e do outro das portas crescem por vezes, 
inesperadamente, canteiros tortos, traados com pacincia, pedra 
atrs de pedra.
Como  o teu nome? pergunta Roberto.
Henrique, diz o menino. E sorri.
Talvez haja, por cima da palhota, um pano ou um plstico, seguro 
com pedras nos cantos. No reparei ao entrar, mas pelo barulho da 
chuva parece-me possvel - olhamo-la, hipnotizados, caindo com 
fora, diante do vo da porta onde apenas h uma cortina de 
sementes, no lugar onde por vezes se encontra uma prancha de 
madeira, pintada de vermelho ou de azul.
A um canto, no cho, caiu uma lanterna feita de uma lata 
achatada, com fendas dos lados e um coto de vela no meio. Em cima 
de um banco o xipefo cheira ainda a petrleo, mas est 
provavelmente vazio.
Por vezes os xipefos tombam, acesos, enquanto as pessoas dormem, 
e as palhotas ardem - a imagem  demasiado horrvel e fecho os 
olhos para no a ver.
Podemos ir procurar os outros, diz a voz de Roberto. (A chuva 
parou, o sol brilha de novo, de repente.)
Obrigado pelo abrigo, Henrique, dizemos dando-lhe as poucas 
moedas que trazemos.
No sei se foi dessa vez que Roberto disse, enquanto nos 
afastvamos:
Um dia a cidade de canio vai engolir a de cimento. Esse menino 
ainda no sabe. Mas espera.
No sei se isso foi dito acerca de Henrique, ou se a criana era 
outra. Talvez fosse, de facto, noutra ocasio. Roberto era h 
muito tempo o meu melhor amigo, desde a escola que andvamos a 
par. Tnhamos conversas interminveis e estvamos de acordo em 
quase tudo. Se eu pensar nesse tempo,  a ele que vejo, ao lado 
de Rodrigo. Cada um a seu modo, ambos eram o centro desse mundo.
118


Roberto tem uma namorada. Uma flor, uma xiluva, que nunca vi e de 
que no sei o nome, porque ela no anda connosco no liceu, nem 
sequer chegou a acabar a escola. Mas  s nela que pensa e s 
nela que fala e  com ela que vai casar, quando chegar a altura. 
Uma menina linda, um doce, uma xiluva, diz.
s vezes penso que, se no me apaixono por Roberto, e ele por 
mim, no  tanto por causa de Rodrigo, como por causa dessa 
menina, que lhe preenche o mundo.
Se bem que os olhos de Rodrigo me enlouqueam, e os olhos de 
Roberto, brilhando na pele negra, por detrs dos culos de lentes 
grossas, paream mais distantes e mais frios. Mais inteligentes 
tambm. O que os torna, outra vez, mais sedutores.
Os olhos de Rodrigo so azuis. Ou verdes? nunca sei, porque mudam 
com a luz.  talvez essa incerteza que me faz olh-los tanto - 
inquietam-me, intrigam-me, porque nunca so iguais a si prprios. 
Apetece-me sempre olh-los outra vez, para me certificar de que 
no me enganei e so azuis. Ou de que me enganei afinal, porque 
na realidade so verdes. E de cada vez me sinto insegura - 
pode-se confiar em algum de quem nunca se sabe a cor dos olhos?
Nessa altura a matemtica e a filosofia estavam mortas.
O liceu era cheio de janelas, estendia-se ao longo do rs-do-cho 
e de mais dois pisos; os vrios corpos estavam unidos por uma 
espcie de galerias, abertas dos lados e cobertas por cima, 
abrigando do sol e da chuva. Passado o porto, no largo de terra 
avermelhada em frente, havia arbustos arredondados e quatro 
grandes rvores, uma em cada canto. Quando chegvamos  porta 
principal, depois de atravessar esse espao, as sandlias ou, se 
fosse Inverno, os sapatos, estavam cobertos de p.
Nesse ano tnhamos aulas no ltimo piso, de onde nos 
precipitvamos a correr pela escada, quando tocava, finalmente, a 
campainha. (O tropel, as vozes, os gritos, os risos, as corridas 
pela escada onde a parede em frente tinha grandes superfcies de 
vidro, de patamar em patamar, at ao fundo.)
Mas na ltima aula o tempo no passava. Eu olhava o relgio e 
tornava a olh-lo, encostava-o disfaradamente ao ouvido, 
verificando se o tic-tac era audvel, olhava em desespero a 
janela. L fora havia a rua, as flores espreitando sobre os 
muros, as accias vermelhas. Mas do lugar onde estava sentada,

119


quando olhava atravs da janela, tudo o que conseguia alcanar 
era um pedao de cu. Nem por isso muito azul, o nosso cu 
instvel, facilmente inundado de nuvens -
Rosrio s tem vinte e dois anos, no  muito mais velha do que 
eu.
Tens namorado? pergunto-lhe. Ela rompe em gargalhadas, como se 
fosse partir-se: Yyyyy.
Entretanto,  da irm que vai falando: Ele lobolou ela. E pouco 
tempo depois anuncia: Ela vai nascer filho. E desata a rir outra 
vez.
 sempre assim, por tudo e por nada ela ri e a quase tudo 
responde: Yyyyy. O que  uma forma alegre de dizer que sim. 
Parecida s vezes com um xirico a cantar.
Mas outras vezes enerva-me, com o seu riso  toa, que surge a 
propsito e a despropsito de tudo - um riso fininho, depois 
grosso. Rebolando as ancas como se troasse de ns.
No entanto  por isso que Laureano gosta dela. Porque h falta de 
riso, em nossa casa. Quanto ao mais, a roupa nunca est lavada, 
nem a casa limpa, nem o jantar feito. E quando se passam os dedos 
sobre a mesa, fica um risco marcado, no lugar do p. Nunca tinhas 
trabalhado antes? perguntei-lhe no incio, alguns meses atrs.
Ela respondeu: yyyyyy. Mas no mostrou a menor vontade de 
aprender o que quer que fosse.
s uma autntica desgraa, suspiro, e ela rompe outra vez em 
gargalhadas, como se lhe tivesse feito um elogio.
Podamos ter um cozinheiro, digo a Laureano. Como toda a gente.
Ele concorda, mas deixa sempre tudo como est. Ento tambm eu 
no me ralo - tanto pior se a casa andar suja e em desordem, 
Rosrio far como bem quiser. Por mim, tenho muito mais em que 
pensar.
Embora, na verdade, muita coisa me enfurea - por exemplo, que 
Rosrio se ponha  janela a ver quem passa e deixe aparentemente 
o trabalho para mim. E o rdio, h tambm o rdio, que ela tem o 
dia inteiro ligado, muito alto, na cozinha - digo-lhe que baixe o 
som, ela responde como sempre yyyyy, mas um minuto depois 
est de novo altssimo, como se eu no existisse. E s vezes amua 
e tem maus modos, como se tudo o que faz fosse um favor.

120


O caminho do liceu  ladeado de rvores - viajo, no machimbombo, 
quase de um lado ao outro da cidade, mas agora, no fim das aulas, 
prefiro andar a p a distncia de uma ou duas paragens, s pelo 
gosto de caminhar um pouco debaixo das rvores, no passeio largo 
da rua. Vendo o qu? Vivendas, telhados, janelas, flores 
espreitando por cima de muros, folhas largas de bananeiras 
abanando devagar - h quase sempre ao menos uma que se mantm 
inteira, enquanto as outras o vento rasga, e vo ficando 
franjadas.
Caminho na rua pelo prazer de andar - e porque algum me segue. 
Porque, mesmo sem voltar a cabea, sinto passos que vm no 
encalo dos meus - e contudo no se apressam, antes aqui e ali se 
detm ou afrouxam, como se no quisessem alcanar-me. Como se no 
quisessem trair-se - avanar e tornar-se visvel seria sentido 
como uma traio a si mesmo?
Ele segue-me, portanto. Rodrigo. Protegido pela distncia, pela 
curta distncia de dois ou trs passos. Esperando talvez um gesto 
meu - esperando que eu d um sinal, que mostre que dei pela sua 
presena e volte uma vez a cabea. Mas no voltarei a cabea, 
porque tenho medo de que ele ria de mim se eu olhar, continuo em 
frente, no meio das rvores, vendo as manchas de sol no passeio 
e, como um animal, sorvendo o vento. Um animal solto num campo, 
contente de estar vivo, de mover o corpo no sol e na luz, 
sentindo o cheiro do Vero.
Mas poderia ser simples: ele caminharia a meu lado, diria ol, e 
a seguir uma palavra qualquer. E eu sorriria, diria tambm ol, e 
a seguir uma palavra qualquer.
Ou poderia vir ter comigo a este lugar onde agora estou, debaixo 
das mafurreiras, no pequeno largo em frente do liceu, onde h uma 
fonte de pedra, redonda, no meio da terra vermelha. Poderia 
sentar-se a meu lado nos degraus que vo ter ao caminho que desce 
at  marginal -
Mas talvez tambm para eles no seja fcil, talvez tambm eles 
sejam inseguros, penso olhando-os e tentando entender por que 
razo brigam e discutem, e s vezes precisam de desafiar-se uns 
aos outros, Roberto e Joo Saiote, Tojo, Joaquim, Juvenal, 
Ibrahim e Ramesh. Riem alto porque tm medo, escondem os 
sentimentos como se fossem vergonhosos, mascaram a timidez com 
orgulho.

121


Tambm eles se preparam, penso. Como ns. Acabou a infncia, 
dizem ao rapaz negro, no momento da circunciso, enquanto ele 
chora pela dor da ferida. Agora ele recebe um outro nome e no 
pode olhar para trs, quando as chamas sobem alto e queimam o 
acampamento onde ele morreu para nascer de novo. E no regresso  
aldeia a me descobre-lhe os ps, primeiro o direito, depois o 
esquerdo, para mostrar que ele j pode caminhar na vida como 
adulto. Antes no podia, porque na infncia os ps no vo longe, 
esto enrolados, amarrados no capim, espetados com espinhos de 
micaia.
E as raparigas negras so ungidas com leos de plantas, 
enfeitam-se com colares, brincos e pulseiras, e penteiam-se de 
outro modo, quando sangram pela primeira vez.
Menina, ontem no existias, eras s um pequeno animal vivo, 
dizem-lhes cantando e danando. Ontem no existias, no eras uma 
pessoa, ontem eras uma pedra. Mas agora s uma mulher, 
encontraste o teu lugar no meio do povo. E o chefe deita farinha 
na cabea inclinada da rapariga, e ela ganha outro nome, porque 
morreu e tornou a nascer. E pode chamar-se Ramo Verde, 
Desejada, No Ests Sozinha, Atraente no Namoro. Porque 
agora ela  outra. Ela, a iniciada, a que descobriu os enigmas e 
soube prestar ateno aos sonhos.
Costumes antigos, que se mantm entre alguns, leio num livro.
Mas a verdadeira iniciao  o encontro com o sexo oposto, 
ocorre-me. Porque s ento se conhece tambm o nosso.
O corpo  o lugar desse saber, penso ainda, andando na rua. Do 
nico saber que interessa -  o tempo da dana que inaugura os 
ritos, os rituais de passagem, diz Roberto. E ento eu ouo, pela 
primeira vez nessa noite, a msica que uma banda antiquada, quase 
decrpita, tinha estado a tocar, havia vrias horas, no coreto - 
rias velhas, distantes, que se perdiam nos ouvidos, e s de 
repente, a espaos, se escutavam. ( uma noite de festa, 
passeamos debaixo das rvores, no jardim.)
Eu pensava em Rodrigo e pensar nele era como se repetisse o seu 
nome (Rodriiiiiiiiiigooooo!), chamava-o, mesmo que ele no 
ouvisse, e ainda no instante em que adormecia repetia o seu nome 
em desespero.

122


E um dia, como se respondesse a um apelo, ele abeirou-se de mim 
de outro modo, de repente dei conta de que tinha transposto a 
distncia que nos separava e caminhava h muito tempo a meu lado, 
tnhamos descido j quase toda a rua, debaixo das accias.
Ver o mar, diz a meia voz, quase interrogando.
Aceno que sim, segurando com fora os cadernos, com o corao a 
bater.
Ver o mar, repito, como se a frase traduzisse uma evidncia, ou 
de algum modo me tranquilizasse o facto de termos, aparentemente, 
um objectivo.
Mas  a mim que ele olha, e  a ele que eu olho, e ao seu olhar 
oblquo que desce sobre os meus ombros, desliza at  cintura, 
mergulha no decote redondo do vestido.
No sei o que dizemos, talvez no digamos mais nada. Dobrmos j 
a esquina e seguimos por outra rua, e  medida que avanamos 
sinto que vou perdendo a solidez e a fora. Fico contente quando 
um machimbombo pra e entramos - no vi sequer o destino escrito 
no letreiro, penso depois. Estamos sentados lado a lado num 
banco, e atravs dos vidros as accias vo ficando para trs.
Descemos finalmente, est calor mas uma brisa sopra, atravessamos 
ruas barulhentas, com portas entreabertas para dentro de casas 
escuras onde se ouvem gritos de crianas e vozes ralhando, 
cruzamos soleiras de lojas com mercadorias expostas, louas, 
tapetes, bilhetes postais, cadeiras de bambu e sacos empilhados, 
depois as pessoas desaparecem e h portas quebradas, quintais 
abandonados que se transformaram em local de despejo de trastes 
velhos, caixotes, mveis partidos, peas de sucata, passamos o 
local dos armazns e encontramos gruas, guindastes, wagons, 
barcos parados ao longo do cais.
Diante de ns h navios atracados, os cascos verde-negros deixam 
a descoberto as ncoras mordidas de ferrugem. E quando finalmente 
paramos e ele comea a beijar-me sinto que perdi completamente a 
resistncia: no precisa de usar qualquer persuaso, para me 
segurar contra a parede bastaria a fora da brisa.  o desejo de 
mim que o faz violento, penso, e quase sinto orgulho na pressa 
com que a sua boca me sufoca, na urgncia da sua mo que desce 
at ao decote da blusa, lutando com os botes como se os 
arrancasse, no seu corpo que endurece, abrindo caminho entre as 
coxas, por cima do vestido.

123


No deveria existir o vestido, sinto, mas no quero ajud-lo a 
soltar os botes da blusa, porque os meus braos se fecharam 
sobre o seu corpo e as minhas mos lhe prendem a cabea, sobre a 
nuca. (Agora, sinto, nada mais existe.)
Essa passou a ser para ns uma ideia fixa, que com o tempo se 
tornou quase obsessiva: encontrar um lugar onde ficar ss. 
Despidos e ss, sem mais ningum em volta. Um lugar onde, s 
nosso, que no era o lugar onde da gramtica, nem o lugar comum 
de toda a gente.
No, no nos bastavam j, por essa altura, as esplanadas dos 
cafs nem as salas dos cinemas. Embora ao domingo fssemos quase 
sempre  matine. Recordo-me do Scala por dentro: atravessamos o 
trio de paredes vermelhas e cho de mrmore branco com uma risca 
de mrmore preto em esquadria, que na escada para o balco se 
transforma numa faixa larga, imitando uma passadeira no meio dos 
degraus. No  por a que vamos, compramos bilhetes de plateia e 
avanamos pacientemente, de mos dadas, envolvidos pela fila das 
pessoas que s vezes nos empurram, forando-nos quase a soltar as 
mos. Sentamo-nos finalmente na ltima fila das cadeiras forradas 
de veludo azul, bem de frente para a boca de cena onde h uma 
moldura dourada a contornar o cran.
 um estilo que tem qualquer coisa de arte nova, diz Rodrigo 
indicando-me as lmpadas de non, de vidro branco, em forma de 
folha de papel dobrada, e os grandes rectngulos com estrias 
geomtricas, nas paredes pintadas de azul claro.
Mas no  pelo seu estilo que olhamos as lmpadas, desejamos 
apenas que se apaguem para nos sentirmos sozinhos, de mos dadas, 
s de vez em quando olhando o filme que no fundo nos interessa 
muito pouco, beijando-nos no escuro com a sensao de no sermos 
observados, porque a nossa fila  a ltima da sala e no h 
ningum sentado atrs de ns. (A sua mo nos meus joelhos, sobre 
o tecido leve do vestido.
A sua mo entre os meus joelhos, levantando o tecido leve do 
vestido) -
Esse foi tambm um tempo de conversas e de confidncias. Tempo de 
saber que a me dele morreu h vrios anos, de ver o seu retrato, 
sentada no jardim, com as mos cruzadas sobre uma saia de flores 
e um chapu de palha ensombrando o rosto.

124


Ainda nova e bonita, na fotografia. Ainda no morta.
Tempo de saber que o pai gritava: Vais ouvir. Vais ouvir.
Cada palavra era como se pegasse num escopro e a martelasse para 
dentro da cabea da me, que tapava os ouvidos e gritava mais 
alto para no ouvir. E o pai batia o p e continuava a 
martelar-lhe as palavras para dentro dos ouvidos, cada uma com 
mais fora que a anterior, como se quisesse faz-los rebentar.
Cada palavra era uma pedra. E a cabea da me comeava a sangrar, 
acima das sobrancelhas ou no meio da testa. O sangue corria, de 
dentro dos ouvidos.
No sei se foi assim que ele contou, mas foi pelo menos assim que 
imaginei o duelo dos pais sobre a mesa de jantar: o pai atira uma 
faca at  boca da me, acerta no lbio que comea a deitar 
sangue, atira outra faca mais afiada at ao ombro, um garfo a 
cada um dos olhos, e dessa vez no acerta. E a me deita um prato 
contra a parede, e ambos arremessam copos  cabea um do outro, 
copos de gua e de vinho e os clices de licor. Rodrigo  ento 
muito pequeno e procura no dar ateno porque todas as refeies 
se repetem. Quando a me chora mais alto o pai aumenta o som do 
rdio para no alertar os vizinhos. E a prxima refeio ser 
igual.
Foi pela sua boca que fiquei a saber. Mesmo que ele no tenha 
contado deste modo. E tambm eu contei a partida de Amlia, trs 
anos antes. Embora me fosse difcil falar disso, porque ela tinha 
deixado de ser uma imagem ntida. Era um vulto em fuga, que 
depois no podia voltar atrs.
Quase no levou nada, alm de alguma roupa, disse-lhe. Fui eu que 
esvaziei os armrios e as gavetas, primeiro deitei tudo de roldo 
para dentro de sacos, sem escolher nem olhar, depois arrumei 
melhor, li cartas e papis, encontrei fotografias. Penso que foi 
para mim que ela deixou essas coisas. Para que um dia pudesse 
compor a sua imagem, como as peas de um puzzle.
Ela guardava anncios de jornais, recortava horscopos, 
sublinhava conselhos de beleza e guardava as folhas assinadas por 
Alegna d'Ortsac, contei. Algumas estavam rasgadas, mas ela 
conservara tambm os pedaos, onde tinha escrito com lpis 
encarnado: Alegna  mentira. E as cartas a Bob Pereira,

125


assinava-as: Patrcia Hart. Porque era esse o nome do endereo, 
nas cartas que ele lhe mandava. Bob Pereira - sim,
foi num anncio. Como j tinha feito, uma vez, com Laureano. 
Talvez
- sim, foi isso: creio que repetiu, de algum modo, a mesma 
histria.
Se pensar nela vejo-a andar em roda, em roda, como se estivesse 
enfeitiada. Amlia, que tinha tanto medo de feitios.
Bob Pereira. O nome  ridculo. Como a fotografia. Tambm uma 
fotografia dele ela deixou: gordo, diante de uma casa de madeira 
pr-fabricada, com um chapu de feltro na cabea, ao lado de um 
carro azul descapotvel. V-se que  azul porque a fotografia  a 
cores.
Mas no quero falar disso agora. Tornei a guardar tudo num saco, 
atrs de malas vazias, na parte mais alta de um armrio. Um dia 
olharei tudo mais de perto. Agora no. Agora abraa-me.
Sim, ele tentou det-la. Laureano. Quis fechar a porta, mas ela 
gritava, ao cimo da escada, que se ia embora.
A conversa entre os dois na varanda. Interminvel, como as que 
tinham dantes, no quarto da costura. A noite caindo. O silncio 
em volta. Os rudos da noite, que no perturbavam o silncio - o 
coaxar dos sapos, o voo macio dos morcegos, borboletas 
atirando-se contra as redes mosquiteiras das janelas. Ouvia-se no 
escuro o chocar das asas.
Mas no havia talvez mais nada a dizer. E depois ela foi-se 
embora.
Acho que escreveram cartas e ele veio busc-la um dia. Partiu com 
ele, no mesmo barco. Como se fosse uma coisa simples de fazer: 
arrumar a mala  pressa e ir-se embora, levando o mnimo 
possvel. Dir-se-ia que sem deixar nada para trs.
Laureano - prefiro falar-te dele como era na infncia. 
Consertando coisas, meio distrado, contente, assobiando 
baixinho. A casa entrava de novo nos trilhos. Por muito que se 
desfizesse ele estava l - podiam cair as paredes, rebentar as 
janelas, ele voltava a pr tudo no lugar. Chegava ao fim da 
tarde, com a tinta de gua e as trinchas, o verniz e a cola e o 
jeito de juntar os pedaos. Mandando sobre as coisas: a torneira 
do tanque, o esgoto da banheira, o cano do gs, o bico do fogo, 
a tomada da parede, os objectos que nos transcendiam, a Amlia e 
a mim, e mesmo a Lia, e nos deixariam assustadas e sozinhas. Mas 
ele no tinha medo, media-se com as coisas e ganhava. A casa 
ficava muito arrumada e limpa, funcionando. A Casa Preta, que 
danava no vento.

126


Mas agora ele senta-se na cadeira--aviador, de olhos fechados, 
com o gato a dormir sobre os joelhos. Tem os cabelos brancos, 
rugas ao canto dos olhos e da boca e usa culos fora de moda.
Um pssaro que caiu no cho, ocorre-me, um pssaro que no abriu 
as asas a tempo e nunca mais pode voar.
Foi ele que me falou disso h muito tempo - existem pssaros 
amarelos nas florestas da Zambzia, que comem frutos maduros, 
bebem em voo rasante nos rios e lagoas e se deixam cair das 
rvores com as asas fechadas, abrindo-as j no ar. Mas tm de ter 
cuidado porque, quando esse movimento no  feito a tempo, caem 
no cho e nunca mais conseguem levantar voo. E ento basta 
estender a mo para apanh-los.
Ele gostava de contar essas coisas. Talvez porque no tinha 
estudos, o que sempre considerou uma fatalidade (embora eu tenha 
levado tempo a perceber porqu), dava muita importncia a 
pequenos conhecimentos, pormenores aparentemente sem importncia 
que guardava, como a preciosidades, na memria, nomes de rvores, 
de insectos, de afluentes de rios. Ou talvez fosse simplesmente 
esse o seu modo de estar, atento, desperto, olhando as coisas com 
uma ateno que era tambm uma forma de afecto.
Mostrava-me na infncia como a micaia adulta tinha espinhos 
pequenos como os da roseira, mas enquanto arbusto estava coberta 
de espinhos brancos, enormes, com um palmo de tamanho, que depois 
com o tempo caam. Como a folha da mangueira era mais fina e 
comprida que a do cajueiro. A papaeira inconfundvel, com os 
frutos apinhados l em cima e os ramos com as folhas disparando, 
dir-se-ia que a partir de um mesmo ponto. Pequenos milagres do 
dia-a-dia, que se podiam sempre olhar como se fosse pela primeira 
vez.
Mas agora ele est sentado na cadeira--aviador e olha em volta, 
sem ver nada. A cabea grisalha cada sobre o peito, o jornal 
esquecido que acaba por tombar. A mo procurando o copo de 
cerveja num movimento cego. Nunca mais foi o mesmo, desde que 
Amlia partiu. Ela levou a alegria dele.
Esquecia-se de mudar a camisa suada, era preciso escond-la, 
deit-la no tanque da roupa, molh-la logo com gua e detergente, 
deixar-lhe uma camisa lavada bem em evidncia sobre a barra da 
cama. Movia-se com gestos automticos,

127


sonmbulos, como se dormisse. Distrado, sem ouvir o que se 
dizia, por vezes levantando a cabea e perguntando: Hein? como se 
viesse de muito longe, ou nunca tivesse estado ali.
Comia pouco, cada dia menos. Dir-se-ia que lhe custava comer, 
mastigava pedacinhos pequenos e esticava a cabea para a frente 
quando chegava a altura de engolir. A comida ficava quase toda no 
prato, deitava-se fora no balde da cozinha.
A noite sobretudo era difcil. Como quando algum morre. Eu 
acordava s vezes com os pssaros e os barulhos da madrugada - 
rudo de portas, de gua correndo, gorgolejando como um silvo de 
cobra nas canalizaes velhas da casa. Ouvia-o sair para a rua e 
no sabia se se levantara muito cedo ou se no tinha sequer 
chegado a deitar-se. Por vezes ele deixava o rdio ligado todo o 
dia e julgo que tambm toda a noite - vozes de locutores, um 
homem e uma mulher, depois msica. De noite a msica era mais 
suave, as vozes ganhavam um tom de quase intimidade, como se 
fizessem realmente companhia. Mas a noite era difcil de passar. 
Como quando algum morre.
E havia o modo como ele descia a escada, agarrado ao corrimo. 
Dir-se-ia que podia cair se lhe faltasse o arrimo, ou ficaria 
perdido se no tivesse a cada momento um apoio. Os mais pequenos 
gestos pareciam custar-lhe um esforo.
A espingarda criou p, nunca mais foi s perdizes com o Agripino, 
o Relito e o Jamal, o Licnio teve sozinho os ataques de 
filoxera, o quintal encheu-se de ervas, o rcino secou.
Desenvolveu depois durante algum tempo uma actividade frentica, 
como se no pudesse ter as mos desocupadas. Forrou com nova rede 
o galinheiro, caou uma cigarra e construiu para ela uma gaiola, 
cavou e tornou a cavar os canteiros. Sem falar, porque 
praticamente deixara de falar. S s vezes o surpreendia a 
conversar com Simba.
Falei tambm de Lia, tenho a certeza de que falei dela nessa 
altura. Mas curiosamente  com Roberto que me lembro de ter tido 
essa conversa.
Lia estava ligada ao mundo quotidiano dos negros, aos bairros 
pobres que por toda a parte nos cercavam - - casas baixas, 
pintadas, feitas de pedaos de materiais avulsos, que pareciam 
desenhos de crianas da escola ou cenrios abandonados, 
desbotando ao sol: Uma porta e duas janelas, uma de cada lado, 
mais abaixo uma faixa pintada de azul forte,
amarelo ou rosa. Em cima, sem forro, um telhado mal assente, s 
vezes tambm debruado a tinta. E na entrada em geral um degrau ou 
dois, para encher o espao que faltava at  rua.
Atravs das portas abertas viam-se, dentro das casas, pedaos 
desconexos de coisa nenhuma, uma mesa, uma cama no meio de um 
quarto, um armrio partido, uma cadeira esventrada, algures 
ouvia-se um rdio tocando alto, barulho de vozes, choros de 
criana ou de mulher.
L fora, velhos sentados, crianas brincando na sarjeta, um co 
tinhoso deitado numa sombra.
Um dia Lia no voltou. Um dia e outro dia e outro dia. Eu queria 
ir com Laureano procur-la pelo Canio, s vezes, a 
contra-gosto e aflito, ele acaba por levar-me, vagueamos  toa, 
sem saber para onde, nas tardes de domingo.
O vento levanta poeira, lagartixas correm no cho irregular, 
estacam de sbito, fingindo-se mortas, petrificadas de pavor, de 
repente correm outra vez, enlouquecidas. Um homem passa, de 
palito na boca, outro limpa os dentes com mulala. Roupa no 
peitoril de uma janela, ao lado de um pssaro que saltita, na 
gaiola. Meninas de vestido sujo caminham descalas, de mo dada. 
O pasmo dos seus olhos enormes. Outra carrega um beb adormecido, 
com moscas em redor da boca. As ruas desoladas dos negros. Como 
se nada valesse a pena e tudo o que se estragava fosse 
irremediavelmente degradar-se ainda mais. Pessoas mortas 
caminhando na luz.
At que Laureano no sabe mais o que dizer-me e acaba por contar, 
hesitando, como se pesasse as palavras: Lia - foi viver para 
longe. Zedequias arranjou novo emprego, e foram todos.
Para onde? assusto-me, suspensa da sua voz, sem saber ainda se 
acredito ou no.
Para - Mocmboa da Praia, ouo-o responder.
Mas isso foi noutro lugar, e noutro dia. Ainda no. Agora havia o 
sol parado, e o vazio em volta. Como se todos estivessem mortos.
Sim, era tudo um pesadelo ou um sonho. A lagartixa que corria 
outra vez doida no meio do p, impulsionando-se para a frente com 
movimentos rpidos da cauda, um gato vadio espreitando no vo de 
uma janela, silhuetas imveis s portas, sentadas sobre esteiras 
ou no cho de areia. Mesmo o rdio que tocava alto no parecia 
quebrar o silncio, como se ningum o ouvisse.

128 - 129


Chegou entretanto a poca das chuvas e como sempre a cidade ficou 
partida ao meio, foi bno de um lado e maldio do outro: a 
chuva lavava os prdios e as ruas, regava os jardins e fazia 
nascer flores na cidade dos brancos, e abria feridas profundas na 
cidade dos negros, convertida em pntano. As areias tinham-se 
tornado em lama, as fossas transbordavam de dejectos, gua suja 
invadia as casas, gua putrefacta, juncada de detritos.
Entre a cidade de cimento e o aeroporto o pntano invadia tudo e 
era tudo - sujidade, moscas, montes de lixo, esgotos, cheiros 
ptridos, parasitas, mosquitos que se espalhariam mais e mais 
quando o vento estivesse de feio.
Causam doenas que matam, diz Laureano. Ou duram toda a vida. 
Porque se fica marcado para sempre. (Amlia e o seu medo do 
pntano, ocorre-me. Teria portanto razo?)
O governo (algo de grave e negativo se segue, sempre que ele 
comea uma frase deste modo) no s permite a construo nesta 
zona como ele prprio mandou construir habitaes aqui.  tudo o 
que tem para oferecer aos negros.
Crianas brincam na lama. Adiante, ajoelhada no cho, uma mulher 
teima em acender uma fogueira que no acende.
 a que ele pra de repente e diz que foram para longe. Lia, 
Zedequias, todos.
Uma fogueira que no acende, uma fogueira que no acende. Uma 
mulher teimando em acender o lume. Ajoelhada no cho.
Ento era isso, penso desatando a chorar. Foi para Mocmboa da 
Praia e nunca mais voltou.
Mas a notcia  de certo modo um alvio. Quando penso em Lia ela 
no est nesse deserto de sujidade e lama, mas num lugar 
diferente, que posso imaginar: tem ondas verdes e uma lngua 
comprida de areia, com redes a secar ao sol. E ao lado h logo um 
rio, como na Maaneta.
Zedequias agora  pescador, o barco onde anda  comprido e 
estreito, como as almadias.  tarde regressa com os peixes, 
Orqudea e a L correm na areia.
Lia estava longe, mas eu aceitava perd-la. No se tinha 
dissolvido no ar, nem transformado em pssaro, areia ou folha. 
Existia, existia algures, Mocmboa da Praia era um lugar real, e 
isso era tranquilizador.
Ficava ao norte, podia ver-se no mapa. Teria fileiras de 
coqueiros plantados. O vento bateria nas folhas.
(O vento, como um bafo, sobre a esteira. A grande noite de frica 
em volta, o silncio cheio de rudos. O canto alto dos grilos, o 
restolhar dos ratos, o voo cego dos morcegos - - voos curtos, em 
rodopios, de repente mergulhando junto da porta, como se dessem 
cambalhotas no escuro. Espritos diabos assobiando nas rvores. 
Morcegos diabos brincando. O fogo aceso nas noites frias de Junho 
e Julho. A chuva de Vero caindo no capim. Crianas chorando no 
sono.
Apanhar cogumelos no mato, depois das chuvas. O lume aceso para 
que os animais no cheguem perto -h sempre na noite um olho de 
animal olhando. Imvel, resplandecendo. Mas isso mais longe, no 
meio do mato, onde se deixa armado um feitio para no encontrar 
animal inimigo quando se vai por gua, com uma lata  cabea. 
Animais deslizam, no meio dos sonhos, crianas voltam-se na 
esteira dormindo) -
S anos depois ele me contou: Lia morreu de tuberculose, no 
Hospital. Zedequias veio dizer-lhe que ela estava doente, deitava 
sangue pela boca. Laureano levou-a para o Miguel Bombarda, 
visitou-a at ao fim na enfermaria.
Fomos ao cemitrio e l estava a lpide, que ele mandara pr no 
cho: Lourdes Panquene. E debaixo do nome, duas datas. A primeira 
era apenas um nmero aproximado, que ele calculara contando para 
trs, a partir do nascimento de Orqudea. Lia nunca soubera ao 
certo o ano em que tinha nascido, e Zedequias tambm no, o que 
no era raro nessa altura. No se faziam registos, e nas aldeias 
do interior o tempo media-se de outro modo, dizia-se por exemplo: 
muitas colheitas atrs, no ano das grandes chuvas, ou: no ano dos 
gafanhotos.
Havia portanto o nome no cho e duas datas. Ou nem isso: Lourdes 
Panquene no parecia ela.
Mais tarde Laureano disse-me tambm porqu Mocmboa da Praia: foi 
o primeiro nome que lhe veio  ideia, talvez porque se ouvia 
tantas vezes nos altifalantes do aeroporto uma voz que chamava os 
passageiros que partiam nos avies da Deta para a Beira, Nampula, 
Porto Amlia e Mocmboa da Praia.

130 - 131



Laureano devia casar outra vez, digo a Rodrigo. Uma mulher doce, 
que o fizesse feliz. Eu podia viver com eles, mas preferia ir 
viver contigo. Um apartamento pequeno, de um s quarto, bastaria.
Sorrimos, dando as mos sobre a mesa. To simples, parece. E to 
difcil. Porque no tenho dinheiro para alugar o apartamento, 
Laureano to-pouco. E o pai de Rodrigo, tanto quanto o conheo de 
ouvir falar, no daria coisa nenhuma, ele no poderia contar com 
nada, alm da curta mesada que j tem. Tudo somado, chegaria a 
quanto? Fazemos contas, abanando a cabea.
A menos que a tal mulher tivesse tambm um emprego, digo - oh, 
sim, uma companheira que gostasse de Laureano como ele era. E 
tivesse algo de seu, um modo de vida. Uma mulher que esperasse 
por ele ao fim da tarde com um sorriso nos lbios e o jantar 
fumegante sobre a mesa. E quisesse tambm ajudar-nos, a Rodrigo e 
a mim.
Mas onde encontrar essa mulher? No conheo nenhuma, nem sequer 
parecida. De qualquer modo, no  a mim que compete encontr-la. 
Da vida dele  ele que cuida, como eu da minha. Livremente.
Ele sempre me deixou ser livre, digo. E isso, mais do que tudo, 
eu lhe agradeo.
Foi quando Joana foi passar frias a Portugal com a famlia, e 
trouxe muito que contar quando voltou:
L, viver era uma aflio, disse ela, era tudo proibido. Mesmo 
namorar. No se ia ao cinema com rapazes, porque podia parecer 
mal, de resto vivia-se no terror de parecer mal. Nem se 
respirava, para no parecer mal. Assim por exemplo a tia Delfina 
levava na rua um guarda-chuva aberto, para tirar o vento, e logo 
a tia Celestina, que era irm dela, lhe dera uma cotovelada com 
fora: Olha que no chove, fecha mas  o guarda-chuva, est toda 
a gente a olhar para ns. E como a outra no fizesse caso, ela 
recomeou mais ansiosa: Olha o que ho-de dizer, parecemos 
tolinhas, com o guarda-chuva aberto sem chover.
Ests a gozar connosco, ramos, mas Joana continuava:
E as raparigas, nem pensar em usarem calas, porque isso era fato 
de rapaz e claro que tambm parecia mal, calo ou short muito 
menos, biquini isso ento, seria o fim do mundo, nas praias at 
andava o Cabo do Mar a tomar conta e a ver se o fato de banho das 
mulheres era decente ou no.

132


Ests a gozar connosco, repetamos, rindo s gargalhadas. Porque 
nada daquilo era possvel, ela inventava para se rir de ns,
Mas Joana assegurava que era tal e qual assim, tudo muito 
composto e arrumado, as meninas tinham ar de santinhas sonsas e 
andavam na rua vestidas como se fossem para festas, porque tinham 
de chamar a ateno de longe, j que ningum se podia aproximar 
delas, porque tudo parecia mal: Parecia mal sentarem-se com 
rapazes na esplanada, quanto mais sarem  noite sozinhas, 
falavam quase sempre com mais algum por perto, para no parecer 
mal.
Tinha-se tambm medo de tudo, no se dava um passo sem olhar para 
o lado, a ver se se ia avanado de mais ou atrasado de mais em 
relao aos outros, as ruas eram muito estreitas, era tudo 
pequeno e acanhado, as pessoas andavam coladas umas s outras que 
nem cachos de uva, pais avs tios primos padrinhos compadres 
afilhados vizinhos, tudo sempre muito junto, aperaltado, e sem 
ar.
Coscuvilhava-se naturalmente o tempo todo, diziam por exemplo: 
J vi hoje a sua filha, o que no era um modo de mostrar 
ateno ou simpatia, mas de apertar o cerco e de exercer 
controle. Sabiam em todos os momentos onde estavam uns e outros, 
porque havia sempre algum a olhar, e tambm porque no havia 
muito para onde ir, era uma rua, duas ruas com lojas e basta, 
ia-se l para ser visto e cumprimentado, mas as raparigas no 
deviam passar mais do que duas vezes na rua, na mesma manh ou na 
mesma tarde, era uma vez para um lado e outra vez para o outro e 
depois deviam voltar logo para casa, porque de contrrio davam ar 
de se andarem a mostrar para arranjar namorado, e claro que 
tambm parecia mal.
As meninas finas passavam as tardes nos cabeleireiros, penduradas 
nas janelas  espera de vez, porque pentear demorava horas, 
faziam bicha para serem atendidas, ficavam do almoo ao jantar 
sentadas em banquinhos a roer as unhas e a desfolhar revistas, e 
as cabeleireiras falavam-lhes com voz afectada e ntima, como se 
fossem primas,  menina, a menina j viu, a menina isto, a menina 
aquilo.
E era preciso muita ateno para ter a certeza de ver na rua toda 
a gente conhecida, porque se se passasse distrado, ou sem 
cumprimentar com efuso, era-se logo posto de parte, ou 
passava-se a ser olhado de revs.
De poltica no se falava, porque era muito perigoso e por isso 
os jornais, os amigos os parentes e os vizinhos diziam todos a 
mesma coisa, que era a bem dizer coisa nenhuma.

133


A vida estreita e pasmada das primas, penso olhando nos retratos 
a cara, que acho deslavada e um pouco idiota, de Marivone e 
Delmira, vestidas de primeira comunho e de Carnaval. Andam num 
liceu s de meninas, nunca saem com rapazes e se forem por acaso 
ao baile, no mximo uma vez por ano, a tia fica sentada na mesa a 
segui-las com os olhos toda a noite. Vendo se o par se chega de 
mais, ou se as aperta com demasiada fora. E como s podem danar 
com conhecidos, a tia toma logo nota de quem  o par, porque 
provavelmente quer saber tudo, no s do rapaz mas da famlia. E 
as primas entortam os ps, to apertados lhes ficam os sapatos, 
porque morrem de medo de serem deselegantes se tiverem os ps de 
tamanho normal, endireitam os laos de organdi na cintura do 
vestido e, de tanta recomendao que lhes fizeram, erram logo a 
seguir o compasso.
Tero de ir virgens at ao altar, porque se no fossem o pas ia 
abaixo e o mundo caa. E no liceu abrem a boca, perfiladas, para 
cantar em coro: Tronco em flor estende os ramos  mocidade que 
passa.
E tudo to claro, penso, posso ver tudo to claro, basta olhar, 
de relance, um retrato -
Rosrio conversa ao porto com o carteiro. Ambos rindo muito - j 
dei conta de que ela anda sempre a espreitar s janelas, e se 
enfeita de modo especial na hora a que vem habitualmente algum 
deles - leiteiro, carteiro ou peixeiro.
Sorrio da pressa com que ela o despede quando me v voltar da rua 
e fecha rapidamente a porta, como se tivesse sido apanhada em 
falso.
Por mim, namora  vontade, digo entrando em casa e desatando a 
rir da sua cara aflita.
Narciso escreve de vez em quando. Sempre a contar como a vida lhe 
corre de feio: numa carta comprou casa numa cooperativa, noutra 
carta foi passar frias a Espanha, noutra ainda est a pagar a 
dcima prestao do carro.
Narciso, a quem a me deu estudos, pagos com o dinheiro que 
Laureano mandava. Agora  engenheiro e escreve para mostrar que 
vive melhor do que o irmo.

134


 s por isso que ele escreve, digo a Roberto. Para o humilhar. 
Porque de resto, nunca se interessou por ns, e nunca teve uma 
palavra de gratido ou de afecto.
As pessoas gostavam de pisar os outros, constato.
At na missa de domingo esse modo de estar era visvel. Sobretudo 
na Catedral, ou na igreja de Santo Antnio da Polana: os que 
podiam e mandavam iam l para serem vistos, para cumprimentar e 
serem cumprimentados  sada, e era bem vestirem-se com toilettes 
caras, embora conviesse terem ao mesmo tempo um ar simples, por 
vezes quase desportivo, e se no fosse tudo hipocrisia seria at 
bonito de ver, as famlias alinhadas nos bancos, o pai 
aparentando ainda juventude, apesar das madeixas grisalhas, a me 
de preferncia mais nova mas sempre elegante e bem vestida e as 
crianas maiores e menores ao lado dos pais, igualmente penteadas 
e vestidas a preceito. C fora automveis esplndidos  espera, 
chauffeurs negros abrindo e fechando as portas com botes 
brilhantes na farda.
Era isso o que lhes importava, esse espectculo era a missa. 
Apesar do ar compuncto, concentrado e quase humilde que punham na 
altura da confisso e comunho. Mas era tudo impostura e 
fingimento, iam l no para se sentirem iguais aos outros, mas 
para afirmarem a sua posio de privilgio, e saam de l para 
continuarem a viver da mesma forma, para que haviam de mudar 
alguma coisa se tudo estava to bem organizado assim, eles 
reinando e os outros servindo, agora e para sempre amn.
No entanto o padre voltava-se para todos e dizia abrindo os 
braos: Carssimos irmos.
Mas no era verdade. E os padres bem viam que era tudo 
hipocrisia, mas fingiam no ver, e no saber.
Porque logo a seguir eles comem com talher de prata o caril 
dominical de camaro ou de lagosta, servido por criados negros de 
luva branca, diz Roberto. Enquanto nas palhotas os negros comem 
caril de gafanhotos e ratazanas gordas assadas no espeto, e de 
noite os ratos roem as crianas adormecidas.
E no entanto nenhuma pessoa, e nenhuma cultura,  melhor que a 
outra, e tambm os brancos tm muito a aprender com os negros, 
digo.


135


Por exemplo, os negros nunca batem nos filhos, trazem-nos junto a 
si, falam com eles, atravessam juntos o desenrolar das coisas, e 
as crianas aprendem que h um tempo de trabalho e um tempo de 
repouso, um tempo de dana e um tempo de sono, h o lugar da vida 
e o da morte, o da alegria e o da tristeza, o lugar dos humanos e 
daquilo que  superior a ns e nos ultrapassa.
Uma parte do que colhemos  oferecida aos espritos, porque no 
somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos 
sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e 
sabemos que a natureza  maior que ns. Uma parte, por isso, 
volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
Isso, entre outras coisas, eu aprendi com frica: a pequenez do 
ser humano, diante da vastido do que no  humano. No somos 
nada, poeira no vento, silhuetas minsculas, na imensido da 
paisagem.
Basta-nos no fundo muito pouco, porque somos tambm pouco: matar 
a fome a sede e o desejo de sexo, a esteira para dormir e o 
corao em paz.
Laureano sempre viveu desse modo, e eu compreendo-o. Essa  uma 
sabedoria milenar.
Assim como aprendi com frica que a verdadeira vida  vagarosa. 
So os mortos que tm pressa. E os loucos.
Mas tambm h coisas para mudar em frica, diz Roberto. Os dios 
entre negros, por exemplo, ou a forma como as mulheres so 
tratadas: carregam os filhos, a gua, a lenha, o homem ao lado, a 
caminhar como um rei, e ela carregando tudo tudo, como burro de 
puxar carroa. Trabalham de sol a sol e quando calha so 
espancadas pelos homens, s vezes casam sem amor, s porque 
convm  famlia, e depois a melhor comida  para o marido: 
quando ele se senta  mesa ela no se senta com ele, come depois 
os restos, e se for o caso tambm a sogra manda nela e lhe bate. 
Por isso s vezes acontecem coisas, as mulheres fogem, deitam-se 
ao rio, vo procurar os crocodilos, enforcam-se nas rvores ou 
fogem mato a dentro at carem de fome de sede e de cansao.
Ou so abandonadas, com os filhos, porque os homens vo para 
norte ou para sul,  procura de melhor vida, o que tambm pode 
ser um libi, quando os homens so irresponsveis como crianas e 
querem tornar a fazer vida de solteiro.

136


Ou so vrias mulheres de um s homem e tm de se entender todas 
entre si, mesmo quando morrem de cime da que ele procura mais, 
ou da que acabou de ter um filho.
Sobreviver passa por elas, digo. Esto ligadas  terra, ao 
cultivo das machambas, aos costumes, aos filhos, h uma longa 
linha de tempo que passa atravs delas e elas guardam, sem 
saberem at que ponto  importante tudo o que guardam - os gestos 
de embalar, semear, colher, acender o lume, pilar milho.
 sempre a elas que os homens voltam quando perdem o norte, diz 
Roberto. Quando se desorientam com as mquinas, o dinheiro e as 
ideias dos brancos, que querem aprender a usar mas ainda no 
aprenderam a usar, quando vestem bon e farda e se julgam um 
degrau acima do vizinho porque os botes da farda brilham tanto - 
 a elas que voltam, porque elas no perdem o norte, e distinguem 
a verdadeira luz do falso brilho.
(A xiluva, penso. A xiluva sua namorada.)
H muitas coisas para mudar no mundo, suspiramos. Mas mudar o 
mundo no nos parece difcil. Basta juntarem-se as vontades e as 
coisas comeam a acontecer de outro modo -
Ento, de repente, rebentou a guerra. Como um terreno minado 
explodindo. No foi para ningum uma surpresa, sabia-se que iria 
acontecer, j tinha acontecido noutros lugares, mais tarde ou 
mais cedo ia chegar aqui.
Portugal era um pas mal governado. Mal pensado. Lisboa no 
dialoga com os africanos. Ele sempre dissera. E agora a estava. 
Disse Laureano.
Afligia-nos pensar nos que iriam morrer. De um e outro lado. Mas 
havia realmente dois lados? Os que chegavam de Lisboa, 
atravessando o mar, tambm no queriam essa guerra absurda.
S mais algum tempo, dizamos. S mais algum tempo e tambm em 
Portugal a ordem social cairia, como um baralho de cartas mal 
seguras.
O Velho tinha na infncia a cara do meu av, digo a Roberto. Mas 
caiu do telhado e morreu quando perseguia Laureano com o pau de 
marmeleiro e o cinto.

137


Os ditadores caem sempre, concluo, porque essa histria me parece 
exemplar. De um telhado, uma janela, de uma cadeira ou de um 
banco - caem sempre no fim, de qualquer coisa que j nem sequer  
alta, pode at ser rasteira ao cho. Porque, sem darem conta, 
fomos minando o terreno e eles comearam a afundar-se. Escavmos 
tneis debaixo deles como formigas, como toupeiras. E de repente 
eles caem, porque deixaram de ter suporte. O cho onde assentavam 
abriu-se.
Foi por essa altura que nos lembrmos do cartaz. Uma folha grande 
de papel, que dissesse, em grossas letras, legveis  distncia: 
Viva Moambique Independente. Para fazermos surgir de surpresa, 
no meio da sala, durante o baile dos finalistas.
Iramos preg-lo clandestinamente na parede, debaixo do outro, 
que anunciava a orquestra, que ainda no se sabia se ia ser do 
Cinque di Roma ou do Shegundo Galarza. No auge da festa, quando 
toda a gente estivesse distrada a danar, faramos cair o 
primeiro cartaz, com um puxo certeiro, deixando a descoberto o 
que tnhamos pintado, com todas as letras bem visveis.
A ideia pareceu-nos perfeita e deu-nos um grande gozo pens-la. 
Amanh, resolvemos, vamos comprar as tintas.
Orqudea acena alegremente do fundo do corredor quando me v, vem 
ao meu encontro sobre o cho que acabou de limpar, ainda 
brilhante de humidade, com o balde e a esfregona na mo.
Gitita! diz alto, sem se importar com as pessoas que se cruzam 
connosco, apressadas porque  a hora da visita. Uma enfermeira 
fecha a porta de um dos quartos, pe severamente um dedo sobre os 
lbios, impondo silncio: Chiu!!
Mas Orqudea ignora a enfermeira e as pessoas que passam, atira 
rapidamente para o lado a esfregona e o balde: Gitita! repete 
muito alto, abraando-me.
Amarra melhor o leno que com o abrao lhe escorregou da cabea, 
encosta-se ao meu lado no peitoril de uma janela e conta logo: 
mudou de namorado, uma vizinha teve outro filho, nasceu ainda s 
h uma semana. Mudar de namorado  bom, o que tinha antes andava 
sempre com uma e outra, Orqudea chorava muito. Agora cansou, 
suspira referindo-se a si prpria. E diz-me o nome dele: Aldemiro 
Cabanal.

138

O novo, porque o antigo, o que ia namorar as moas de chapu ao 
lado e palito na boca, e a via chorar sem dizer nada, nem ao 
menos cuspir o palito, se chamava Alfredo.
Mas a L anda a faltar  escola, suspira. Fanisse quer ela em 
casa, a cuidar dos mais pequenos. (Porque nasceram mais filhos - 
Zedequias tinha outra mulher e outros filhos, alm de Lia, 
depois da morte dela arranjou outra mais nova, Fanisse. A L 
gosta dela, Orqudea no, brigam muitas vezes.)
E tu, Gitita, e tu?
Conto, por meu lado, o que acontece. Em geral  nos extremos, 
quando tudo vai to bem que tenho de contar, ou tudo vai to mal 
que no aguento mais ficar calada, que vou visitar Orqudea.
Uma vez por ms, ela vem almoar ao domingo com a L. Depois da 
partida de Amlia.
Deixa eu levar este, diz abrindo o meu guarda-fato e 
experimentando no espelho saias e vestidos.
No ms seguinte o tecido desbotou, a saia tem rasges, o fecho 
clair est partido, porque entretanto ela os emprestou 
alegremente a todas as amigas. No entanto Orqudea no aceita que 
no se empreste. E esse o uso e  assim que vivem: as coisas 
circulam, roupa, frigideiras, panelas, nunca esto por muito 
tempo na mesma casa, andam sempre de mo em mo.
Partilhar o que temos parece-lhe por isso acertado - Laureano 
sempre deu mesada igual a ns as trs. Mas Orqudea gasta sempre 
tudo com a L, acha que ela mesma pode bem cuidar de si. Ganha 
dinheiro a fazer limpeza e depois vai ganhar mais algum. Anda a 
aprender para enfermeira, tem sorte, porque gosta muito de tratar 
pessoa. Aldemiro tambm  enfermeiro, Aldemiro  muito bom, ele 
vai ajudar eu. No precisa no, a L  que precisa. Livro, 
caderno, sapato. No vai faltar  escola, vai brigar com Fanisse, 
criana ela pode deixar com a outra mulher ou com vizinha, no 
precisa ser a L. Puxa cabelo, rasga capulana - pedao de pano 
vai ficar em cima das rvores, depois da briga. Mas a L no vai 
desistir no.
Ele  que no vai bem, suspira. Zedequias. Velho de mais pra 
mulher, velho de mais pra estiva. Fica sentado na esteira, 
fumando fumando. Mas s vezes ainda sai  rua, puxando carroa de 
fruta.

139


Entro com Rodrigo na esplanada do Zambi sempre cheia, sentamo-nos 
frente a frente, sou eu que fico voltada para o mar.
A sua mo estende-se at prender a minha. Tm um tamanho 
desigual, as mos assim juntas, a minha fica quase a meio dos 
seus dedos. Que agora se desprendem dos meus, tiram do mao um 
cigarro que acendem - um anel branco paira um instante no ar, 
sobe mais alto e desfaz-se. Ele aspira de novo, solta o fumo 
antes de dizer a primeira frase, inclinado na minha direco 
sobre a mesa.
O mar  da cor dos seus olhos. Nem azuis nem verdes, talvez 
cinzentos. Mudam sempre, nunca se sabe ao certo.
De que cor so afinal os teus olhos? pergunto, interrompendo-o.
Ele ri, encolhe os ombros: Afinal de contas, no  ele quem mais 
os v.
Esplanadas de caf, cinemas, a Baixa, o cais, a praia. Os mesmos 
lugares onde Laureano me levava dantes, digo como se falasse 
comigo mesma, acendendo tambm um cigarro.
O primeiro amante era o pai, ocorre-me de repente. Sempre o pai. 
Mas isso num tempo irreal, impossvel, nos desejos e sonhos da 
infncia. Que um dia ficou perdida para trs. Algures, no fundo 
de um armrio, um gato-caixa-de-msica tem a corda quebrada. 
Jamais danar outra vez.
Mas essa no  uma ideia triste, penso sacudindo a cinza. Agora  
outro tempo, outro caminho. Vasto como o mar.
O ndico. Olho-o at ao horizonte por detrs dos coqueiros, o 
ndico para onde correm grandes rios do mundo, o Indo e o Ganges, 
o Tigre e o Eufrates, o Limpopo e o Zambeze. Agrada-me que estes 
ltimos, que soam familiares como pessoas, se nomeiem ao lado 
desses outros, longnquos, desconhecidos, que evocam outros 
climas e paisagens, outros sis e outras gentes. O ndico do Mar 
Arbico e da Baa de Bengala, do Mar Vermelho e talvez de outros, 
que agora no recordo - o ndico voltado para leste, para o 
oriente misterioso e antigo, distante e prximo, que chega at 
ns h sculos, nos navios de viagem, nas sedas da ndia, nas 
porcelanas chinesas, nos Budas de olhos fixos, perdidos no vazio.
Um oceano de guas quentes, junto  nossa costa, um mar de 
corais, peixes, moluscos, algas, e mais longe peixes voadores 
fosforescentes - os amantes, digo, caminham sobre as guas.

Sorrimos, sobre a mesa, e ambos pensamos a mesma coisa: um lugar 
onde, meu Deus, um lugar onde -
Levanto a cabea para as accias da rua por onde agora 
caminhamos, como se elas nos pudessem dar uma resposta, como se 
pudessem indicar-nos um lugar mais resguardado do que atrs de 
uma cortina de folhagem.
Mas os olhos da cidade no se preocupam connosco, diz Rodrigo. As 
pessoas tm muito mais que fazer do que reparar em ns.
Sim,  verdade, digo olhando em volta. As pessoas entram e saem 
da Marta da Cruz & Tavares, da Orqudea Oriental, da Casa 
Elefante ou do Bazar Favorito, lem letreiros luminosos nas 
paredes ou no alto dos prdios - Mquinas Kodak, Pelculas, 
Baterias Tudor - compram caf no Rei dos Cafs, aspiram o bom 
cheiro a cnfora da Casa HoLin, param aqui e ali diante das 
vitrines, vo para os empregos, o mercado e a praia - negros, 
brancos, indianos, rabes, chineses, cada um tem a sua vida e no 
lhes importa a nossa. De resto perante as coisas decisivas que 
acontecem no mundo, que importncia tem um par de namorados?
Mesmo assim no nos parece muito fcil entrar por exemplo no 
Hotel Girassol e pedir um quarto. O Girassol tem sempre muita 
gente, h os que vo almoar ou jantar l em cima no restaurante 
de onde se v a cidade em toda a volta - antes um hotel pequeno, 
menos conhecido, por exemplo o Hotel Central na Arajo. No, esse 
no serve, tem fama de ser um hotel de prostituio. Um hotel 
qualquer, sem nome, numa rua sem nome - mas no h ruas sem nome, 
nem hotis sem nome, e depois como entrar e sair sem causar 
estranheza? Deveremos levar ao menos uma mala? Sim, parece-nos 
melhor chegar de txi, deixar o motorista descarregar as malas 
(que tero, nesse caso, de levar dentro algo com um mnimo de 
peso).
Mas depois como sair, apenas algumas horas mais tarde, levando 
outra vez as malas, sem ter passado a noite? Um imprevisto, 
diramos na recepo, com ar circunspecto, devolvendo a chave. Um 
caso de fora maior. De vida ou morte. E assinaramos no registo: 
o senhor e a senhora X. Mas pediam sempre identificao?
Como faro os outros, pensamos. Aonde vo, em que hotis entram e 
como saem deles, como ultrapassam o sorriso furtivo do 
recepcionista - O Polana, ocorre-nos finalmente.

140 - 141


Como ltimo recurso. Apesar do preo de certeza impossvel - mas 
no pensamos nisso agora, mesmo que por umas horas tenhamos de 
pagar as economias de um ano.
O Polana. To grande e aberto, cheio de turistas. Com gente 
assim, de todos os lugares, parece-nos mais fcil perder-nos, 
desaparecer discretamente no meio das pessoas que vo  esplanada 
ou ao bar, ou param simplesmente a conversar pelas salas. Sim, h 
um ar impessoal, resguardado, num hotel de luxo, onde mais 
dificilmente chamaramos a ateno. Amanh, decidimos, vamos l 
entrar. Para ver melhor, no local, como seria -
E hoje  isso que fazemos. Sentamo-nos no bar, pedimos uma 
bebida. Whisky, diz Rodrigo, e acrescenta, antes que lhe faam a 
pergunta: Com soda.
Campari, digo sem hesitar, procurando parecer segura de mim, 
cruzando as pernas e recostando-me para trs na cadeira.
A mesa tem uma posio estratgica - vemos bem daqui quem entra e 
quem sai. Foi bom termos vindo. Alm do mais  agradvel estar 
aqui.
Molho os lbios, experimentando o sabor, antes de beber o 
primeiro gole. Menos bom do que imaginava. Nunca provei Campari, 
s conheo o nome das revistas. Agrada-me sobretudo a cor. Mas 
ainda no tive tempo de me aperceber do gosto - o segundo gole 
parece-me mais doce que o primeiro. Ou menos acre.
Est fresco, h decerto ar condicionado, mas to silencioso que 
no se d por ele. Um empregado traz num tabuleiro mais bebidas, 
deixa-as na mesa ao lado, onde conversam homens de negcios. 
Ouvem-se os copos tilintar, ou  talvez o rudo do gelo, batendo 
contra o vidro.
Do outro lado da porta chegam risos de crianas que sobem, 
provavelmente, da piscina. Mas logo algum lhes diz em voz baixa: 
chut, chut, e elas calam-se ou afastam-se para longe, porque 
deixamos de as ouvir.
Perto de ns, um som inesperado de piano. Sem darmos conta, um 
homem sentou-se e comeou a tocar - uma msica leve, agradvel de 
escutar em pano de fundo, sem lhe dar realmente ateno, enquanto 
se fala de outra coisa.
No imagino os quartos deste hotel. Sero talvez em tons de verde 
claro, com pesados cortinados brancos. E tero casas de banho 
luxuosas, intensamente iluminadas por luzes escondidas.

142


Os armrios com portas grossas de espelhos.
Agora o homem comea a cantar, avana um pouco a cabea at um 
microfone preso mais acima. O piano torna-se menos audvel, 
acompanha apenas a voz, as mos percorrem ao de leve o teclado 
numa escala ascendente que termina em sons abafados.
Apenas isso, sentar-nos de novo aqui, amanh ou outro dia, tomar 
uma bebida a ouvir a msica - e em algum momento ter-nos-emos 
levantado, deslizamos nos corredores estreitos, de carpetes 
espessas, e j desaparecemos atrs da porta entreaberta de um dos 
quartos -
 fcil, conclumos descendo a rua, caminhando devagar at ao 
Miradouro. S temos que atravessar o recepcionista, 
desembaraar-nos da mala - rimos com algum nervosismo de ns 
mesmos. Estamos um pouco assustados porque no temos experincia 
de entrar assim num hotel - - mas deve ser o que fazem milhes de 
namorados, e que nos importa o recepcionista?
Dir-se-ia que planeamos um crime ou combinamos um assalto, diz 
Rodrigo: estudamos o terreno, verificamos entradas e sadas, 
hbitos dos moradores, s falta marcar hora e data, acertar o 
relgio um pelo outro. Rimos de novo, inseguros - qual poder 
ser, neste caso, o imprevisto?
Mas os olhos da cidade no esto postos em ns, repetimos 
encolhendo os ombros e respirando fundo. No esto postos em ns. 
So duas, trs horas da tarde, h pouco movimento nas ruas,  a 
hora a que dormem a sesta, quase todos. Inclinamo-nos a olhar, do 
Miradouro, a cidade quieta aos nossos ps. Cercada pelo sol e o 
mar. Entorpecida.
Descemos um pouco mais, no se v vivalma. Alis, este  um lugar 
muito pouco frequentado, a no ser ao domingo, quando vm 
famlias passear, crianas de bicicleta, carros estacionados - 
mas agora no se v ningum.
Procuramos uma sombra, sentamo-nos debaixo das rvores. Uma 
borboleta pousa a dois palmos de ns, estriada e brilhante, 
grossa como um punho. Est calor, algumas nuvens amontoam-se no 
cu, passam, vagarosas, atravs das folhas.
Vemo-las passar, deitados no capim seco que cresce ao acaso, nos 
espaos ralos entre rvores e arbustos.

143


Abraamo-nos sem quase dar por isso, olhamo-nos de relance, sem 
falar - e depois eu fecho os olhos, sentindo o seu corpo crescer 
sobre mim como uma onda e levar-me.
No h ningum por perto - mas agora no nos importa que haja ou 
no. S existimos ns, o resto do mundo  indiferente.
Por alguns dias no existe mais nada. Nem sequer a guerra. Mas o 
mundo  mais vasto, penso depois, sentindo que no se esgota em 
ns.
Ela crescia nos sonhos, digo a Roberto enquanto pintamos o 
cartaz. A rvore das palavras. Para contornar o seu tronco seriam 
precisas nove luas. E cada folha era extensa como um voo de 
pssaro.
Mas de certeza que no s nos meus sonhos: Crescia tambm nos de 
toda a gente.
O cartaz  verde, com grandes letras no meio. Em volta das letras 
pintamos alguns motivos - coqueiros, o mar, uma plantao e um 
rio. Embora tenhamos pensado primeiro num lago, ou numa queda de 
gua. O motivo da gua pareceu-nos um ponto essencial - esta  
uma terra com gua e logo isso a torna diferente. Da tambm a 
cor verde em pano de fundo, para dar a ideia da vegetao. Mas 
acabamos por desistir do lago e da queda de gua, deixamos s o 
rio, que desce em largos SS, de um lado ao outro do papel.
Para pr logo abaixo das letras escolhemos um motivo forte, que 
d logo na vista de quem olha: capim alto, tambm verde, e uma 
cabea de leo espreitando. Copiamos o leo a partir do quadro 
que retiro da parede da sala e trago para o quintal, onde nos 
refugiamos da curiosidade de Rosrio e do barulho do rdio da 
cozinha.
No cartaz o leo parece igualmente feroz, fica apenas um pouco 
mais pequeno. E o seu tom de castanho  mais claro. Mas no nos 
parece mal assim. Um cartaz no tem de ser exactamente uma obra 
de arte.
A casa de Rodrigo onde agora nos encontramos porque nos tornmos, 
com o tempo, mais afoitos. Indiferentes ao vaivm das vassouras, 
ao roncar de aspiradores e ao bater de carpetes, ao barulho 
incessante mas leve de passos subindo a escada, ou de gua 
regando o jardim.

144


O pai s chega  hora de jantar, a casa est cheia de pessoas 
invisveis, porque no as olhamos nem as vemos. Ou somos ns que 
nos tornmos invisveis, caminhamos, felizes, noutra dimenso. 
Podem abrir portas e fechar janelas, limpar vidros ou encerar o 
soalho, chamar-se Joaquim, Antnio ou Juliano - no tomamos 
conscincia de que existem, dizemos bom dia ou boa tarde, 
sorrimos depressa e passamos quase a correr adiante. Carregados 
de livros e cadernos - temos sempre,  claro, o pretexto de 
estudar.
Entro na casa assim, sem realmente a ver, de tal modo que levo 
muito tempo a aperceber-me do seu tamanho, e no me fere logo no 
incio a sua falta de luz nem o seu ar pesado e soturno.
Passaro semanas, depois meses, antes que eu comece a notar os 
pormenores, com surpresa: a sala de jantar, enorme e vazia, o 
escritrio severo, forrado a madeira de umbila, o retrato da me 
na escrivaninha, emoldurado a prata, o retrato do pai, pintado a 
leo, na parede atrs da secretria. As coleces de figuras em 
marfim, que o pai vem fazendo h vrios anos, num armrio de 
vitrine; noutro armrio com alado, miniaturas de jade e moedas 
antigas. E por todo o lado a coleco maior, de minerais, 
classificados com etiquetas uniformes, dentro de gavetinhas 
pequenas, em estantes que se estendem ao longo de paredes e 
corredores.
O ar condicionado sibilando. Criados fardados em bicos de ps. O 
silncio assustador da casa, onde as coisas parecem mortas, 
catalogadas, arrumadas como em museus. Ou em jazigos.
A me dormindo na cadeira de balano, debaixo da varanda. Diz 
Rodrigo. s vezes caa assim no sono, de repente, porque de noite 
no conseguia dormir, apesar dos comprimidos. Durante o dia 
dormitava, mas acordava logo, a no ser que tivesse bebido whisky 
- ela misturava os comprimidos com whisky, e isso era o pior de 
tudo.
Dormindo como morta, penso. Um risco negro debaixo dos olhos, o 
cabelo cado sobre a testa, colado de suor, uma gota de saliva 
escorrendo ao canto da boca. Inclinada para trs, na cadeira de 
balano.
Como se a visse de repente, sentada na relva, atravs de um 
vidro. Mas no quero v-la. Estremeo de desconforto, com a 
sensao de ter violado uma intimidade ou entrado sem bater a uma 
porta, embora ela estivesse aberta. Desvio os olhos do retrato 
emoldurado, que Rodrigo voltou suavemente para mim.

145


No quero mais tropear nessa imagem, penso. Ela est morta, mas 
eu estou viva. Com o tempo afastarei a sua morte. Ou tornarei 
mais esbatida essa lembrana.
Abrir as janelas, penso ainda mais tarde, caminhando na rua. Para 
deixar entrar o sol e o vento. Renovar a casa, reinvent-la de 
outro modo. Com o tempo haver de novo a luz e o riso. Sou a 
mulher seguinte na vida de Rodrigo. E sou diferente.
No me ocorre, na altura, que aquela  uma casa rica, apenas a 
acho escura e asfixiante. E Rodrigo atrai-me por ter to pouco no 
mundo, alm de mim.
Eu era, por conseguinte, tanto mais preciosa, achei. E ele 
amar-me-ia ainda mais por isso.
As pequenas coisas que nos individualizam, que fazem com que eu 
seja eu, e o distinguem a ele entre todos - ele, Rodrigo, nico e 
diferente.
Dou comigo a prestar ateno aos mais pequenos gestos e mesmo a 
pormenores exteriores e banais, como a marca dos seus cigarros, o 
tamanho dos seus sapatos de tnis (a que chamvamos 
sapatilhas), a cor predilecta das suas camisas de algodo ou os 
modelos de avies que ele gosta de montar. Rodrigo ainda no sabe 
exactamente que profisso quer ter, mas, qualquer que seja, passa 
de certeza por tirar o brevet. Provavelmente, ser piloto um dia. 
Ainda no sabe ao certo. De resto, o pai nem quer ouvir falar 
nisso.
Desfolhamos juntos lbuns de retratos - a casa onde ele morou na 
Beira, as festas de aniversrio, os amigos de infncia, as frias 
na praia.
Tambm eu trago na carteira duas ou trs fotografias antigas.
No era no Polana que se hospedava Bob Pereira? pergunta-me.
Sim, no Polana. Bob Pereira, o que podia pagar hotis caros. E 
levou Amlia, num navio.
(Mas agora Amlia  uma imagem quase doce. Ou sou eu que a vejo 
de outro modo. Peguei no que restava dela - fotografias, papis, 
recortes de jornais, recordaes - e juntei-os todos, 
reinventei-os todos, at surgir, com nitidez, uma figura. Um 
rosto diante dos meus olhos, que olha para mim, por sua vez. Com 
grandes olhos tristes.
Ela sentava-se no cho e comeava a chorar. Como uma criana 
perdida. Mas ningum foi culpado, nem Laureano nem eu. Nem ela 
mesma.

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Era uma tristeza maior do que ns e mais antiga. Trouxe-a quando 
chegou, levou-a quando partiu. Ningum a quebrou. Ningum foi 
culpado.)
Ela tem muito milando na vida dela. A face branca de Lia 
branqueando a face negra de Amlia. Negro e branco so conceitos 
variveis, eu sempre soube disso. Lia era branca. Luminosa. A 
quase piedade, vizinha da compreenso, com que falava de Amlia: 
Ela est morta. Est viva, mas est morta.
Trocam de lugar agora: Lia est viva, faz parte do vento, da 
luz, da paisagem, da alma deste lugar, dos espritos familiares 
que se invocam em redor da rvore dos antepassados. E  Amlia 
que est morta, viva e morta, algures, como se o lugar para onde 
foi, e de onde nunca mais deu notcias, se chamasse tambm 
Mocmboa da Praia.
Roberto no quer afastar-se da xiluva, mas a vida afasta-o dela. 
Porque dentro em pouco vai entrar na universidade, e ela nem 
acabou a escola.
A vida separa as pessoas, sem ningum dar conta - de repente tudo 
mudou, e j nada  igual. Nem ns somos os mesmos.
Mas Roberto no consegue deixar de se sentir culpado.
 verdade que Zedequias no parece o mesmo, constato da vez 
seguinte em que o encontro: os cabelos embranqueceram e o corpo 
magro flutua dentro da camisa muito larga, como roupa estendida 
em que desse o vento.
Tem todo o frute, senhora, todo o frute, repete obstinado a 
quem passa.
Rolando no p, debaixo do calor. No chega a ser uma carroa,  
uma espcie de carro de mo s com duas rodas, chiando, rua 
acima. Ele empurra-o, paciente - p duro, rachado de andar, as 
veias das pernas grossas como cabos, de carregar sacos na estiva. 
Chapu na cabea, a boca descada, por causa do cachimbo que 
nunca tira do canto dos lbios, mesmo apagado. Excepto para 
lanar alto o prego, sempre o mesmo, a manh inteira: Todo o 
frute, senhora. Todo o frute.
No usa balana, vende a laranja ao saco. Banana  dzia ou meia 
dzia, anans  pea. Todo o frute, senhora. Saco de papel 
cheio, moeda em troca. Todo o frute.

147


Pra numa sombra, senta-se um momento atrs do carro, limpa o 
suor  manga da camisa, levanta-se outra vez, repete a frase, 
algum vem ou no vem, espera ainda um pouco, muda de lugar, 
empurrando o carro com esforo.
Digo-lhe adeus, continuo a andar. Ele sorri-me, sem dentes, 
levantando a mo.
Sonho com o carro, nessa noite: O p levantado do caminho, o 
calor, o sufoco, as rodas girando e girando, uma frase repetida, 
at  exausto, por uma voz. Mas no consigo distinguir as 
palavras.
O dia em que, inesperadamente, ouvimos um carro parar no jardim, 
s quatro horas da tarde. Algum (que depois identificmos como 
sendo Juliano) bateu  porta do quarto, com urgncia:
Minino, o seu pai vem chegando.
Vestimo-nos  pressa, Rodrigo precipita-se antes de mim pela 
escada, torna a subir e faz-me descer atrs dele, meio escondida 
pelo seu corpo, at  porta da cozinha, que empurra 
precipitadamente com o p, antes de quase me empurrar tambm a 
mim pela porta seguinte, que d para as traseiras, no quintal.
Depressa, diz em voz baixa, fechando logo a porta e desaparecendo 
no interior da casa.
A rua fica apenas  distncia de dois passos,  uma rua pequena, 
sossegada, do outro lado da fachada principal, no lado onde no 
h jardim, apenas o estendal da roupa e dois palmos estreitos de 
terra abandonada.
Fico parada um instante, sem compreender se aquela vinda foi 
casual ou teve alguma inteno, espero a ver se o pai assoma a 
alguma janela, tento ouvir as vozes - que de qualquer modo no 
chegam at mim.
Provavelmente ele nem sabe que existo, penso. Mas no me 
assustaria que soubesse - tornei-me segura, com o tempo.
Fico parada a olhar, mas ningum aparece nas janelas.
Rosrio fala novamente ao porto com o mesmo homem de h dias, 
despede-o precipitadamente quando me v aproximar.
Qual  o problema? pergunto, bem humorada, abrindo a porta. Achas 
que te fica mal ter namorado?

148


Ela no responde, resmunga qualquer coisa por entre dentes, 
furiosa, arranca o leno da cabea e comea a andar de um lado 
para o outro entre a cozinha e a sala, num movimento incessante e 
aparentemente sem objectivo, como se a casa fosse uma gaiola.
Vou para o meu quarto e um instante depois o rdio comea a 
tocar. Demasiado alto como sempre.
Antes ficasses a namorar l fora, suspiro.
Tento mergulhar num livro, mas, mesmo com as mos nos ouvidos, 
no consigo concentrar-me, leio dez vezes a mesma pgina sem ser 
capaz de passar adiante.
Pe o rdio mais baixo, grito, irritada, abrindo a porta.
Aparentemente ela no ouve, porque tudo continua igual. At que 
chego ao patamar e grito:
Rosriiioooo!! No percebes que me incomodas? Pe a msica 
mais baixo, ouves ou no?
Desculpa, diz ela da cozinha, baixando o som, com a voz mais 
inocente do mundo.
Volto para o quarto e recomeo a trabalhar. Por um instante tudo 
fica calmo.
Depois a msica  outra vez audvel, primeiro baixo, e aos poucos 
subindo cada vez mais de volume at um som altssimo, estridente, 
que parece rebentar-me dentro da cabea.
Deso a escada de rompante, empurro a porta. Rosrio assusta-se, 
deixa cair um tabuleiro de copos que se partem com estrondo nos 
ladrilhos.
Culpa tua, grito enquanto eles se estilhaam. Mas agora chega. S 
podes ouvir esta maldita msica quando eu no estiver em casa. 
(J devia ter feito isto h mais tempo, penso pegando no rdio. 
Devo ser completamente estpida.)
Ela faz meno de varrer os cacos mas no os varre, fica parada 
no mesmo lugar, com a vassoura a balanar na mo.
Msica alta eu gostar, diz finalmente, ofendida. E ele deu o 
rdio pra mim. Teu pai. Tinha msica alta, quando eu l servia  
mesa.
L, aonde?
Naquele bar.
Qual bar?
Estremeo, de repente: Na Arajo?

149


Arajo no, diz ela. L no centro. Na Baixa. Servia bebida, 
msica alta tinha sempre. Bem alto, eu gostar.
Pois eu no, digo levando o rdio e fechando a porta atrs de 
mim.
Ele desconfia, diz Rodrigo. Foi por isso que veio, a meio da 
tarde. Provavelmente algum deles traiu-nos.
Mas no me parece plausvel. Por que no haveriam Antnio Juliano 
ou Joaquim de estar do nosso lado - admitindo que havia realmente 
dois lados? E por que estaria o pai de Rodrigo necessariamente 
contra ns?
De resto, se Juliano avisara uma vez avisaria sempre, era um 
acordo tcito, de uma vez por todas. No quero pensar no teu pai, 
digo.
Durante algum tempo esquecemos outra vez que ele existe.
Pensando melhor, Roberto no acha bem prender o cartaz debaixo do 
outro (que agora j se sabe que vai ser do Shegundo Galarza). Na 
noite do baile toda a gente vai andar demasiado distrada e 
eufrica para dar ateno ao que interessa, diz.
Assim, acabamos por ir noutra noite, muito antes da data do 
baile, colar o cartaz na porta do liceu.
Mas na manh seguinte ele no est l. Para grande decepo 
nossa, ningum lhe faz qualquer referncia - provavelmente 
ningum mesmo o viu, alm da primeira pessoa que entrou e se 
apressou a arranc-lo do lugar.
quela hora estava de certeza destrudo - a plantao, o rio em 
longos SS, a cabea de leo espreitando. Todo o trabalho portanto 
se perdeu, como se nunca tivesse sido feito. Apenas os vidros 
ficaram sujos, no lugar da cola.
Rosrio amuou, desde a histria do rdio. Zangou-se comigo e 
quando chego  tarde finge no reparar em mim e continua a pintar 
as unhas, sentada na cadeira--aviador. Tem outra vez o leno 
amarrado  cabea e uma sandlia balana-lhe na ponta do p 
quando ela cruza as pernas, bocejando.
Que calor, diz finalmente, soprando as unhas.
Ningum veio almoar, a loua do pequeno-almoo continua suja 
sobre a mesa, duas moscas zumbem em volta das chvenas vazias.

150



Nos pratos secaram restos de doce e do filtro de caf cheio de 
borras desprendeu-se uma aguadilha negra que foi escorrendo e 
formou uma mancha irregular sobre a toalha.
Em cima do aparador h um punhado de flores murchas numa jarra. 
Deito-as fora na cozinha, a gua vertida tem um cheiro a podre, o 
fundo da jarra criou limo, esfrego com fora, deitando mais 
sabo.
Fao tudo isso o mais devagar que posso, tentando ganhar tempo, 
antes de dizer seja o que for. Conto at vinte, depois at 
cinquenta. Rosrio parece no ter feito coisa nenhuma o dia 
inteiro, alm de pintar as unhas: as panelas esto vazias sobre a 
banca, e h trs pares de sapatos, e mais outro sapato solto, de 
salto alto, espalhados no cho, no meio de escovas, panos de 
loua e pedaos de jornal.
Entro outra vez na sala e encaro-a. A minha voz est calma.
Que se passa contigo? pergunto.
Ela pe a rolha no frasco de verniz e espreguia-se sem pressa:
Est muito calor, diz finalmente, sem sequer me olhar.
Mas dias depois olha-me de frente, rodando rpida sobre os 
calcanhares:
Apanhei grvida dele, diz. Como se anunciasse uma nova era no 
mundo.
De quem? pergunto distrada, quase automtica. Porque no conheo 
os namorados de Rosrio, e de qualquer modo me  indiferente que 
seja deste ou daquele.
Do teu pai, minina, diz ela abrindo muito os olhos e desatando a 
rir, surpreendida. Quando passar sete ms, vai nascer filho.
Devo ser completamente cega, digo a Roberto. Como foi que no dei 
conta mais cedo? Claro que era isso, e por essa razo ele a levou 
para casa. Como foi que no vi?
Mas agora vejo - e muito claro. (Um pssaro que cai da rvore 
porque no levantou voo a tempo. E ento basta estender a mo 
para apanh-lo. Basta estender a mo.)
Um filho como seguro de vida. Porque ele vai tomar conta de 
ambos, garantir a subsistncia de ambos, para sempre. Mesmo que 
tenha de ser ele a cuidar da casa e da criana, e ela continue a 
namorar ao porto e  janela, e o troque um dia por algum que 
passa.

151


Essa minina, suspira a Bibila abanando a cabea. Ele tinha logo 
que ir buscar essa minina.
O que  que esperavas? diz Roberto. H gente que presta e gente 
que no presta. No h nenhuma razo para estranhar.
(Sentado na cadeira--aviador como se dormisse de olhos abertos - 
culos fora de moda, cabelo embranquecido, aquele ar triste, 
alheado e absorto.
Bastava estender a mo para apanh-lo. Porque ele estava no 
cho.)
Mas no h nada que eu possa fazer, digo comigo mesma o dia 
inteiro.
No h nada que algum possa fazer.
Ele vai repetir a mesma histria, digo ao Jamal e  Bibila. Mas 
eu no quero estar presente e assistir outra vez a tudo. Outra 
vez no, meu Deus. Outra vez no.
Sair de casa, com Rodrigo. Um apartamento pequeno, oh, to 
pequeno, bastaria.
Mas no  possvel - haveria uma sada, ocorre-me, em desespero. 
Em casa das primas. Em Lisboa.
Mas estremeo de aflio s de pensar nisso. Porque no quero ir 
para Lisboa. Nem quero separar-me de Rodrigo.
Descemos a rua caminhando devagar debaixo das rvores, o brao de 
Rodrigo sobre os meus ombros, o meu brao rodeando o seu corpo, 
em torno da cintura.
Apanhei grvida de ti, digo de repente, sem pensar.
Apanhei grvida de ti, repito - - porque a frase de Rosrio me 
dana na cabea e porque me apetece dizer isso, apenas brincando, 
para v-lo reagir a essa mentira, e  revelao da verdade que 
farei logo a seguir. Apenas um jogo, um dos muitos jogos de que o 
amor  feito - ele vai ficar surpreendido, incrdulo, um pouco 
assustado, mas todas as reaces que prevejo incluem sobretudo a 
componente forte da ternura.

152


Quase lamento, de sbito, que no seja verdade. Como se dizer a 
frase pusesse dentro de mim uma criana.
Por um instante, porque eu falei, ela existe - est no meio de 
ns, dos braos abraados, dos corpos juntos andando.
Mas Rodrigo afasta-se de mim no mesmo instante, a sua face 
contrai-se e empalidece.
No  verdade, digo, mas ele atira-me contra a parede, sacode-me 
pelos ombros com movimentos descontrolados, como se tivesse 
enlouquecido.
No  verdade, repito, arrependida e aflita.
Mas ele no ouve, no quer ouvir mais nada, tem o rosto lvido e 
os olhos brilham de pnico e de raiva.
De propsito, grita. De propsito. Para dar cabo da minha vida -
Segura-me os braos com que tento prender-lhe as mos, torce-os 
brutalmente como se quisesse liquidar um inimigo, empurra-me com 
fora para trs e de repente vai-se embora sem me olhar, quase a 
correr.
A carta no dia seguinte. Com frases como pedras.
(O pai gritava: Vais ouvir. E a me tapava os ouvidos para no 
ouvir, mas ele martelava-lhe as palavras para dentro da cabea, 
cada uma com mais fora que a anterior, como se quisesse faz-la 
rebentar. Vais ouvir.)
Vais ouvir: Nunca tive a certeza de gostar de ti desse modo. 
Ainda sei muito pouco o que quero. Verdura dos anos, do teu 
lado e do meu. De qualquer modo, no podamos continuar assim. 
Tnhamos de acabar, em qualquer altura.
(O pai atira uma pedra  cabea da me, e ela comea a sangrar, 
acima das sobrancelhas, no meio da testa. O sangue corre, de 
dentro dos ouvidos):
Se houve algo mais, tem de haver soluo. O meu pai paga todas 
as despesas. Sabemos de um bom mdico. Na frica do Sul.
Como pedras. Como facas. Uma faca na boca da me para que se 
cale, em cada um dos olhos para que no veja, no corao para que 
no sinta, uma faca no ventre para que a criana de ambos 
desaparea, desaparea depressa. Para sempre.
Talvez seja uma carta ditada, penso depois relendo-a, porque o 
seu modo de falar no  este. Mas  sua a letra, e  ele que a 
assina: Rodrigo.

153


E tambm o seu nome se transformou em pedra.
Junto com a carta vinha um ramo de rosas.
Deito-as no lixo, e  carta rasgada.
Para escndalo e surpresa de Rosrio.  noite encontro-as na 
jarra do meu quarto, tal como vinham, embrulhadas em papel 
celofane, e ainda com a etiqueta da florista.
Rosa to linda, no deita fora, no, diz ela da porta.
Livra-te de lhes tocar, grito atirando pela segunda vez o ramo 
para o balde da cozinha.
Preciso de falar com Rodrigo. De explicar-lhe, e de o deixar 
explicar-me -
O minino no est, diz a voz de Antnio ao telefone. Foi para a 
Beira, com o pai.
Nas semanas seguintes, ele no vem s aulas. E quando telefono 
Joaquim, Antnio ou Juliano repetem sempre que o minino no est. 
Ficou na Beira. Em casa dos padrinhos.
Qual  o telefone?
Telefone l no tem no.
Acabo finalmente por escrever-lhe:
No era verdade. No h nenhuma criana. Mas se houvesse, no 
serias tu nem o teu pai a decidir por mim se viveria.
De qualquer modo, foi bom termos tido esta conversa. Fiquei a 
conhecer-te. Agora que te conheo, no te quero ver mais.
Diz ao teu pai que gaste com ele o seu dinheiro e v ele mesmo 
ao mdico, na frica do Sul ou noutro lugar, acrescento. A um 
mdico de loucos. E j agora vai tambm, porque ests a ficar 
igual a ele.
Hesito, com a caneta na mo. No sei se vou parar, porque tudo o 
que importa j foi dito, ou se apenas comecei e a seguir 
continuo, e no vou parar nunca mais.
Mas j de repente enchi uma folha e outra e outra e outra - uma 
carta longa, para uma raiva longa.
(O teu pai paga todas as despesas. E tu e ele despedem-me 
rapidamente, pela porta dos fundos.) (Achas que eu queria um 
filho, como seguro de vida?) (Por acaso pensas que vales mais 
do que eu?)

154


Releio, no fim, mas tenho dificuldade em distinguir as palavras: 
muitas frases foram riscadas, substitudas por outras, e de novo 
escritas no meio das linhas, a letra  irregular, trmula s 
vezes, o papel est amarrotado e sujo de lgrimas.
Vou ter de recopiar estas malditas folhas, verifico, exausta, 
sentindo a cabea andar  roda. Mas acabo por desistir. Ficaro 
apenas as primeiras frases, decido. Estou demasiado cansada e o 
esforo de escrever, agora que o fiz, parece-me de todo intil.
No direi mais nada. S o incio. A agressividade pode ser ainda 
um contacto, a esperana de uma reaco, parece-me. E neste 
momento j no desejo nenhuma reaco de Rodrigo. S quero um 
corte fundo. Sem raiz.
E foi precisamente o que aconteceu: Rodrigo nunca mais me 
procurou, nem telefonou sequer.
Faltou s aulas o mais que pde, praticamente apareceu quase s 
no fim para os exames. E passava por mim como se no me 
conhecesse, como se nunca me tivesse conhecido.
Foi quando decidimos escrever a frase a carvo, na parte de fora 
do muro do liceu. Para que no esquecessem. Porque a guerra era 
longe e a vida na cidade continuava igual, como se nada fosse. 
Domingo  noite, combinvamos. Quando no houvesse quase ningum 
na rua.
Mesmo assim teria de ser muito depressa, porque de vez em quando 
passavam carros e tnhamos medo da polcia.
Roberto escreveria Viva Moambique, e a mim cabia escrever 
Independente. Com um ponto de exclamao a seguir.
Exactamente no momento de cortar o T viram-se faris no fim da 
rua. Acabei como pude o que faltava e escondi-me atrs da rvore 
mais prxima. (No posso negar se me apanharem, tenho as mos 
sujas e a roupa, e de certeza que tambm a cara est cheia de 
carvo.
Meu Deus, pensei ainda com o corao a bater enquanto o carro se 
aproximava, como havemos de mudar o mundo, se j escrever uma 
frase na parede  to difcil) -
O ponto de exclamao, vimos ao entrar na manh seguinte, ficou 
bastante torto e um palmo mais abaixo do que as letras. Mas a 
frase - louvado Deus - estava l.

155


A carroa no anda, diz a L domingo. Partiu roda. Ele fica 
sentado na esteira, fumando, fumando.
(J fez de tudo e agora est cansado. Morrer mesmo serve.)
(Uma roda girando no vazio. A gente empurra, empurra, e a carroa 
da vida no avana - at que de repente uma roda salta por cima 
de ns e nos esmaga) -
Gostava de acreditar, penso olhando Laureano atravs da porta 
entreaberta (desdobra o jornal, limpa os culos com o leno e 
depois de tornar a p-los mergulha pacientemente na leitura, 
fazendo um rudo leve ao voltar as folhas). Gostava de acreditar 
que ele pode ser feliz com Rosrio, que uma criana pode ser um 
recomeo.
Mas j ele deixou cair o jornal, com aquele seu ar perdido e 
ausente, e dormita, sem tirar os culos, sentado na 
cadeira--aviador, a boca entreaberta, a cabea voltada para o 
tecto.
E uma tarde de domingo, uma tarde morta de domingo.
Rosrio saiu, a esta hora passeia talvez com o carteiro no 
Xipamanine. Ou est talvez na praia -
No desistas de viver, o que quer que acontea, penso vendo-o 
dormir. No desistas nunca.
Mas ele j desistiu. H muito tempo. Muita gente no aguenta e 
desiste - no por culpa prpria, mas porque uma injustia anda 
atrs de ns, uma roda que de repente nos esmaga. Se no se fugir 
a tempo, se no se conseguir fugir a tempo -
(Zedequias acenando-me na rua. O sorriso sem dentes, o gesto 
breve de levantar a mo.
A xiluva deixada para trs - correndo por uma estrada, correndo, 
mas a estrada  to grande, to graaaaannnde. No se lhe v o 
fim, e ela est to cansada. E a estrada cada vez mais vazia.)
Se queres ir  tua vida no te preocupes, diz o Jamal. A gente 
olha por ele. O Andr e o Relito, eu e a Bibila.
Estudar em Lisboa, digo  noite a Laureano. Deixo cair as 
palavras, como se fossem fteis.
156


Ele olha-me, surpreendido, e durante alguns dias no diz nada. 
Parece mais abatido e cansado do que habitualmente. Depois 
pergunta apenas:
Tens a certeza de que queres ir para l?
Tenho a certeza, respondo. (No tenho alternativa, penso. Mas 
essa frase no digo.)
A carta seguiu, para Narciso. E recebeu, pouco depois, uma 
resposta: Esto as duas no mesmo quarto, e cada uma diz que  a 
outra que desarruma. E para no serem trs a criar mais confuso, 
a Gita pode ficar no outro quarto, com a minha cunhada Isilda, 
que  irm da Josina e ajuda no servio da casa.
Tudo favas contadas, penso. Tudo favas contadas. A prima de 
frica ter naturalmente de ajudar no servio da casa, e para que 
isso v sendo sugerido desde j oferecemos-lhe lugar no quarto da 
outra, que tambm ajuda no servio da casa - porque  claro que 
quem vem de fora e se acolhe por favor a bem dizer no possui 
quaisquer direitos e tem de merecer o seu po servindo os que 
esto dentro -
A vida estreita e pasmada, a falta de ar e de espao no 
pas-casa-das-primas. Seja como for, no tenho alternativa. No 
tenho alternativa.
Um pas mal governado. Mal pensado. Mas podia-se faz-lo 
explodir, para o obrigar a pensar tudo de novo. O Velho estava 
sentado no seu trono - mas no era verdade que podamos 
derrub-lo?
Quem viver, ver. E eu vou viver. E ver explodir, ou implodir, o 
pas-casa-das-primas.
O quarto abafado de Isilda: Posso imagin-lo, com naperons de 
renda debaixo de jarras de vidro e de imagens de santos -
Mas  s no comeo. Porque h-de haver algures trabalho para mim 
em Lisboa - servir  mesa em restaurante, balco de loja, 
escritrio, armazm, boutique, alguma coisa me h-de pagar o 
estudo e garantir a independncia.
A independncia, repito, fascinada, como se at a no tivesse 
percebido que  disso, finalmente, que se trata:

157


Um dia -se livre, e j no se depende de ningum.
D a minha parte a Orqudea, digo a Laureano, referindo-me  
mesada. Ela gasta sempre a dela com a L. Ou antes, divide pelos 
trs. (Porque vai haver outro filho, teremos de ajeitar-nos para 
lhe dar um lugar entre ns.)
Mas eu estou j fora, penso. Independente. Como este pas. E ao 
mesmo tempo que ele.
Sorrio pensando no cartaz e na frase que deixmos sobre o muro.
Som de frica, penso pegando numa maala seca e escutando, junto 
ao ouvido, o bater das sementes. Som de frica, perto e longe. 
Como um bzio.
Guardo-a na mala, lev-la-ei comigo (porque de repente  o ltimo 
dia em Loureno Marques, a mala est feita, ainda aberta, sobre a 
cama).
Saio a fazer algumas compras mas tenho de apressar-me, faltam 
poucas horas para a noite,
(Um voo nocturno, de morcego - uma grande nave de metal 
acelerando sobre a pista, de repente elevando-se no ar e 
partindo.
Voam sempre de noite, diz Joana. Acordam-te s seis ou sete 
horas, para te fazerem engolir o pequeno-almoo, a menos que 
previnas a hospedeira de que no queres ser acordada. Chegas toda 
partida, de dormires na cadeira, com uma manta nos joelhos e a 
cabea a bater contra a janela, escorregando da almofada. Leva um 
casaco de l ou um pullover, no avio faz muito frio s vezes),
entro depois no Zambi para um rpido caf com Roberto. Mostro-lhe 
os pequenos presentes de artesanato que comprei, desembrulho os 
pacotes sobre a mesa.
Achas que vo gostar?
(Um mundo que fica para trs. Rios, machambas, savanas, palmares, 
os grandes espaos, os largos horizontes, e uma rvore que 
crescia nos sonhos e chegava ao cu - que sabem eles disso, que 
podem eles compreender?
A prima de frica, que viveu outras coisas e vem de lugares onde 
se fala uma lngua mestiada, em que a gramtica rebenta porque o 
pensamento acontece de outro modo e tem de ser livre de 
acontecer, que sabem eles disso, que sabem eles disso)

158


-
Vai faltar-me o ar em Lisboa, digo.
Ele sorri, refaz comigo os embrulhos.
No desistas.
No desistas, digo-lhe tambm. No desistas nunca.
(E  um ponto final numa conversa. Porque agora os caminhos se 
afastam. Depois de termos, desde sempre, partilhado quase tudo.)
Acompanho-te a casa.
Quando chegamos ele pra em frente, no outro lado da rua, e 
abraa-me:
Vou ficar aqui at entrares.
(At desapareceres. At desapareceres na noite, no escuro.)
 porta volto-me para trs e aceno. Mas no o vejo porque os meus 
olhos tm chuva e a noite desceu de repente. Como uma plpebra 
caindo.



OUTROS AUTORES NESTA COLECO


     1 - Miguel Torga, Novos Contos da Montanha;
     2 - Jorge Amado, Gabriela Cravo e Canela;
     3 - Jos Cardoso Pires, O Delfim;
     4 - Ldia Jorge, O Cais das Merendas;
     5 - Helena Marques, O ltimo Cais;
     6 - Manuel Alegre, Jornada de frica;
7 - Ins Pedrosa, Nas Tuas Mos;
     8 - Pepetela, Mayombe;
     9 - Nuno Bragana, A Noite e o Riso;
     10 - lvaro Guerra, No jardim das Paixes Extintas;
     11 - Joo de Melo, O Meu Mundo no  Deste Reino;
     12 - Jos Eduardo Agualusa, Estao das Chuvas;
     13 - Teolinda Gerso, A rvore das Palavras;
     14 - Mrio Cludio, Ursamaior;
     15 - Joo Ubaldo Ribeiro, Misria e Grandeza
               do Amor de Benedita;
     16 - Jos Gomes Ferreira, Aventuras de Joo sem Medo.


Data da Digitalizao


Amadora, Setembro de 2003



